A memória de Nonô – Augusto Vieira

    Transcrevo, aqui, a crônica, do maestro Armênio Graça Filho, em homenagem à memória de meu querido pai Nonô:

    “Não há uma só vez em que passe em frente a sua antiga residência, na rua Presidente Vargas (ao lado da casa de Biela, aquela que tocava harmônio na Igreja da Matriz), lá em Montes Claros, que não me lembre dele: alto, forte, sorridente e bem humorado. Norival Vieira, meu querido “Nonô”, é, para mim, o primeiro exemplo de personalidade “pro ativa”, hoje tão em moda. O amor, o carinho, a delicadeza, a disponibilidade e o extraordinário humor com que tratava a esposa Maria Helena e os filhos Duto, Di e Xande, ainda sobravam para gastar comigo. Lembro-me bem de chegar à sua casa, à noite, e ouvir a “radiola” tocando “Cachito” ou “La Golondrina”, canções interpretadas por Nat King Cole, num disco long-play intitulado “Cole en Espanõl”, que foi verdadeira febre na cidade e trilha sonora de minha infância. Sentávamos na sala de jantar, em torno daquela mesa giratória circular dupla, ou seja, dois tampos circulares de dimensões diferentes superpostos. Num se apoiavam pratos e talheres e, no outro, que era móvel e acima do primeiro, ficavam os alimentos. Jantávamos ou fazíamos um lanche. Depois eu sempre pedia:

    – Nonô que tal a gente comer um abacaxizinho lá na serra de Bocaiúva?

    Sempre pronto, ele chamava Maria Helena e os filhos que ali estivessem e seguíamos no seu glorioso Buick V8, todo cheio de cromados, céleres e felizes, rumo à serra.

    Nonô e eu éramos amigos íntimos e confidentes. Eu devia ter 5 ou 6 anos. Lembro dele me perguntando o que eu achava do Sputnik, o primeiro satélite artificial, lançado pelos russos, e de Laika, a cadela, também russa, que foi o primeiro ser vivo a ir ao espaço. Ele achava um feito notável do homem. E era. Nas noites que íamos à Serra de Bocaiúva, noites e céus que só Montes Claros tem, saíamos do carro e ficávamos olhando o firmamento, procurando localizar e ver o Sputnik se movendo. Meu Deus, que emoção! Lá embaixo tal qual uma lagoa de luz, Montes Claros emergia da escuridão. As memórias deste céu noturno, estrelado e lindo, de minha infância, foram a inspiração para que, anos mais tarde, eu viesse a compor o poema sinfônico tempus sidereum.

    Quando a canção “Boneca Cobiçada”, cantada por Anísio Silva (Boneca çobiçada, teus lábios têm veneno, teu corpo não tem dono...), foi proibida de ser tocada em Montes Claros por Padre Dudu e pelo bispo D. José Alves Trindade, por ser imoral, música do pecado, de “zona boemia e rapariga” (como se dizia na época), houve um comentário geral e intenso na cidade e, é lógico, fiquei sabendo dos boatos, pois criança percebe tudo. Fui consultar meu amigo Nonô. E lhe perguntei:

    – Nonô “o quê qui é” zona boêmia e rapariga?

    Ele deu uma grande e sonora gargalhada e disse:

    – Vou te explicar.

    Maria Helena protestou veementemente:

    – Nonô, não! De jeito nenhum! Seu Armênio (meu pai) vai ficar bravo e brigar com você.

    Mas o impávido Nônô tinha lá as suas artimanhas e jeitos. Convenceu e amaciou Maria Helena até ela concordar. Como quem não quer nada, convidou-nos a um passeio noturno. Entramos, os três, no Buickão, e saímos pela noite montes-clarense. Sentado no banco da frente, junto à janela, coração acelerado, sentia frio em meu rosto. Onde estaríamos indo? O que seria “zona boemia” e “rapariga”? O automóvel ganhou as proximidades da Praça de Esportes, contornou-a, pelos fundos, e lembro-me bem dos faróis, varando e iluminando a noite, e da cerca viva de fícus que contornava toda a praça. Finalmente Nonô parou nas proximidades de um sobradinho azul claro, em cuja entrada se viam uma luz vermelha, acesa, e colunas, retorcidas como um parafuso, pintadas de branco. Uma varanda com cadeiras e uma grade de ferro batido separavam a casa da rua. Lembro, ainda, que, no silencio da noite, tocavam música lá dentro e ela chegava até nós, no carro. Mulheres entravam e saiam acompanhadas de homens, enquanto outras, em grupos, estavam paradas na calçada. Risos, abraços e afagos. Entra e sai de gente. Música tocando. Aí Nonô me explicou que aquilo é que era a zona boêmia. Um lugar onde tocavam música e dançavam. Um lugar onde as pessoas, quando tristes, iam para se alegrar. E “raparigas”, continuou, eram aquelas moças que eu estava vendo, entrando e saindo, e que trabalhavam e moravam ali, naquela casa. Elas é que ajudavam as pessoas tristes que ali chegavam. Eram as enfermeiras da santa casa da alma dos homens. Maria Helena, impaciente, com razão, disse que já demoráramos demais e era hora de irmos. Ainda fiz duas perguntas: o porquê daqueles nomes esquisitos “zona”, “boêmia” e “rapariga”, e de ter Padre Dudu implicado com aquele lugar e aquelas pessoas que pareciam ajudar e cuidar dos outros. O grande filósofo Nonô, com sua inteligência, presença de espírito e perspicácia, logo disparou:

    – Armeninho, todas as cidades são divididas em vários lugares, chamados de zonas. Aqui neste lugar, onde estamos, é a Zona da Alegria. Ali, ao lado, está a Praça de Esportes, que é a Zona do Esporte, aonde as pessoas vêm nadar, jogar futebol, vôlei e basquete. Lá longe, fica o cemitério, que é a Zona dos Mortos. Há também a Zona das Escolas, onde ficam o Grupos Escolares, o Colégio Imaculada, a Escola Normal. Entendeu?

    – Sim, disse eu, mas por que esse nome complicado: rapariga?

    Aí Nônô se superou:

    – Rapariga é palavra estrangeira. “Rapa” é raspar, tirar; “riga” é tristeza. Entendeu?

    Entendi, disse, e arrematei:

    – Então “rapariga” é raspadeira de tristeza. E todas aquelas moças são raspadeiras de tristezas.

    – Isso mesmo, replicou o mestre, sorrindo, vendo que sua tese havia sido compreendida.

    Maria Helena pontuou, mais uma vez, o adiantado da hora e a necessidade premente de partirmos. Nonô ligou o carro e arrancamos lentamente, passando na porta do puteiro. No banco da frente, na janela do carona, com a cabeça quase do lado de fora, vi tudo em detalhes: mulheres de batom muito vermelho, usando saias rodadas, com suas bocas rubras e dentes muito brancos; homens de cabelos “englostorados” e bigodinhos finos. Notei seus olhares de surpresa, espanto e simpatia, ao verem aquele inimaginável rosto infantil devassando a intimidade da vida noturna. O carro foi se afastando do sobradinho e, olhando pela janela, eu deixaria para trás aquela cena que jamais se apagaria de minha memória. Para deixar-me em casa, na rua Dr. Veloso, Nonô subiu a rua do Posto Kelly – que era de Wandick Drumond e ficava ao lado dos Correios – e entrou na Praça da Matriz. Quando passamos em frente à igreja, ainda sob o impacto da magna aula sobre zoneamento das cidades, arrisquei um arremate antítese:

    – Nonô, você não acha que Padre Dudu tá chateado é por ciúme, porque o pessoal tá deixando de frequentar a Zona da Reza (e apontei para a igreja da Matriz) e só querendo ir para a Zona da Alegria?

    Uma estrondosa gargalhada ecoou dentro do carro.

    Logo chegamos à porta de minha casa. Dei um abraço em Nonô, um beijo em Maria Helena e entrei.

    Esse fato marcaria para sempre minha visão das putas, puteiros, assemelhados & afins. E, por conseqüência, do mundo. Uma visão humana, gregária, que procura o que une, não o que separa. Um olhar que considera a condição humana e não luta contra ela. Esse o humanismo renascentista de Nonô, um homem-menino, qualidade dos raros.

    Se todos fossem iguais a você, Nonô, que maravilha viver!””

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