Dadá Maravilha: sou alegre, mas não sou feliz

     O rei nu

     - Antigo goleador, Dadá Maravilha vive como celebridade local, mas admite: "Sou alegre, mas não feliz" -

    Por Adriano Wilkson - Do UOL Belo Horizonte - Fotos: Samerson Gonçalves/UOL

    "O que eu estou fazendo aqui?"
    Dario José dos Santos estava cansado de tanta humilhação quando resolveu se transformar em uma pessoa diferente. Na pele de Dadá Maravilha, o filho de um eletricista analfabeto foi campeão nacional, campeão mundial e jogou ao lado de gente como Pelé, Zico, Tostão e Gérson.
    Marcou mais de 900 gols e deu alegria a torcidas de times tão diferentes como Atlético-MG, Internacional, Flamengo, Bahia e Paysandu. É amado por adultos e crianças na cidade onde mora, e vive cercado de amigos.
    Mas por trás da capa heroica de Dadá Maravilha, Dario, aos 71 anos, se vê diante de um mundo confuso, sofre com um coração partido, fecha os olhos sozinho toda a noite e se pergunta: “O que eu estou fazendo aqui?”


    "Vocês querem ver um beijo gay?"


    A silhueta de um senhor de compleição firme, porém cansada, surge contra o sol de uma manhã mineira recente, suas pernas arqueadas como se ele montasse um cavalo invisível.
    Conforme ele se aproxima, você vê Dadá Maravilha pela primeira vez – um sorriso generoso te dando bom dia, um olhar quase se fechando pela força das bochechas, um anel em dedos diferentes de cada mão, um relógio dourado no pulso, uma pochete de couro balançando no ombro direito, a chave do carro na cintura e, nas mãos, uma agenda estufada, onde ele anota em caligrafia rebuscada todos os compromissos da semana.
    Dadá está arfando. “Preparo físico é tudo”, ele diz, meio se desculpando, porque tem 71 anos e está sedentário. “Tive que andar de lá até aqui.” Lá é a rua distante onde ele parou seu carro; aqui é a sede da TV Alterosa, afiliada do SBT em Belo Horizonte.
    Na portaria da TV, onde há duas décadas o ex-jogador faz comentários ao vivo, é como se ele estivesse no sofá de casa, ou no pátio do colégio. "Vocês querem ver um beijo gay?”, Dadá Maravilha pergunta, caminhando romanticamente em direção ao porteiro, um rapaz meio careca e engravatado que se afasta. "Sai daqui, viado!”, repele o porteiro. Dadá insiste. Os dois ensaiam uma perseguição na frente das catracas da TV. São quase 11 horas, mas parece a hora do recreio.
    Enquanto concede entrevista, Dadá, autor do gol que deu o único título brasileiro do Atlético-MG, tricampeão mundial com a seleção no México, o quinto maior goleador da história do futebol do Brasil e pai de quatro filhos, não deixa de ser um homem fazendo homices. Dá chutes e palmadas na bunda dos funcionários da TV, os abraça, os chama de viado e boiola e diz coisas como:
    Quando o Dadá pulava, beque nenhum conseguia pular junto. E se pulasse, tinha que fazer uma chupetinha no Dadá. O Dadá nunca dispensava uma chupetinha.”
    As mulheres ele trata diferente: “Isso foi um assalto de beijo”, explica ele após encostar os lábios na bochecha de uma moça ruiva chegando para trabalhar. “Como está o senhor?”, a moça pergunta. “Melhor agora depois desse beijo.”

    Sobre como conseguia parar no ar como um beija-flor ou um helicóptero. Sobre como marcou 499 gols de cabeça e se tornou “o melhor cabeceador não do Brasil, mas do planeta inteiro”. Sobre como desafiou Pelé e fez mais gols que ele em um único jogo. Sobre como as pessoas o humilhavam e sobre como elas hoje o amam (e elas realmente o amam!). Sobre como ele era um perna de pau e sobre como, mesmo assim, se tornou um ídolo. Sobre como até Deus virou fã de Dadá.
    “Eu era muito bom!”, conclui ele.
    “Só não era humilde”, pondero eu.
    “Mas meu pai me ensinou a falar a verdade. Que quem não contava a verdade ia para o inferno. E a verdade é que eu era muito bom. Se eu falo que não sou bom vou direto pro inferno e o diabo ainda enfia um tridente na minha bunda.”
    O diabo enfiando um tridente na bunda de Dadá Maravilha, você pensa.

    "Ô, Dadá, não fica falando essas coisas que você assusta as pessoas", aconselha o amigo porteiro. “A gente aqui sabe que você é boiola, mas eles não sabem.”
    Dadá então dá meia volta e corre em direção ao provocador. Ligeiro, o funcionário dá um salto ninja sobre sua bancada ficando totalmente fora do alcance de Dadá. “Olha só, rapaz, não sabia dessa virtude aí não! O cara é viado, mas é rápido”.

    Maravilha nos corredores silenciosos da TV
    Mas existe uma história sobre esse homem que pouca gente conhece. E ela começa a se desvelar nos corredores silenciosos e semi-iluminados dos estúdios de uma estação de TV com várias salas vazias e computadores ociosos.
    O segredo dele está nessa pochete.”
    Quem diz é Leopoldo Siqueira, que Dadá chama de Leozinho Delícia, o apresentador do programa “Alterosa Esporte”. A pedidos, Dadá revela o conteúdo de sua pochete. Lá se vê: Um celular, que ele usa apenas para fazer ligações pois não sabe como acionar outras funções. Uma carteira de documentos. O comprovante de aposta de uma loteria porque “Deus um dia vai se tocar que o Dadá merece um dinheirinho”. Dois pedaços de papel plastificado onde constam os números de telefone que ele mais usa, como o de sua filha que mora no interior de São Paulo.
    Na última folha de sua agenda de contatos, ele mostra os telefones de outras pessoas importantes em sua vida:
    Sua ex-mulher, de quem ele está separado há 20 anos e que rompeu o casamento mesmo ele tendo “os quatro pneus arrastado por ela”. Uma taxista com quem ele teve um breve romance. O cardiologista que cuida de seu coração partido. Uma loura por quem ele foi apaixonado, mas que o largou depois de ouvir o conselho do irmão de que era melhor não namorar “um preto, um macaco” como ele.
    Depois dessa decepção ele desistiu de procurar um novo amor.
    "A gente que é preto sofre muito com isso. Quando ela me largou eu chorava, chorava, chorava...”

     

    O carinho e a carência

     

    Um jornalista com quem Dadá divide a bancada do programa se aproxima, e o ex-jogador lhe oferece um abraço caloroso, um abraço longo como se um dos dois houvesse acabado de voltar de uma viagem ao redor ao mundo.
    Dadá não vive sem tocar, sem abraçar, sem beijar, sem sentir o corpo das pessoas de que gosta. Ele parece incapaz de dar uma resposta atravessada, de ser grosseiro ou se recusar a atender qualquer pedido. Ele também adora estar na frente de uma câmera, adora falar sobre sua vida a desconhecidos. Ele parece ter uma história para cada pergunta que você fizer.

    Dadá talvez seja a pessoa mais generosa e carinhosa que existe por aí. “É porque eu sou muito carente”, ele se explica.

    “As pessoas me abraçam porque eu abraço elas. Mas eu sinto muita falta de um carinho espontâneo, entende?”


    No pequeno apartamento de três quartos onde mora sozinho, ele vive a solidão de alguém que está há duas décadas sem uma companheira. “Quando meu filho Dadazinho comprou um apartamento e foi morar sozinho eu fiquei desesperado. Ele estava sempre comigo, fazia tudo para mim. Continua fazendo, mas não é a mesma coisa.”

    Quando não está fora de casa sendo Dadá Maravilha, posando para selfies e abraçando as pessoas, Dario José dos Santos caminha de seu quarto à sala, de lá ao banheiro, e de lá de volta ao quarto. Coloca uma canção de Beethoven no pequeno toca-CD estacionado em seu criado-mudo e deita na cama. Não gosta muito de ver TV (a não ser quando passa lutas de MMA) e nem de ler. Não usa a internet e não sabe a senha de sua rede wi-fi. Quando tem fome, como não sabe cozinhar, vai ao shopping center comer macarrão. Como não sabe programar a máquina de lavar, espera que um de seus filhos chegue para lavar suas roupas. Uma ou duas vezes por semana vai a um hotel onde há um baile em que pode conhecer mulheres e flertar.
    Não sabe dançar, mas aprendeu a conversar e a usar perfume.
    “Tenho a vida de um aposentado”, ele conta. Tem alguma coisa que ele gostaria de ter feito e não fez, alguma coisa que esteja faltando em sua vida?
    "Não reclamo de nada, Deus foi muito bom comigo. Tenho quatro filhos que amo, sou avô. Mas não posso dizer que eu sou feliz. Sou alegre, mas não feliz. Não acredito na felicidade de um homem sozinho".

    Vida e morte de uma celebridade
    “Qual a pior coisa de envelhecer?”, pergunto a Dadá Maravilha na entrada de um shopping center ao lado de sua casa, aonde vamos almoçar.
    “É o pau não subir mais.”
    O "pau de Dadá" parece ter desempenhado um papel importante em sua carreira. Ou pelo menos na mitologia em torno dela. Ele costuma dizer que se tornou um atacante ainda mais eficiente quando começou a se masturbar antes dos jogos. “Eu batia a minha punhetinha e ficava levinho, levinho, era mais fácil parar no ar”, disse ele logo que nos conhecemos.

    Hoje ele é um senhor assombrado por histórias de terror envolvendo outros senhores que tomaram pílulas para manter uma ereção.
    Ouvi que um velho tomou tanto que explodiu em cima de uma menina! Deus me livre! Esse negócio é muito perigoso.”
    O esquecimento é outro dos inconvenientes da velhice. Um dia ele pegou o metrô e quando chegou em casa ficou desesperado ao não encontrar seu carro na garagem. Depois soube que tinha ido ao trabalho de carro e esquecido ele lá. Para combater os vacilos da memória, ele colou acima do porta-luvas um adesivo que diz “Não posso esquecer”.

    Mas esses pensamentos se afastam enquanto ele caminha à praça de alimentação do shopping. Com aparições semanais em um dos programas mais populares da TV mineira, ele se tornou uma celebridade local, dessas que não podem andar dez metros sem serem abordadas por admiradores.
    “Sou cruzeirense mas adoro você”, diz uma mulher antes de se posicionar para uma foto. “Olhem, crianças!”, aponta a professora que lidera uma excursão escolar. “A história do Atlético.” “Sou paulista, mas esse homem é uma lenda”, afirma um executivo de camisa social. “Fala bem do nosso Galão lá, sô!”, pede um rapaz.
    “Jesus no coração”, Dadá responde para se despedir de cada fã. Às vezes, é ele mesmo que toma a iniciativa. Quando alguém se aproxima demonstrando certa hesitação, medo de incomodar ou de ser repelido, ele próprio diz algo como: “Sou eu mesmo. Quer uma foto?” E a pessoa sorri, prepara a foto, dá um abraço, ouve um “Jesus no coração” e sai feliz.

    Nós todos conhecemos a imagem pública de Dadá Maravilha, o homem que se veste de palhaço na TV, que tira sarro das próprias deficiências, que gargalha quando os amigos lhe oferecem bananas ou sugerem que ele está com mal de Alzheimer, que conta histórias pitorescas, folclóricas, nas quais ele sempre começa humilhado e acaba exaltado. Um homem que inventou para si próprio uma biografia heroica e um nome heroico.
    Todas as suas histórias são etapas da clássica jornada do herói, e ele traça a sua trajetória da seguinte forma: um rapaz magro, pobre, feio e sem nenhum talento especial viu a mãe se suicidar ao atear fogo ao próprio corpo, foi internado no reformatório juvenil onde aprendeu a ser bandido; roubou, esfaqueou, brigou, até que aos 19 anos, depois de ver um comparsa levar um tiro na cabeça, decidiu ser jogador de futebol, mesmo sem saber sequer dominar uma bola. Foi chamado de merda, de burro, de ignorante, a torcida o vaiava e um taxista chegou a dizer que o atropelaria se o visse na rua.
    Decidiu deixar de ser humilde, abandonou o nome Dario e virou o Dadá Maravilha, apelido inspirado na Cidade Maravilhosa, onde nasceu. O nome e a postura autoconfiante, quase arrogante, lhe transformaram em um atacante matador, embora pouco técnico. “Eu nunca aprendi a jogar futebol porque enquanto os outros estavam aprendendo, eu estava fazendo gol”, ele costuma dizer.
    O personagem que ele criou para si também lhe rendeu uma profissão fora dos gramados, e ele acredita ser mais amado hoje do que era nos tempos que jogava. “Todos amam o Dadá”, ele diz sorrindo. E corre para abraçar quem o ama. Porque é disso que ele precisa para ficar alegre.
    “Alegre, mas não feliz”, suas palavras continuam ecoando duas semanas depois de nosso encontro.
    Naquele dia, ele apontou no meu peito e perguntou:
    “Você não sabe que você vai morrer?”
    Eu disse que sabia e devolvi a pergunta:
    “Você não tem medo de morrer?”
    “Não tenho”, ele disse.
    "Porque eu acho que eu fiz quase tudo que eu tinha que fazer. Sair de onde eu saí, chutando uma bola pela primeira vez aos 19 anos, e hoje ser o rei Dadá? Só eu.”

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