- EM NOVO DEPOIMENTO, DELATOR COMPLICA GLOBO E CITA PROPINAS NAS COPAS 2026 E 2030 -

      A situação jurídica da Globo se complicou ainda mais nesta quarta-feira 15, no segundo dia de depoimentos do empresário argentino Alejandro Burzaco, que, ontem, já havia delatado a emissora da família Marinho por propinas pagas na compra dos direitos de transmissão da Libertadores da América e Copa Sulamericana.

    No depoimento de hoje, Burzaco revelou como a Globo participou de um esquema de propinas de US$ 15 milhões – o equivalente a R$ 50 milhões – para assegurar exclusividade nas Copas de 2026 e 2030.

    A propina teria sido paga, segundo Burzaco, numa conta no banco Julius Baer, na Suíça, ao dirigente Julio Grondona, já falecido, e que foi homem forte do futebol argentino. À época das negociações, Grondona era também dirigente da Fifa e cuidava dos direitos de transmissão na América Latina.

    Para que isso ocorresse, a Torneos y Competencias, de Buzarco, teria sido orientada pela Globo a criar uma subsidiária na Holanda, que funciona como paraíso fiscal para multinacionais, para receber a propina, antes de repassá-la a Grondona.

    Depois do seu depoimento, rico em detalhes, será possível agora rastrear todo o percurso do dinheiro – da Globo, na Holanda, para a Torneos y Competencias, também na Holanda, e depois para a conta de Grondona, na Suíça.

    Ontem, a Globo negou o pagamento de propinas. Disse ter feito sua própria investigação interna, na qual teria chegado à conclusão de que ela própria, Globo, é inocente.

    Todas as informações mais quentes sobre o caso têm sido reveladas pelo jornalista Ken Bensinger, que cobre o caso para o Buzzfeed, e está escrevendo um livro sobre a corrupção no futebol, no qual a Globo ocupa posição de destaque.

    Ao supostamente pagar propinas para adquirir direitos de transmissão de torneios esportivos, a Globo reforça sua posição monopolista na comunicação – o que amplia sua capacidade de manipular a opinião pública e golpear a democracia, como ocorreu em 1964 e 2016.

     - Acusada por um delator argentino de pagar propina por direitos de transmissão no futebol, a Globo também acompanha com apreensão os desdobramentos de outro possível acordo de delação que deverá detalhar em minúcias a sua participação no esquema de corrupção. -

     Trata-se da delação que o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira trata com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Em maio de 2015, o FBI e a Procuradoria Geral dos EUA iniciaram uma longa investigação sobre a Fifa e Ricardo Teixeira foi um dos nomes acusados de abuso de poder contínuo. Além dele, o seu sucessor na CBF, Marco Polo Del Nero, também está sob investigação dos americanos e ambos evitam sair do país.

    No início de 2017, o nome do cartola foi citado pelo ex-presidente da Conmebol, o uruguaio Eugenio Figueiredo, que revelou à polícia americana que Teixeira era o líder da divisão de propinas no futebol da América do Sul.

    Ricardo Teixeira, que presidiu a CBF entre 1989 e 2012, tem contra si ordem de prisão da justiça espanhola. Ele é acusado de formar uma “organização criminosa” com Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona, e com isso lavar dinheiro em comissões ilícitas de amistosos da seleção brasileira. Rosell foi preso no mês de junho.

     - A TV Globo foi acusada nesta terça-feira, 14, de pagar propina na compra de direitos de transmissão de jogos internacionais - 

     Em depoimento à Justiça dos Estados Unidos, o empresário argentino Alejandro Burzaco, ex-presidente da empresa Torneos, disse que além da Globo, a Fox Sports, Televisa, Media Pro, e empresa Traffic, do brasileiro J. Hawilla, sócio da globo, também pagaram propina por direitos de transmissão de jogos.

    Ele foi ouvido como uma das testemunhas da acusação no julgamento de José Maria Marin, ex-presidente da CBF acusado de extorsão, fraude financeira e lavagem de dinheiro durante negociações de contratos com a Fifa.

    Buzarco também é réu na investigação conduzida pela Justiça americana. Ex-diretor da Torneos y Competencias, empresa de marketing esportivo com sede em Buenos Aires, ele fechou um acordo de delação premiada com os promotores do caso e ainda aguarda a sua sentença.

    No tribunal do Brooklyn, diante dos jurados, Buzarco apontou para Marin, além de dois outros réus na corte, o paraguaio Juan Ángel Napout e o peruano Manuel Burga, afirmando que havia entregado dinheiro ilícito aos três.

    Em nota, a Globo engou estar envolvida em corrupção e promete transparência em seus atos. Leia a nota abaixo:

    ” Sobre depoimento ocorrido em Nova York, no julgamento do caso Fifa pela Justiça dos Estados Unidos, o Grupo Globo afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que após mais de dois anos de investigação não é parte nos processos que correm na justiça americana. Em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos. Por outro lado, o Grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades americanas para que tudo seja esclarecido. Para a Globo, isso é uma questão de honra. Não seria diferente, mas é fundamental garantir aos leitores, ouvintes e espectadores do Grupo Globo de que o noticiário a respeito será divulgado com a transparência que o jornalismo exige.”

      - Cinco razões explicam o retorno do América-MG à Série A -
    Orçamento positivo em 2016, manutenção de Enderson Moreira, desempenho da defesa e aproveitamento como visitante são alguns dos motivos que justificam a classificação do time mineiro
    O América-MG obteve o acesso para a Série A do Campeonato Brasileiro de 2018 no último sábado, 11. Depois de vencer o Figueirense por 2 a 1, a equipe mineira garantiu a classificação adiantada para a elite do futebol brasileiro. Com o principal objetivo do time alcançado, as expectativas agora são para um possível título.
    Com a ajuda do comentarista do Sportv, Henrique Fernandes, o GloboEsporte.com listou cinco motivos que explicam a classificação do Coelho.
    1- Orçamento positivo em 2016
    Em maio deste ano, o América-MG divulgou que terminou o ano de 2016 com lucro de R$ 10 milhões. A participação na Série A daquele ano elevou as contas do clube e deixou tudo em azul. O Coelho teve o melhor balanço financeiro entre os times da capital- o Atlético-MG teve lucro de R$ 2,1 milhões e o Cruzeiro teve déficit de R$ 29,3 milhões.
    De acordo com os números informados ao conselho fiscal, o lucro foi de R$ 9.531.195. A receita bruta foi de R$ 59,5 milhões - quase o dobro dos R$ 29,3 milhões apurados em 2015 (naquela ano, o clube teve déficit de R$ 9,4 milhões). O América-MG lucrou R$ 46 milhões (valor referente às cotas de TV de todas as competições da temporada), mais cerca de R$ 4,2 milhões referente a patrocínios.
    O comentarista Henrique Fernandes avalia que apesar de ter um orçamento menor que o do Internacional, principal adversário na busca do título, o time tinha uma verba maior que das outras equipes da Segunda Divisão.
    - O orçamento do América é inferior ao do Internacional, mas se bem aplicado dava condições do time brigar por cima. É maior que da maioria dos times (da Série B), mas menor que o do Inter. O América conseguiu aplicar bem, soube contratar bem na temporada.
    2- Manutenção de Enderson Moreira
    O treinador americano é o segundo técnico mais longevo nas Séries A e B, com 477 dias no CT Lanna Drumond. Em primeiro lugar está Claúdio Tencati, do Londrina. Enderson chegou ao América-MG em 21 de julho de 2016, quando a equipe tentava se recuperar de um eminente rebaixamento. A Série B veio, e Enderson Moreira não deixou o comando da equipe. Apesar de alguns tropeços do time durante a temporada, e convites para o treinador em outros times, Enderson se manteve forte levando o América-MG de volta para a Série A. Henrique Fernandes vê a manutenção do treinador como um fator fundamental para a boa campanha.
    - A questão do Enderson não cabe só ao América. É uma tendência mundial aos treinadores no segundo ano de trabalho, conseguirem resultado melhores. Um exemplo é o Manchester City (da Inglaterra), com o Guardiola, que está atropelando no Campeonato Inglês e Liga dos Campeões. O time está jogando muito melhor que ano passado. O treinador em uma segunda temporada já conhece melhor o grupo, entende as carências. Os jogadores que permanecem de um ano para o outro, trabalhando com o mesmo técnico, a mesma filosofia, tendem a evoluir dentro de um sistema de jogo que o treinador implanta. A manutenção do Enderson passa por isso. Ele avaliou o time do América ano passado, trouxe jogadores que já conhecia e tinha interesse. Ele muda a característica do grupo de acordo com o que ele pensava sobre futebol. Algo que ano passado ele não fez, pois já tinha um elenco montado. Assumiu o time em um campeonato já transcurso, com o time em situação até muito difícil e pouco pôde fazer. Esse ano, já conhecendo o time do ano passado, pôde montar um time muito melhor.

    3 - Desempenho da defesa
    O América-MG é o time menos vazado nesta edição da Série B. Em 35 jogos levou 25 gols. O segundo colocado é o Internacional, com 26 gols. A equipe mineira também é a que menos perdeu nesta competição. Foram cinco derrotas para: Paysandu, Vila Nova, CRB, Internacional e Oeste. A derrota para o Oeste, na 27ª rodada, inclusive, foi a última vez que o Coelho perdeu. Desde então, foram cinco vitórias e três empates.
    Messias e Rafael Lima são a dupla de zaga titular do treinador. Messias é um jogador novo, que começou a carreira no profissional em 2015. Já Rafael Lima é um jogador com maior rodagem. A junção dos dois têm rendido bons resultados ao Coelho.
    4- Aproveitamento como visitante
    O triunfo e Florianópolis fez o América-MG voltar ao posto de melhor visitante desta Série B, com oito vitórias, sete empates e três derrotas em 18 duelos longe de casa. Junto do Coelho estão também Ceará e Internacional. O aproveitamento do Coelho é de 57,4%. Faltando três rodadas para o fim da Segunda Divisão, a equipe de Enderson Moreira ainda faz mais um jogo fora de casa, contra o Londrina. A última vez que o Coelho perdeu, como visitante, foi na 26ª rodada, contra o Internacional.

    5- Aposta em juventude e resgate de experiência
    O América-MG é um dos grandes celeiros de jogadores do Brasil. Do clube, já saíram grandes nomes como Tostão, Palinha, Euller, Gilberto Silva, Fred (atacante do Atlético-MG), Richarlison (atacante do Watford, da Inglaterra), Danilo (lateral direito do Manchester City, da Inglaterra). No time atual, existem algumas promessas da base, que nesta temporada, conseguiram mostrar seu valor. O meia Matheusinho foi eleito recentemente como o 14º melhor jogador do mundo abaixo dos 19 anos pela revista britânica FourFourTwo, em parceria com o Football Manager. Matheusinho, que ficou à frente de nomes como Vinicius Jr. (emprestado ao Flamengo, pelo Real Madrid), tem três gols marcados pelo América-MG, nesta temporada, em 31 jogos. Contra o Paraná, o jogador sofreu uma grave lesão no joelho, e fica fora de combate até o ano que vem.

    Quem também chamou muita atenção é o zagueiro Messias. Titular absoluto no time de Enderson, o zagueiro só não entrou em campo quando esteve suspenso ou lesionado (o que aconteceu apenas uma vez em toda a temporada). São 45 jogos e três gols pelo Coelho. Outros jogadores, como os volantes Zé Ricardo e Christian são muito usados pelo treinador. Das vezes que o treinador precisou improvisar jogadores na lateral direita, escolheu pelos dois volantes, que deram conta do recado.
    No elenco americano existem algumas peças que são conhecidas na Série A. No entanto, eles acabaram perdendo espaço nas equipes que disputam a elite do futebol, e se reencontraram no América-MG. Nomes como Rafael Lima, Bill, Luan e Giovanni são figurinhas marcadas no time titular do Coelho. Bill é o artilheiro do time, com nove gols. Luan está logo atrás, com oito. Curioso lembrar que dos últimos quatro Campeonatos Brasileiros - Série A- Luan esteve presente em três equipes: Cruzeiro (2013 e 2014) e Palmeiras (2016).
    - São atletas até com experiencia em Série A que o América conseguiu encontrar no mercado por um preço no orçamento, porque não vinham bem. Luan já jogou no Palmeiras e Cruzeiro. É de primeira linha, mas estava em baixa. Estava emprestado ao RB Brasil, em São Paulo. Foi um ótimo achado, um cara que quis, no América, recuperar seu melhor momento. Rafael Lima já tinha disputado algumas Séries A na Chapecoense e Figueirense. Estava em baixa na última temporada, com muitas lesões. Teve dificuldade de se firmar na Chape. Bill a mesma coisa, já atuou no Santos, Corinthians e Botafogo e não vinha tendo uma boa sequência. Esses caras foram detectados pela diretoria do América, por estarem em baixa no mercado. Vieram com preços acessíveis e graças ao trabalho do Enderson, encaixe do América, a motivação dos jogadores conseguiram buscar a recuperação técnica e física no Coelho. É importante que fiquem no ano que vem, já são parte da espinha dorsal do time - analisa Henrique Fernandes.

     O rei nu

     - Antigo goleador, Dadá Maravilha vive como celebridade local, mas admite: "Sou alegre, mas não feliz" -

    Por Adriano Wilkson - Do UOL Belo Horizonte - Fotos: Samerson Gonçalves/UOL

    "O que eu estou fazendo aqui?"
    Dario José dos Santos estava cansado de tanta humilhação quando resolveu se transformar em uma pessoa diferente. Na pele de Dadá Maravilha, o filho de um eletricista analfabeto foi campeão nacional, campeão mundial e jogou ao lado de gente como Pelé, Zico, Tostão e Gérson.
    Marcou mais de 900 gols e deu alegria a torcidas de times tão diferentes como Atlético-MG, Internacional, Flamengo, Bahia e Paysandu. É amado por adultos e crianças na cidade onde mora, e vive cercado de amigos.
    Mas por trás da capa heroica de Dadá Maravilha, Dario, aos 71 anos, se vê diante de um mundo confuso, sofre com um coração partido, fecha os olhos sozinho toda a noite e se pergunta: “O que eu estou fazendo aqui?”


    "Vocês querem ver um beijo gay?"


    A silhueta de um senhor de compleição firme, porém cansada, surge contra o sol de uma manhã mineira recente, suas pernas arqueadas como se ele montasse um cavalo invisível.
    Conforme ele se aproxima, você vê Dadá Maravilha pela primeira vez – um sorriso generoso te dando bom dia, um olhar quase se fechando pela força das bochechas, um anel em dedos diferentes de cada mão, um relógio dourado no pulso, uma pochete de couro balançando no ombro direito, a chave do carro na cintura e, nas mãos, uma agenda estufada, onde ele anota em caligrafia rebuscada todos os compromissos da semana.
    Dadá está arfando. “Preparo físico é tudo”, ele diz, meio se desculpando, porque tem 71 anos e está sedentário. “Tive que andar de lá até aqui.” Lá é a rua distante onde ele parou seu carro; aqui é a sede da TV Alterosa, afiliada do SBT em Belo Horizonte.
    Na portaria da TV, onde há duas décadas o ex-jogador faz comentários ao vivo, é como se ele estivesse no sofá de casa, ou no pátio do colégio. "Vocês querem ver um beijo gay?”, Dadá Maravilha pergunta, caminhando romanticamente em direção ao porteiro, um rapaz meio careca e engravatado que se afasta. "Sai daqui, viado!”, repele o porteiro. Dadá insiste. Os dois ensaiam uma perseguição na frente das catracas da TV. São quase 11 horas, mas parece a hora do recreio.
    Enquanto concede entrevista, Dadá, autor do gol que deu o único título brasileiro do Atlético-MG, tricampeão mundial com a seleção no México, o quinto maior goleador da história do futebol do Brasil e pai de quatro filhos, não deixa de ser um homem fazendo homices. Dá chutes e palmadas na bunda dos funcionários da TV, os abraça, os chama de viado e boiola e diz coisas como:
    Quando o Dadá pulava, beque nenhum conseguia pular junto. E se pulasse, tinha que fazer uma chupetinha no Dadá. O Dadá nunca dispensava uma chupetinha.”
    As mulheres ele trata diferente: “Isso foi um assalto de beijo”, explica ele após encostar os lábios na bochecha de uma moça ruiva chegando para trabalhar. “Como está o senhor?”, a moça pergunta. “Melhor agora depois desse beijo.”

    Sobre como conseguia parar no ar como um beija-flor ou um helicóptero. Sobre como marcou 499 gols de cabeça e se tornou “o melhor cabeceador não do Brasil, mas do planeta inteiro”. Sobre como desafiou Pelé e fez mais gols que ele em um único jogo. Sobre como as pessoas o humilhavam e sobre como elas hoje o amam (e elas realmente o amam!). Sobre como ele era um perna de pau e sobre como, mesmo assim, se tornou um ídolo. Sobre como até Deus virou fã de Dadá.
    “Eu era muito bom!”, conclui ele.
    “Só não era humilde”, pondero eu.
    “Mas meu pai me ensinou a falar a verdade. Que quem não contava a verdade ia para o inferno. E a verdade é que eu era muito bom. Se eu falo que não sou bom vou direto pro inferno e o diabo ainda enfia um tridente na minha bunda.”
    O diabo enfiando um tridente na bunda de Dadá Maravilha, você pensa.

    "Ô, Dadá, não fica falando essas coisas que você assusta as pessoas", aconselha o amigo porteiro. “A gente aqui sabe que você é boiola, mas eles não sabem.”
    Dadá então dá meia volta e corre em direção ao provocador. Ligeiro, o funcionário dá um salto ninja sobre sua bancada ficando totalmente fora do alcance de Dadá. “Olha só, rapaz, não sabia dessa virtude aí não! O cara é viado, mas é rápido”.

    Maravilha nos corredores silenciosos da TV
    Mas existe uma história sobre esse homem que pouca gente conhece. E ela começa a se desvelar nos corredores silenciosos e semi-iluminados dos estúdios de uma estação de TV com várias salas vazias e computadores ociosos.
    O segredo dele está nessa pochete.”
    Quem diz é Leopoldo Siqueira, que Dadá chama de Leozinho Delícia, o apresentador do programa “Alterosa Esporte”. A pedidos, Dadá revela o conteúdo de sua pochete. Lá se vê: Um celular, que ele usa apenas para fazer ligações pois não sabe como acionar outras funções. Uma carteira de documentos. O comprovante de aposta de uma loteria porque “Deus um dia vai se tocar que o Dadá merece um dinheirinho”. Dois pedaços de papel plastificado onde constam os números de telefone que ele mais usa, como o de sua filha que mora no interior de São Paulo.
    Na última folha de sua agenda de contatos, ele mostra os telefones de outras pessoas importantes em sua vida:
    Sua ex-mulher, de quem ele está separado há 20 anos e que rompeu o casamento mesmo ele tendo “os quatro pneus arrastado por ela”. Uma taxista com quem ele teve um breve romance. O cardiologista que cuida de seu coração partido. Uma loura por quem ele foi apaixonado, mas que o largou depois de ouvir o conselho do irmão de que era melhor não namorar “um preto, um macaco” como ele.
    Depois dessa decepção ele desistiu de procurar um novo amor.
    "A gente que é preto sofre muito com isso. Quando ela me largou eu chorava, chorava, chorava...”

     

    O carinho e a carência

     

    Um jornalista com quem Dadá divide a bancada do programa se aproxima, e o ex-jogador lhe oferece um abraço caloroso, um abraço longo como se um dos dois houvesse acabado de voltar de uma viagem ao redor ao mundo.
    Dadá não vive sem tocar, sem abraçar, sem beijar, sem sentir o corpo das pessoas de que gosta. Ele parece incapaz de dar uma resposta atravessada, de ser grosseiro ou se recusar a atender qualquer pedido. Ele também adora estar na frente de uma câmera, adora falar sobre sua vida a desconhecidos. Ele parece ter uma história para cada pergunta que você fizer.

    Dadá talvez seja a pessoa mais generosa e carinhosa que existe por aí. “É porque eu sou muito carente”, ele se explica.

    “As pessoas me abraçam porque eu abraço elas. Mas eu sinto muita falta de um carinho espontâneo, entende?”


    No pequeno apartamento de três quartos onde mora sozinho, ele vive a solidão de alguém que está há duas décadas sem uma companheira. “Quando meu filho Dadazinho comprou um apartamento e foi morar sozinho eu fiquei desesperado. Ele estava sempre comigo, fazia tudo para mim. Continua fazendo, mas não é a mesma coisa.”

    Quando não está fora de casa sendo Dadá Maravilha, posando para selfies e abraçando as pessoas, Dario José dos Santos caminha de seu quarto à sala, de lá ao banheiro, e de lá de volta ao quarto. Coloca uma canção de Beethoven no pequeno toca-CD estacionado em seu criado-mudo e deita na cama. Não gosta muito de ver TV (a não ser quando passa lutas de MMA) e nem de ler. Não usa a internet e não sabe a senha de sua rede wi-fi. Quando tem fome, como não sabe cozinhar, vai ao shopping center comer macarrão. Como não sabe programar a máquina de lavar, espera que um de seus filhos chegue para lavar suas roupas. Uma ou duas vezes por semana vai a um hotel onde há um baile em que pode conhecer mulheres e flertar.
    Não sabe dançar, mas aprendeu a conversar e a usar perfume.
    “Tenho a vida de um aposentado”, ele conta. Tem alguma coisa que ele gostaria de ter feito e não fez, alguma coisa que esteja faltando em sua vida?
    "Não reclamo de nada, Deus foi muito bom comigo. Tenho quatro filhos que amo, sou avô. Mas não posso dizer que eu sou feliz. Sou alegre, mas não feliz. Não acredito na felicidade de um homem sozinho".

    Vida e morte de uma celebridade
    “Qual a pior coisa de envelhecer?”, pergunto a Dadá Maravilha na entrada de um shopping center ao lado de sua casa, aonde vamos almoçar.
    “É o pau não subir mais.”
    O "pau de Dadá" parece ter desempenhado um papel importante em sua carreira. Ou pelo menos na mitologia em torno dela. Ele costuma dizer que se tornou um atacante ainda mais eficiente quando começou a se masturbar antes dos jogos. “Eu batia a minha punhetinha e ficava levinho, levinho, era mais fácil parar no ar”, disse ele logo que nos conhecemos.

    Hoje ele é um senhor assombrado por histórias de terror envolvendo outros senhores que tomaram pílulas para manter uma ereção.
    Ouvi que um velho tomou tanto que explodiu em cima de uma menina! Deus me livre! Esse negócio é muito perigoso.”
    O esquecimento é outro dos inconvenientes da velhice. Um dia ele pegou o metrô e quando chegou em casa ficou desesperado ao não encontrar seu carro na garagem. Depois soube que tinha ido ao trabalho de carro e esquecido ele lá. Para combater os vacilos da memória, ele colou acima do porta-luvas um adesivo que diz “Não posso esquecer”.

    Mas esses pensamentos se afastam enquanto ele caminha à praça de alimentação do shopping. Com aparições semanais em um dos programas mais populares da TV mineira, ele se tornou uma celebridade local, dessas que não podem andar dez metros sem serem abordadas por admiradores.
    “Sou cruzeirense mas adoro você”, diz uma mulher antes de se posicionar para uma foto. “Olhem, crianças!”, aponta a professora que lidera uma excursão escolar. “A história do Atlético.” “Sou paulista, mas esse homem é uma lenda”, afirma um executivo de camisa social. “Fala bem do nosso Galão lá, sô!”, pede um rapaz.
    “Jesus no coração”, Dadá responde para se despedir de cada fã. Às vezes, é ele mesmo que toma a iniciativa. Quando alguém se aproxima demonstrando certa hesitação, medo de incomodar ou de ser repelido, ele próprio diz algo como: “Sou eu mesmo. Quer uma foto?” E a pessoa sorri, prepara a foto, dá um abraço, ouve um “Jesus no coração” e sai feliz.

    Nós todos conhecemos a imagem pública de Dadá Maravilha, o homem que se veste de palhaço na TV, que tira sarro das próprias deficiências, que gargalha quando os amigos lhe oferecem bananas ou sugerem que ele está com mal de Alzheimer, que conta histórias pitorescas, folclóricas, nas quais ele sempre começa humilhado e acaba exaltado. Um homem que inventou para si próprio uma biografia heroica e um nome heroico.
    Todas as suas histórias são etapas da clássica jornada do herói, e ele traça a sua trajetória da seguinte forma: um rapaz magro, pobre, feio e sem nenhum talento especial viu a mãe se suicidar ao atear fogo ao próprio corpo, foi internado no reformatório juvenil onde aprendeu a ser bandido; roubou, esfaqueou, brigou, até que aos 19 anos, depois de ver um comparsa levar um tiro na cabeça, decidiu ser jogador de futebol, mesmo sem saber sequer dominar uma bola. Foi chamado de merda, de burro, de ignorante, a torcida o vaiava e um taxista chegou a dizer que o atropelaria se o visse na rua.
    Decidiu deixar de ser humilde, abandonou o nome Dario e virou o Dadá Maravilha, apelido inspirado na Cidade Maravilhosa, onde nasceu. O nome e a postura autoconfiante, quase arrogante, lhe transformaram em um atacante matador, embora pouco técnico. “Eu nunca aprendi a jogar futebol porque enquanto os outros estavam aprendendo, eu estava fazendo gol”, ele costuma dizer.
    O personagem que ele criou para si também lhe rendeu uma profissão fora dos gramados, e ele acredita ser mais amado hoje do que era nos tempos que jogava. “Todos amam o Dadá”, ele diz sorrindo. E corre para abraçar quem o ama. Porque é disso que ele precisa para ficar alegre.
    “Alegre, mas não feliz”, suas palavras continuam ecoando duas semanas depois de nosso encontro.
    Naquele dia, ele apontou no meu peito e perguntou:
    “Você não sabe que você vai morrer?”
    Eu disse que sabia e devolvi a pergunta:
    “Você não tem medo de morrer?”
    “Não tenho”, ele disse.
    "Porque eu acho que eu fiz quase tudo que eu tinha que fazer. Sair de onde eu saí, chutando uma bola pela primeira vez aos 19 anos, e hoje ser o rei Dadá? Só eu.”

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