Uma carta que não representa Palocci

     Por Gustavo Conde - Jornal GGN

    A se ponderar.

    Acabo de ler a carta de Palocci na íntegra.

    Posso dizer com toda a segurança e com toda a técnica que a ciência linguística da interpretação de textos pôde me deixar em 12 anos de estudo e pesquisa: trata-se de uma das maiores fraudes que já testemunhei.

    A carta não apenas NÃO é da autoria de Palocci: é pessimamente redigida (redigida às pressas), composta por compilações igualmente mal redigidas de senso comum plantado anos a fio em editoriais de jornal.
    Palocci apenas assinou, provavelmente sem ler, sem questionar.

    É um escândalo terrificante, digno das ditaduras mais totalitárias e sanguinárias.

    Desmascarar esse texto fraudulento é das tarefas mais fáceis da análise de texto forense.

    A voz que dali emana não é a de Palocci.

    E não é porque ele continua sendo o "velho" Palocci ou coisa parecida.

    É porque os indícios de autoria não são compatíveis com sua identidade textual pregressa, a qual todos tivemos acesso por meio de declarações e discursos proferidos no exercício do cargo de ministro e na condição de militante de um partido.

    Aquilo não é redação de uma pessoa só, é um texto fragmentado, um mosaico de lugares-comuns costurado às pressas para atender e se antecipar ao descrédito e ao volume de contradições que pairam sobre suas delações, igualmente desovadas sob coação clara do juízo problemático dos próceres de Curitiba (já conhecidos da literatura jurídica mundial como juízes políticos).

    A segunda coisa mais chocante, no entanto, é imaginar uma pessoa presa com acesso a computador - o texto foi digitado em word.

    Da cadeia de Curitiba, nessa mesma condição, José Dirceu só escreveu manuscritos (e como escreveu).

    A primeira coisa mais chocante, para finalizar, é realmente a fraude.

    Esse tipo de dispositivo de coação é o grau máximo de violência que uma sociedade pode ter a infelicidade de experimentar.

    Porque a violência simbólica e subjetiva é muito mais grave e profunda que a própria violência física.

    É a morte do sentido.

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