Escravidão é o que define sociedade brasileira

     Reescrever a história dominante de que a corrupção é o que marca a sociedade brasileira é o tema do novo livro do sociólogo Jessé Souza. Para o autor do recém-lançado A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato, obra que faz o contraponto à ideia dominante sobre o país, é a escravidão o que de fato marca a sociedade brasileira.

     

    Em artigo publicado dia 22/09/2017 na Folha de S. Paulo, o autor volta ao tema.

    O sociólogo classifica como “ridícula se não fosse trágica” a abordagem de Raymundo Faoro de que “a história do Brasil é a história da corrupção transplantada de Portugal e aqui exercida pela elite do Estado”.

    “Faoro imagina a semente da corrupção já no século 14, em Portugal, quando não havia nem sequer a concepção de soberania popular, que é parteira da noção moderna de bem público. É como ver um filme sobre a Roma antiga cheio de cenas românticas que foram inventadas no século 18. Não obstante, o país inteiro acredita nessa bobagem.”

    Escravidão

    Jessé argumenta que os que apoiam essa interpretação dominante “parecem não se dar conta de que, em uma sociedade, cada indivíduo é criado pela ação diária de instituições concretas, como a família, a escola, o mundo do trabalho”.

    Segundo o autor, a escravidão era a instituição que influenciava todas as outras e se mantém até os dias de hoje: “A ‘ralé de novos escravos’, mais de um terço da população, é explorada pela classe média e pela elite do mesmo modo que o escravo doméstico: pelo uso de sua energia muscular em funções indignas, cansativas e com remuneração abjeta”.

    Ele explicou que o que ele define de maneira “provocativa” como ralé é uma continuação direta dos escravos. “Ela é hoje em grande parte mestiça, mas não deixa de ser destinatária da superexploração, do ódio e do desprezo que se reservavam ao escravo negro. O assassinato indiscriminado de pobres é atualmente uma política pública informal de todas as grandes cidades brasileiras.”

    Na opinião de Jessé, a elite econômica “é uma continuidade perfeita da elite escravagista” e continua condenando “os de baixo” à reprodução de sua miséria enquanto amplia o próprio “capital social e cultural”.

    O escritor complementa que “o recente golpe comprova, ainda predomina o ‘quero o meu agora’, mesmo que a custo do futuro de todos”. Ele diferencia as elites de outros países do Brasil: “Ficam com a melhor fatia do bolo do presente, mas além disso planejam o bolo do futuro. Por aqui, a elite dedica-se apenas ao saque da população via juros ou à pilhagem das riquezas naturais”.

    Classe média: tropa de choque das elites

    Se as classes dominantes no alvorecer do século 20 mantinham a “postura da violência e do engodo” em relação aos trabalhadores, um novo desafio se impôs com o surgimento da classe média, diz Jessé. “O que estava em jogo era a captura intelectual e simbólica da classe média letrada pela elite do dinheiro, para a formação da aliança de classe dominante que marcaria o Brasil dali em diante”.

    O autor destaca ainda a construção de “fábricas de opiniões” para distribuir informação e opinião. Nesse terreno está a grande imprensa, as grandes editoras, livrarias para “convencer” seu público na direção que os proprietários queriam, sob a máscara da “liberdade de imprensa e de opinião”.

    Jessé completa o raciocínio afirmando no artigo: “A produção de conteúdo é monopólio de especialistas treinados: os intelectuais. A elite paulistana, então, constrói a USP, destinando-a a ser uma espécie de gigantesco ‘think tank’ do liberalismo conservador brasileiro, de onde saem as duas ideias centrais dessa vertente: as noções de patrimonialismo e de populismo”.

    Lava Jato

    Estigmatizar o Estado e a política sempre que se oponham ao interesse das elites e mitigar a importância da soberania popular são aspectos citados por Jessé como entranhados na classe média pelo aparato midiático. “Nesse esquema, a classe média cooptada escandaliza-se apenas com a corrupção política dos partidos ligados às classes populares”, sustenta o autor.

    Segundo ele, “as noções de patrimonialismo e de populismo, distribuídas em pílulas pelo veneno midiático diariamente, são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média como sua tropa de choque”.

    “A atual farsa da Lava Jato é apenas a máscara nova de um jogo velho que completa cem anos”, enfatizou Jessé. Na opinião dele, o princípio da igualdade foi vítima, com “protagonismo da Rede Globo”, desse conluio. “Desqualificada enquanto fim em si mesma, a demanda pela igualdade se torna suspeita e inadequada para expressar o legítimo ressentimento e a raiva que os excluídos sentem, mas que agora não podem mais expressar politicamente.”

    O resultado desse cenário é a ascensão de discursos que vão na contramão da justiça social e de valores democráticos. “Jair Bolsonaro como ameaça real é filho do casamento entre a Lava Jato e a Rede Globo.”

    Jessé finaliza o artigo afirmando que “o pacto antipopular das classes alta e média não significa apenas manter o abandono e a exclusão da maioria da população, eternizando a herança da escravidão. Significa também capturar o poder de reflexão autônoma da própria classe média (assim como da sociedade em geral), que é um recurso social escasso e literalmente impagável”.

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