Até 2016, ano do golpe de Estado heterodoxo, o Brasil figurava mantinha posição estável no Índice Global de Democracia elaborado anualmente por uma unidade da revista The Economist.

     Com o golpe, veio a queda na classificação, que se repetiu este ano: o Brasil ficou na 49º posição numa lista de 167 países, com uma pontuação que o exclui do grupo das “democracias plenas”, rebaixando-o para o das “democracias falhas”. O país mais democrático do mundo, segundo o ranking, é a Noruega, seguida da Dinamarca.

    Na primeira versão do estudo, elaborada há 10 anos, o Brasil apareceu com 7,38 pontos, nota que se manteve estável 2015. Em 2016, depois da deposição da ex-presidente Dilma, a nota caiu para 6,90 e agora para 6,86.

    Para elaborar a lista, o estudo avalia 60 indicadores em categorias como o processo eleitoral e o pluralismo, o funcionamento do governo, a participação política da sociedade, cultura política democrática e liberdades civis. O ranking divulgado nesta quarta-feira leva em conta o desempenho democrático do país em 2017.

    A prevalecer a exclusão do ex-presidente Lula do processo eleitoral, o Brasil ainda perderá mais pontos nesta avaliação. Se eventualmente a eleição não acontecer – hipótese que não deve ser descartada diante da persistência de Lula como favorito nas pesquisas e do fracasso do plano eleitoral da coalizão golpista-governista, que não consegue ter um candidato viável – o Brasil pode cair para o grupo dos países com regime autoritário. Não democrático. Como pudemos regredir tanto em tão pouco tempo?

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     Segundo o Datafolha, 32% do eleitorado brasileiro anulará seu voto, caso Lula seja impedido de participar

    A nova pesquisa do Datafolha mostra novamente Lula na frente, e com folga. Mesmo depois de ser condenado por um tribunal espúrio. Ele cresceu de 35 para 37%.

    A pesquisa mostra ainda um dado importante: o número de votos nulos sem o Lula chega a 32%, o dobro do conferido ao Bolsonaro, que lidera a corrida nesse contexto, com 18%. Essa constatação está também incomodando os golpistas. Somente a Folha apontou, ainda que timidamente, esse número avassalador.

    Os golpistas esperavam uma queda exagerada nas pesquisas após a condenação sem prova do ex-presidente Lula, mas o resultado foi justamente o contrário, o que levou a mídia golpista colocar o rabo entre as pernas e ignorar o resultado. Imagine o estardalhaço que essa mídia chapa branca iria fazer caso Lula caísse nas pesquisas? Mas é aquela velha história: Lula é igual massa de bolo, quanto mais batem, mais ele cresce.

    O art. 224 do Código Eleitoral, que trata do voto nulo, prevê a necessidade de marcação de nova eleição se a nulidade atingir mais de metade dos votos do país. Mas para o Tribunal Superior Eleitoral, o candidato mais votado será eleito, mesmo com 1% da votação. Segundo o TSE, a nulidade a que se refere o Código Eleitoral decorre da constatação de fraude nas eleições, como, por exemplo, eventual cassação de candidato eleito condenado por compra de votos, será necessária a realização de novas eleições, denominadas suplementares, caso o candidato cassado obtiver mais da metade dos votos.

     O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a corrida eleitoral com até 37% das intenções de voto, diz o Datafolha divulgado nesta quarta-feira (31).

     O levantamento foi publicado pelo jornal Folha de S. Paulo uma semana após a condenação do petista pelo TRF4, de Porto Alegre, no caso do tríplex de Guarujá (SP), cuja propriedade é falsamente atribuída ao ex-presidente. Ou seja, Lula não sofreu nenhum abalo depois de receber pena de 12 anos e um mês de prisão.

    O ex-presidente lidera no primeiro turno em todos os cenários possíveis e também venceria todos os adversários no segundo turno. O petista venceria Alckmin (49% a 30%) e Marina (47% a 32%), além de Bolsonaro (49% a 32%).

    Se a candidatura de Lula for barrada pelo judiciário, de acordo com o instituto, o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) assumiria a liderança da disputa presidencial com 18%. (Na simulação do primeiro turno ele tem 16%).

    O ex-governador Ciro Gomes (PDT) tem 6% das intenções de voto, Marina Silva (Rede) tem 8%. O governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) e Luciano Huck (Globo) têm 6%.

    No cenário sem Lula, em que Bolsonaro lidera com 18%, Marina sobe para 13%; Ciro pula para 10%; Huck e Alckmin saltam para 8%.

    O Datafolha fez 2.826 entrevistas em 174 municípios. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral com o número BR 05351/2018.

     O primeiro levantamento realizado após a condenação do ex-presidente, pelo instituto Quaest, indica, ainda, que para 56,6% o juiz Sergio Moro não conseguiu provar que o triplex da OAS pertence ao petista.

     De acordo com a coluna do montes-clarense Carlos Lindenberg, no Brasil 247, a condenação de Lula não surpreendeu

    Pesquisa aponta: Lula foi condenado injustamente

    * Por Carlos Lindenberg

     Minas 247A condenação do ex-presidente Lula pelo TRF-4 no dia 24 não surpreendeu, não custa repetir. Seguiu-se o modelito recortado em Curitiba com um adendo ou dois a mais, quais sejam o aumento da pena, por unanimidade dos três julgadores, mais a possibilidade de prisão imediata do ex-presidente, tão logo julgados os embargos declaratórios – a menos que a defesa de Lula consiga o efeito suspensivo da pena, o que não parece tão fácil dado o cerco a que estão submetendo o ex-presidente.

    Não deixou de surpreender também a predominância da Teoria do Domínio do Fato, usado pelo relator para justificar o aumento da pena de nove anos e seis meses para 12 anos e um mês, numa estratégia, ao que consta, para evitar a prescrição do julgado. O que também é discutível, como de resto todo esse processo é discutível e polêmico, menos para a Globonews que o tem como o mais santificado de todos os que têm passado pela justiça brasileira. A propósito, como é indisfarçável a crença dos comentaristas da Globonews na lisura de todo esse processo, tido agora como se fosse um prolongamento do mensalão de triste memória. Ora, não há a menor visão crítica do que se passou em Curitiba e Porto Alegre, sequer a equidistância se exige do comentarista ao abordar o assunto em pauta. Não se discutiu e nem se discute o que pode ter sido, por exemplo, um excesso de zelo de algum dos desembargadores – cujos nomes não vão entrar nesse texto, por desnecessário – nem a deselegância de não terem sequer levado em conta a sustentação oral do advogado Cristiano Zanin, ao menos para contestar um ponto ou outro da defesa. Não, não era necessário. Os votos estavam prontos, a decisão do relator foi obedecida por todos, portanto, por que perder tempo em ser elegante com a defesa?

    Na verdade, deu-se o contrário: partes da sentença condenatória do juiz de primeiro grau, Sérgio Moro, foram lidas e relidas varias vezes ao longo do julgamento, o que também não chegou a ser uma novidade, desde que o presidente do TRF de Porto Alegre, Thompson Flores, antes mesmo de ler a sentença de Moro, ao ser tornado pública, a considerou um primor, irretocável. Era a senha para a condenação que viria a seguir, com o agravamento do aumento da pena e a possibilidade da prisão do ex-presidente, esgotados os recursos, lá mesmo no âmbito do TRF-4. Tudo isso significa dizer que a rigor o julgamento não trouxe novidades de maior monta, apenas dificulta a caminhada de Lula e do PT para que o ex-presidente volte a governar o país. Quando eu disse, no último texto aqui publicado, que o juiz era o réu, deu-se o que se previa: o juiz foi absolvido e o réu de fato foi condenado. Como estava escrito.

    A propósito, como as pessoas que acompanharam não apenas o julgamento como a saga do ex-presidente viram tudo isso? Nesse sentido, é oportuna a primeira e inédita consulta que o Instituto Quaest, de Belo Horizonte, fez aos brasileiros que têm conta no Facebook, atingindo nada menos de 310 mil pessoas entre os dias 24 e 25 de janeiro agora, com perguntas formuladas pelo Vox Populi em survey face-a-face. Das 310 mil pessoas, 2.980 foram sorteadas aleatoriamente, aponta o relatório, para compor uma amostra representativa do eleitorado brasileiro. Usando dados oficiais do IBGE e do Facebook, o Quaest ponderou a amostra para garantir representatividade de atributos como sexo, idade e região. De forma que o resultado final estima as opiniões e atitudes do eleitorado brasileiro proporcional ao encontrado fora do Facebook.

    O primeiro dado da pesquisa refere-se ao nível de conhecimento do que o TRF-4 estava julgando e mostra que 93,5 dos pesquisados sabiam do que se tratava e apenas 6,5 por cento não sabiam. Ao perguntar se na opinião do entrevistado o TRF-4 agiu certo ou errado ao condenar Lula, 3,1 por cento não souberam responder, 42 por cento disseram que agiu certo e 54,7 por cento sentenciaram que agiu erradamente. Perguntado se o juiz Sérgio Moro, autor da primeira condenação, provou ou não que o tríplex era mesmo de Lula, 4,3 por cento não souberam opinar, 39,0 responderam que Moro conseguiu provar e 56,6 por cento disseram que ele não conseguiu provar que o apartamento é de Lula.

    O Quaest quis saber se Lula recebe o mesmo tratamento da justiça que outros políticos, como Michel Temer e Aécio Neves. 3,3 por cento não souberam opinar, 37,2 por cento acham que a justiça não trata Lula de forma mais dura e 59,5 responderam que a justiça trata sim Lula de forma mais dura. Se Lula cometeu mais erros ou acertos quando governou o pais, os entrevistados do Quaest disseram: 3,3 por cento não opinaram, 37,4 responderam que ele errou mais do que acertou e 59,3 por cento disseram que ele cometeu erros, mas fez muito mais coisas certas do que erradas em benefício do povo e do país. Nada menos de 42,9 por cento dos consultados, diante da condenação e da inelegibilidade momentânea do ex-presidente, disseram que Lula não deveria se candidatar a presidência da República, ao passo que 55,7 por cento responderam que deveria poder ser candidato em 2018. Cerca de 1,4 por cento não souberam opinar. A consulta inédita de certa forma reflete o que as pesquisas eleitorais vêm mostrando ao longo de todo o ano passado, quando os mais diversos institutos de pesquisas, como o Ibope, o Datafolha ou o Paraná, vêm apontando a liderança e o crescimento do ex-presidente na preferência do eleitorado – uma das razões, certamente, do resultado emanado tanto de Curitiba como de Porto Alegre, que coloca Lula hoje na condição de inelegível e sujeito à prisão, a despeito da decisão do PT de manter a sua candidatura como forma de legitimá-la na consciência popular e de enfrentar resultados judiciais que parecem feitos para tirar o ex-presidente do páreo.

    * Carlos Lindenberg é jornalista e diretor do 247 em Minas

     Condenado por três a zero pelo TRF-4 na última quarta-feira a 12 anos de prisão, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se consagra e entra para a História como o maior líder político de todos os tempos no Brasil. Na prática, ao recorrer aos tribunais para bani-lo da vida pública, a direita nacional reconheceu sua própria incapacidade de derrotá-lo nas urnas e de conquistar o coração do povo brasileiro. Esta, aliás, foi a razão do golpe de 2016. Quando as forças derrotadas em 2014 vislumbraram a volta de Lula em 2018, o que daria ao PT um ciclo de vinte anos de poder, trataram rapidamente de buscar atalhos, sabotando a democracia.

    Com seu martírio, Lula repete agora a história de seu predecessor Getúlio Vargas. Em 1954, Getúlio foi levado ao suicídio pelas mesmas forças – mídia, direita raivosa, entreguistas e imperialismo internacional – que hoje sacrificam Lula. Getúlio dizia que só sairia morto do Catete e, ao se matar, adiou em dez anos o golpe de 1964. Lula hoje afirma que só sairá morto das ruas. Ou seja: transfere para as praças e avenidas o verdadeiro espaço de poder. Portanto, mesmo que seja banido para que as oligarquias tenham nas eleições de 2018 um simulacro de democracia, Lula será um ator decisivo. Até porque quem sai condenado de Porto Alegre é o povo brasileiro, tolhido em sua soberania.

    Os próximos passos de Lula já foram anunciados: uma viagem à África, para um evento de combate à fome no mundo, e caravanas pelo Brasil. Contra ele, a direita tem agora uma arma nas mãos, que é a ameaça de prisão. Numa linguagem simples, o que os donos do poder oferecem a Lula é uma chantagem escancarada: ou desiste da candidatura ou vai em cana. Uma mensagem simbólica que também é endereçada a todo o povo brasileiro, para que fique no seu devido lugar e não ouse sair da senzala. Repete-se com Lula o que ocorreu com Tiradentes. Ao enforcá-lo, esquartejá-lo e salgá-lo, a Coroa Portuguesa mandou seu recado aos brasileiros: jamais voltem a sonhar com independência.

    Lula lembrou, no entanto, que os pobres brasileiros já sabem como é gostoso comprar um carro, comer carne de primeira, viajar de avião e frequentar universidades. Ou seja: o projeto inclusivo de país que começou a ser plantado em 2002 tem raízes sólidas e profundas. O desafio de toda a esquerda agora é incorporar à luta de massas todos aqueles que estão ameaçados pelo golpe das elites contra o povo, especialmente os pobres e pretos das periferias. A violência institucional cometida contra Lula, no momento em que o Brasil é governado por Temer, Cunha e Aécio, foi tão escandalosa que pode fazer germinar uma verdadeira revolução popular. Desde que o povo assuma seu protagonismo histórico.

    Leonardo Attuch é jornalista e colunista das revistas Istoé e Nordeste

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