Um dos maiores problemas contemporâneos e que aflige todas as gerações não é mais a ignorância, mas sim a “ignorância aprendida” que é, em sua essência, uma ignorância perversa que assume a forma de conhecimento adquirido por fontes supostamente confiáveis.

     A ignorância aprendida acaba por resultar em um novo tipo de ignorante, o “ignorante erudito”.

    Uma mistura heterogênea de conceitos deturpados, meias verdades, fatos inventados, dados manipulados... e tudo isso cuidadosamente controlado por gigantescos meios de comunicação privados que desejam cumprir com uma missão: gerar um exército de “ignorantes eruditos”, geralmente recrutados das camadas altas e médias de nossa sociedade e que servem como tropa de choque dos interesses do grande capital.

    Esse exército de “ignorantes eruditos” consegue ver vantagens na destruição da previdência pública, dos direitos sociais e na falência da democracia e do Estado de Direito.

    Consegue ver o mundo de maneira distorcida e desequilibrada... Chega a acreditar que países que sofrem as mais flagrantes agressões dos países centrais, como Cuba e Venezuela, são nossos inimigos... enquanto países como EUA e Alemanha, que realizam diariamente um processo de pilhagem de nossas riquezas, são vistos como nossos “aliados estratégicos”.

    O “ignorante erudito” não está somente em um nível inferior do que aquele que se encontra no estado da simples ignorância. Ele está enraizado em um duro e sujo universo de mentira e manipulação, fazendo com que a sua própria libertação se torne em uma missão muito mais difícil, quando não, impossível.

    Mas esse fenômeno não é inédito, embora hoje traja novas roupagens e porte armas mais sofisticadas. A ele o combate sempre se deu por três frentes: a contrainformação, o debate crítico e a sátira.

    Hoje temos também a missão de criarmos mecanismos eficazes de sabotagem e boicote aos meios de comunicação formadores desse exército.

    Um bom começo seria nos recusarmos explicitamente a não mais se valer desses meios para qualquer tipo de pronunciamento.

    Para além das redes sociais, ocupar as ruas é também um dever fundamental. E nas ruas a verdade há sempre de prevalecer.

    A verdade é um conhecido e temido animal... ela é rebelde, não aceita ficar presa e tão pouco é possível de ser domada. Ela é a mãe de todas as insurreições e o primeiro passo de todas as revoluções.

    * Carlos D'Incao é historiador e professor
    .

     O cientista político Rudá Ricci, em artigo especial, critica a decisão do TRF4 que condenou ontem (24) a 12 anos e um mês de prisão o ex-presidente Lula.

    Para ele, foi uma sentença contra uma geração. Ricci escreve que o governo Lula cometeu vários erros em nome do racionalismo, mas cometeu vários acertos. “Para minha geração, tenho a impressão, o maior acerto foi combater a pobreza e a fome.”

    Uma sentença contra uma geração

    Rudá Ricci*

    Ontem, a página da história virou. Sei que, como diz minha esposa (que é historiadora), a história acontece todos os dias, todos os minutos. Mas, assim como a poesia transforma algo pueril em som especial, há momentos desta história cotidiana em que se quebra um vínculo com o passado. Foi o que ocorreu ontem.

    Em 1979 eu tinha 17 anos. Vivia em São Paulo para fazer o último ano do ensino médio (que se chamava, na época, colegial) e tentar ingressar na faculdade. Participei de todos movimentos de redemocratização do país que explodiam em cada esquina da capital paulista. Não se tratava de política, apenas. Era um giro. A tal virada de página. Tudo se alterava: o jeito de dar aula (com Marilena Chauí na vanguarda), o jeito de se educar (com a volta de Paulo Freire), o jeito de se pensar a justiça (a Constituinte era tema central em bares descolados onde artistas esbarravam em estudantes e políticos), o jeito de se pensar e fazer arte (você entrava em qualquer ateliê ou ensaio de grupos experimentais de música à luz do dia ou entrava na casa de cineastas sem bater, apinhadas de gente como uma grande, democrática e confusa república de estudantes), o jeito de se discutir (com debates sobre sexualidade nos auditórios do Hospital das Clínicas ou no “Pátio da Cruz” da PUC-SP), o jeito de se fazer música (ouvindo a obrigatória coluna de Maurício Kubrusly sobre a nova música paulistana, do Premeditando o Breque, do Grupo Rumo ou do experimentalismo de Arrigo Barnabé). Era ousadia pura.

    Na política, nada era mais novo que a greve dos metalúrgicos. E, tinha Lula. Lula tinha ironia e deboche. Mas, desde aquele momento, Lula não era dono de sua imagem. Era interpretado. O primeiro libelo do Partido dos Trabalhadores foi um artigo de Francisco Weffort publicado na Folha de S.Paulo. Lembro vagamente do conteúdo, embora recorde com facilidade do impacto que me causou. Ele dizia sobre um momento marcante e definitivo da política nacional, quando os trabalhadores entravam pela porta da frente. Não eram objeto de discursos de lideranças de classe média, mesmo as mais bem intencionadas, mas eram donos de seus próprios discursos. O artigo discorria sobre uma meia-verdade. E ele era a prova da outra parte que não dizia. Weffort era sociólogo reconhecido. Havia escrito uma tese famosa sobre uma greve espetacular que havia ocorrido em plena ditadura militar. Havia criticado duramente o populismo trabalhista. Era um intérprete. Foi um dos intérpretes de Lula. Diziam que ele escrevia alguns dos discursos de Lula, após a fundação do PT, e cometia alguns erros gramaticais para manter um tom de originalidade. Trabalhei com Weffort, anos mais tarde, mas nunca tive coragem de perguntar se este boato tinha sentido. Imagino que, mesmo se tivesse, ele negaria.

    O fato é que o movimento libertário do final dos anos 1970 – e que invadiria toda a década seguinte até o ápice da constituinte de 1987 ou das eleições de 1989 – não foi um desenrolar de acontecimentos, mas uma interpretação de toda uma geração sobre o presente que apontava para um futuro distinto. Aqui é o marco de minha geração. Ao menos, parte dela que mergulhou nesta construção do futuro. O que ocorre agora, não é construção de um futuro, mas a destruição deste potencial. Explico: minha geração sentia que tudo estava para ser construído. Não era reconstrução, mas construção. Algo novo, não uma reforma. E, por este motivo, reinterpretava e interpretava tudo o que ocorria. Os acontecimentos tinham que ter um sentido, se encaixar nesta tarefa empolgante e coletiva de construir um país. Mergulhamos, de cabeça.

    O tom destoante, que se destacaria a partir de meados dos anos 1990, era José Dirceu e as centenas de ativistas que o seguiram. Diria que era a faceta racional no interior de um movimento passional. A reinterpretação do Brasil – que enquadrava em perspectiva a figura de Lula, sempre controversa – era marcada pelas pulsões libertárias. Pulsão é uma espécie de catarse, um jorro de desejo, uma explosão de sentimentos e sentidos que dão cor à vida. Era assim que o petismo – apenas a ponta do iceberg das mudanças que uma geração promovia – reinterpretava todo racionalismo da esquerda dos anos anteriores. Reinterpretava as intenções tímidas do MDB, a linha justa e o amplo arco de alianças promovido pelo PCB, o populismo que sequestrava o protagonismo dos trabalhadores dirigido pelo PTB ou pelo brizolismo. Na política, falava-se do protagonismo dos trabalhadores, sem intérpretes, mas que eram interpretados por jovens, pesquisadores e jornalistas. Lula era o artista que criava o “efeito stand up”, aquela tirada surpreendente para falar sobre algo que já sentíamos, mas que não tinha sido racionalizada em palavras. Lula não era o que ele pensava ser. Era nosso intérprete. O intérprete de uma geração. Um intérprete criado por nós.

    O que os juízes de ontem não parecem se dar conta é que não julgavam Lula. Nem sei quais eram suas intenções e isto pouco importa. Mas eles julgaram todo um movimento libertário que começou a ser deformado na segunda metade dos anos 1990 pelo velho e carcomido racionalismo de parte da esquerda que havia sido criticada pelos movimentos libertários de 1980.

    O final do jorro da década libertária do Brasil já aparecia no final dos anos 1990. Era como um gosto amargo na boca depois de uma ressaca. Mas, como uma ressaca, basta um comprimido e muita água para se ter a certeza que logo tudo voltará ao normal. Nem sempre volta. A vitória de Lula não era mais a vitória dos libertários dos anos 1980. Era algo mais racionalizado e enquadrado em esquemas mentais, em discursos fabricados em gabinetes fechados. A vitória de Lula foi programada por quem queria interpretar a sociedade. O inverso do que ocorrera duas décadas antes. Nós, os da rua, tínhamos perdido o protagonismo da mudança, mais uma vez. Mas, mesmo assim, o “artista que sintetizava o que sentíamos” tinha chegado ao poder. Seu ápice era uma espécie de prêmio de consolação do que, um dia, imaginávamos ser o futuro. Não era aquele futuro radiante, mas era como se um velho conhecido, já com rugas e voz pastosa e grave, tivesse conseguido chegar lá. Não exatamente nos representando ou representando aquele momento espetacular em que sentíamos que estávamos construindo o futuro. Era mais adequação ao presente.

    O governo Lula cometeu vários erros em nome do racionalismo, mas cometeu vários acertos. Para minha geração, tenho a impressão, o maior acerto foi combater a pobreza e a fome. Não tenho receio de dizer que era apenas um dos pontos de pauta que criavam uma identidade no passado. Mas, ao menos um, Lula e o lulismo haviam conseguido cumprir. Para muitos, já bastava, dava sentido ao passado. Para outros, não bastava, mas justificava a crença que tínhamos na mudança em algum ponto do futuro.

    Pois bem, foi este futuro e esta geração que pensava poder construir o futuro que foi julgado no dia de ontem. Viramos a página de nossa história. Não para a frente, mas para trás. Voltamos décadas. E, o mais importante, não viramos a página pela vontade das ruas, dos jovens, dos artistas, dos crentes. A página foi virada por quem existe para manutenção da ordem vigente. E, como afirmei, uma ordem construída pelo racionalismo que procurou nos interpretar e nos conduzir.

    Deixamos de ser protagonistas. De vez. E é este gosto amargo que fica na boca. Não se trata de Lula. Trata-se de confiarmos na possibilidade do futuro ser construído por nós.

    *Rudá Ricci é um cientista político formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) na década de 80. Mestre em Representação Sindical no Brasil pela Unicamp e Doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. Diretor-geral do Instituto Cultiva em Minas Gerais.

     "Finalmente! Agora está tudo 100% no mundo político. Ministros impolutos, Congresso honesto, deputados que pensam apenas no bem do país, senadores que não acobertam crimes de seus pares, juízes que não se deixam pressionar pela mídia e, completando o quadro #LulaCondenado"

     - Escritor brasileiro mais lido no mundo, Paulo Coelho resumiu em seu Twitter nesta quarta-feira 24, após a confirmação da condenação do ex-presidente Lula pelo TRF4 por 3 a 0, a hipocrisia em torno do resultado.

    Ele ironizou a condenação de Lula num momento em que crimes muito mais graves sequer foram investigados ou julgados, como as malas de dinheiro do ex-assessor de Michel Temer Rodrigo Rocha Loures, os R$ 51 milhões encontrados num apartamento de Geddel Vieira Lima (PMDB) em Salvador e o mandato do senador Aécio Neves (PSDB-MG) ter sido mantido por seus pares a despeito da comprovação de vários crimes contra Aécio.

    Nesta quarta, poucas hora depois do julgamento do TRF4, a PGR também arquivou um inquérito contra o senador José Serra (PSDB-SP), acusado de receber R$ 52,4 milhões em propina da Odebrecht.

    "Finalmente! Agora está tudo 100% no mundo político. Ministros impolutos, Congresso honesto, deputados que pensam apenas no bem do país, senadores que não acobertam crimes de seus pares, juízes que não se deixam pressionar pela mídia e, completando o quadro #LulaCondenado", escreveu Paulo Coelho.

     A história, se não é sempre a mesma, é bem semelhante.

     O Brasil vive ciclos: sai das ditaduras, com o apoio da classe média, e experimenta a democracia mas quando esta começa a se aprofundar, um pouquinho que seja, no sentido de trazer as massas populares para a cena política, ela – a começar pelas elites que a balizam – “cansa da brincadeira”.

    O povo é, para ela, um amor fugaz.

    E, como tantas vezes na nossa história, a “corrupção” e “o populismo” são os motes aos quais se agarra para promover o “fechamento” político que, por pruridos progressivamente abandonados, recusam-se a confessar ser seu interesse.

    Foi assim com a UDN e seu “mar de lama”, levando Getúlio à morte e, depois, sua recusa em aceitar a ascensão de JK; foi assim na derrubada de João Goulart, o “comunizante”, é agora assim com Lula.

    Os núcleos decisórios do país mal disfarçam sua alegria.

    A bolsa dispara, o dólar despenca, os apresentadores da Globo e de seus satélites contém a custo os seus sorrisos.

    Afinal, a “eleição” no Judiciário é feita somente com eleitores bem-postos, bem vestidos, bem morados e bem pagos.

    Essa é a democracia ideal, aquela onde os pobres não votam e obedecem, porque decisão da Justiça não se discute, ainda que ela lhe tire o direito de votar e três homens só vejam completa perfeição onde centenas de juristas, professores e advogados de grande reconhecimento encontraram centenas de vícios.

    Completa perfeição? Que digo eu? Os únicos “defeitos” de Moro foi dar a Lula “apenas 9 anos e meio” e o elevaram para 12, e castigar demais na primeira sentença os empreiteiros corruptos, que ganharam um “abatimento” substancioso em suas penas e o direito de irem já para casa, com suas tornozeleiras, que já-já lhes tiram. Para Lula, cana o quanto antes.

    A fala inicial do relator João Gebran reclamando do uso da expressão “tropa de choque” é irônica, porque acabou narrando o comportamento de três “julgadores” que pensaram de forma absolutamente igual sem um milímetro de divergência, como num ensaiado passo de ganso sombrio, e passo rápido, com um placar que ajuda ao máximo a exclusão de Lula do pleito.

    Há, porém, um efeito que se volta contra ela própria quando cede ao autoritarismo por cansada da democracia.

    É que o apetite autoritário não tem limite e os cães ferozes acabam saindo de controle. Excluíram o povão em 1964, mas quatro anos depois foi ela, com seus filhos, seus jovens, que caíram aos dentes mortais da ditadura.

    Talvez fosse bom que lembrassem que a história dos povos, ao contrário de seu enfado pela democracia, não cessa de brotar, nem cansa de esperar.

    Os milagres do povo são represáveis, mas não são contíveis eternamente . Como a água, encontram o caminho para o mar.

    O PT acaba de lançar uma nota confirmando que o resultado do julgamento não altera a disposição do partido de lançar Lula à Presidência. Leia o texto, assinado por Gleisi Hoffman:

     O dia 24 de janeiro de 2018 marca o início de mais uma jornada do povo brasileiro em defesa da Democracia e do direito inalienável de votar em Lula para presidente da República.

    O resultado do julgamento do recurso da defesa de Lula, no TRF-4, com votos claramente combinados dos três desembargadores, configura uma farsa judicial. Confirma-se o engajamento político-partidário de setores do sistema judicial, orquestrado pela Rede Globo, com o objetivo de tirar Lula do processo eleitoral.

    São os mesmos setores que promoveram o golpe do impeachment em 2016, e desde então veem dilapidando o patrimônio nacional, entregando nossas riquezas e abrindo mão da soberania nacional, retirando direitos dos trabalhadores e destruindo os programas sociais que beneficiam o povo.

    O plano dos golpistas esbarra na força política de Lula, que brota da alma do povo. Esbarra na consciência democrática da grande maioria da sociedade, que não aceita uma condenação sem crime e sem provas, não aceita a manipulação da justiça com fins de perseguição política.

    Não vamos aceitar passivamente que a democracia e a vontade da maioria sejam mais uma vez desrespeitadas.

    Vamos lutar em defesa da democracia em todas as instâncias, na Justiça e principalmente nas ruas.

    Vamos confirmar a candidatura de Lula na convenção partidária e registrá-la em 15 de agosto, seguindo rigorosamente o que assegura a Legislação eleitoral.

    Se pensam que história termina com a decisão de hoje, estão muito enganados, porque não nos rendemos diante da injustiça.

    Os partidos de esquerda, os movimentos sociais, os democratas do Brasil, estamos mais unidos do que nunca, fortalecidos pelas jornadas de luta que mobilizaram multidões nos últimos meses.

    Hoje é o começo da grande caminhada que, pela vontade do povo, vai levar o companheiro Lula novamente à Presidência da República.

    Via Tijolaço

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