BARROSO: POUCOS PRESOS NO BRASIL TÊM MAIS PROVAS DO QUE HAVIA NO CASO AÉCIO

     

     – Num dos trechos de sua entrevista à BBC, o ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, lamentou a impunidade do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e apontou o excesso de provas contra o político mineiro: a gravação, o pedido de dinheiro, a entrega com a mala e até a ameaça de matar o primo.
    Barroso disse ainda que, dos 650 mil detentos brasileiros, poucos estão presos com tantas provas como havia no caso Aécio.
    A esse respeito, confira texto postado pelo deputado Rogério Correia, do PT de Minas Gerais:
    O ministro Luís Roberto Barroso, do STF, deu entrevista à BBC Brasil. Em certo momento, ele surpreende e mostra claramente o incômodo com a impunidade do senador Aécio Neves. Embora sem citar diretamente o nome do ex-governador mineiro (nem precisava...), Barroso não deixa dúvida: “Há 650 mil presos no sistema penitenciário brasileiro. Poucos estão presos com tanta prova quanto há nesse caso”, disse o ministro. “Não é um sentimento pessoal, político, não é populismo. É prova.”
    Enquanto isso, procuradores da Lava Jato em Curitiba, aliados ao juiz do caso (ambos, por sinal, não investigaram nem fizeram nada em relação a Aécio e sua turma), preferem perseguir o líder em todas as pesquisas. Depois de três anos de investigação, não conseguiram apresentar uma única prova convincente.

    Assista aqui a entrevista de Barroso

     - Odebrecht e Andrade Gutierrez ampliam indícios de pagamento ilegal a Aécio Neves - 

     Repasses da Odebrecht e da Andrade ao empresário Alexandre Accioly, amigo do tucano e padrinho de um dos filhos de Aécio, respaldam os depoimentos dos delatores, que narram que o empresário carioca recebeu montantes por meio de contas offshore das empreiteiras no exterior, intermediados pela rede de academias de Accioly

    Andrade e Odebrecht apresentam recibos de R$ 50 milhões de propina a Aécio

    Jornal GGN - Comprovantes entregues pela Odebrecht e Andrade Gutierrez às investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) enquadram ainda mais o senador Aécio Neves (PSDB-MG) nas acusações de recebimento de propina. 

    Sugerido por Jossimar
    Delação, com provas. Onde está o Judiciário?

    Do Globo
    Odebrecht e Andrade Gutierrez ampliam indícios de pagamento ilegal a Aécio Neves

    Odebrecht confirma que Aécio recebeu R$ 50 milhões por meio de offshore. Executivo diz que conta está vinculada ao empresário Alexandre Accioly

    A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF) encontraram novos indícios que, de acordo com os investigadores, reforçam a suspeita de que o senador Aécio Neves recebeu propina para atuar em nome de empreiteiras na construção da Usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia

    Tema de inquérito em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), a acusação contra o tucano foi relatada por ex-executivos da Odebrecht em acordos de colaboração premiada. E teve impacto direto na delação de outra empreiteira, a Andrade Gutierrez, que foi obrigada a esclarecer sua participação no episódio. De acordo com os executivos da Odebrecht, Aécio recebeu R$ 50 milhões, repassados pela Odebrecht (R$ 30 milhões) e pela Andrade Gutierrez (R$ 20 milhões).

    A Odebrecht sustenta a acusação com comprovantes bancários, entregues nos últimos meses, que, segundo a empresa, comprovam depósitos para o senador tucano, por meio de uma conta de offshore em Cingapura, que havia sido citada por um de seus ex-executivos, Henrique Valladares, em depoimento à PGR. A identificação do titular da conta além disso não foi revelada, mas Valladares diz que está vinculada ao empresário Alexandre Accioly, padrinho de um dos filhos de Aécio e integrante do grupo mais restrito de amigos do tucano. Aécio nega as acusações. Accioly enjeita com veemência a afirmação do delator, o único que sustentava, até aqui, seu envolvimento.

    ANDRADE GUTIERREZ REFORÇA SUSPEITANos últimos meses, no entanto, ex-integrantes da Andrade Gutierrez levaram à Lava-Jato informações que miram novamente em Accioly: em depoimento à PF, o ex-executivo e delator da empreiteira, Flávio Barra, confirmou o repasse de R$ 20 milhões a Aécio por meio de um contrato com a Aalu Participações e Investimentos, empresa controladora da rede de academias Bodytech que pertence ao empresário carioca, a uma sobrinha dele e a um ex-banqueiro.

    Segundo o relato de Barra, a empresa, que leva as iniciais dos dois sócios, firmou um contrato de R$ 35 milhões com a Andrade para mascarar propina paga pela empreiteira ao tucano, em 2010. O valor seria uma contrapartida pela defesa, por parte de Aécio, então governador de Minas, da participação da Andrade no consórcio de construção da Usina. O delator não soube dizer por que a empresa transferiu R$ 15 milhões além do valor previamente acertado.


    Comprovante, segundo a Odebrecht Extrato de transferência de dinheiro para empresa em paraíso fiscal Klienfield services: offshore da Odebrecht usada para pagar propina no exterior 67,350 USD: uma das parcelas pagas pela empresa Embersy: offshore que a Odebrecht afirma ter sido usada para operacionalizar um pagamento a Aécio Neves. Está sediada nas Ilhas Marshall UBS AG: banco de origem suíça que presta serviços financeiros em dezenas de países Singapure: filial do UBS, citada pelo ex-executivo da Odebrecht, Henrique Valladares.

    Ao Globo, Accioly confirmou o repasse, mas negou se tratar de propina, e sim investimento da Andrade Gutierrez na rede de academias. Segundo ele, a Andrade nunca recebeu dividendos e “permanece como acionista” da holding controladora da Bodytech, por meio de uma Sociedade em Conta de Participação (SCP) com a empresa Safira Participações, que pertence ao grupo mineiro.

    A Andrade, por sua vez, negou a alegação de Accioly. Em nota, informou que “não é e nunca foi sócia na rede de academias” e que sua relação com o empresário se restringiu à aquisição, em 2010, de uma “opção de compra futura de ações” que jamais teria sido exercida e, por isso, perdeu a validade.

    As duas empresas foram informadas sobre a apresentação de versões contraditórias entre si, mas mantiveram o posicionamento original. A relação entre Andrade e a holding que controla a Bodyech não é explicitada nas demonstrações contábeis das empresas, o que contraria recomendações do Conselho Federal de Contabilidade (CFC).

    Na segunda semana de abril deste ano, mesma época em que foi tornada pública a íntegra da delação da Odebrecht, vinculando o nome de Accioly a pagamentos para Aécio, a Andrade fez uma alteração na Junta Comercial elevando o capital social da Safira de R$ 5 mil para R$ 35 milhões. É o mesmo valor repassado em 2010 para Accioly. A Andrade não quis informar se o dinheiro investido foi devolvido, nem comentar as razões da alteração contratual.

    Em seu depoimento, Barra afirmou ter tido conhecimento da relação do contrato com um pagamento a Aécio alguns anos depois da assinatura e disse não ter sido responsável por operacionalizar o repasse. igualmente colaborador e ex-executivo da Andrade, Rogério Nora citou em depoimento o nome de Sérgio Andrade, um dos sócios da empreiteira, como o responsável por tratar deste assunto diretamente com Aécio.

    Apesar de ter firmado acordo de leniência em 2016 e ter 11 ex-executivos entre colaboradores da Lava-Jato, a Andrade Gutierrez não havia apresentado às autoridades episódios de corrupção envolvendo o ex-governador de Minas. O tema passou a integrar uma nova rodada de conversas com a PGR e faz parte do recall do acordo, atualmente em negociação, e é considerado sensível pela empresa, por envolver um dos sócios do grupo.

    OFFSHORE NAS ILHAS MARSHALL

    A Lava-Jato igualmente obteve novas evidências envolvendo o pagamento de R$ 30 milhões da Odebrecht ao tucano, relacionados ao mesmo contrato da Usina de Santo Antônio. Em depoimento à PGR, o delator Henrique Valladares disse ter sido orientado por um emissário de Aécio, Dimas Toledo, a depositar parte dos valores em uma conta bancária de Cingapura. Valladares sustenta que o número da conta veio anotado em um bilhete, ao lado do nome de Accioly. Outras contas igualmente receberam parte dos pagamentos.

    Com base em registros dos sistemas Drousys e MyWebDay, usados para as operações de pagamento de propina na Odebrecht, interlocutores da empreiteira informaram a procuradores e integrantes da PF que a conta de Cingapura é da offshore Embersy Services Limited, sediada nas Ilhas Marshall, país com pouco mais de 60 mil habitantes, localizado no Oceano Pacífico.

    A empresa funciona desde agosto de 2001 e está ativa. Há cerca de quatro meses, a empreiteira realizou uma varredura em arquivos e entregou aos investigadores registros de seu sistema de aproximadamente US$ 300 mil repassados à Embersy.

    Extratos de movimentações financeiras de offshores da Odebrecht obtidos pela Lava-Jato em 2015, por meio de cooperação jurídica com autoridades de Antígua e Barbuda, já traziam registros de transações para a Embersy, entre novembro de 2008 e janeiro de 2009, que totalizaram pouco mais de US$ 740 mil. No entanto, o MPF não sabia a razão das transações, o que só foi possível graças à colaboração da empresa.

    Independentes dos EUA desde 1986, as Ilhas Mashall permite o anonimato de proprietários de empresas offshore. A Lava-Jato investiga se Embersy foi usada apenas para transação de valores entre contas ou se está, de fato, diretamente vinculada ao beneficiário final da propina.

    Nos registros internos da empreiteira, a transferência de valores para a Embersy está vinculada ao código “mineirinho” forma como Aécio era identificado nos sistemas de propina.

    Henrique Valladares relatou que o pagamento a Aécio foi acertado em reunião com a presença de Marcelo Odebrecht, em Belo Horizonte, no Palácio das Mangabeiras, sede do governo mineiro, no início de 2008. Em depoimento, Marcelo igualmente citou o pagamento ao tucano e disse ter estimulado Valladares, que cuidava da área de energia do grupo, a levar os pagamentos adiante.

    De acordo com o ex-presidente do grupo Odebrecht, o objetivo dos pagamentos a Aécio era influenciar decisões da Companhia Elétrica de Minas Gerais (Cemig) — estatal de energia mineira — e Furnas — estatal federal — a favor da empreiteira baiana.

    Na época Aécio exercia seu segundo mandato como governador de Minas e integrava a oposição ao governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), responsável por licitar Santo Antônio. Apesar disso, o tucano tinha influência no setor elétrico devido à sua relação com Dimas Toledo, ex-diretor de Furnas, umas das empresas sócias da usina, além de estar a frente do estado que comanda a Cemig, outra sócia do empreendimento.

    A relação de intimidade entre Aécio e Dimas foi citada por outros delatores da Lava-Jato, como o ex-senador Delcídio Amaral e o lobista Fernando Moura. Henrique Valladares sustenta igualmente que era o ex-diretor de Furnas o responsável por levar ao seu escritório papéis com as contas em que a propina para Aécio deveria ser depositada.

     Após a reforma da CLT, os direitos dos trabalhadores estão indo para a lata do lixo

     Tendo entrado em vigor em 11 de novembro, a nova lei trabalhista – aprovada na reforma, com votos da deputada Raquel Muniz e de Saraiva Felipe, além de outros 27 deputados mineiros – mostra cada vez mais sua natureza golpista, desenvolvida sob a necessidade de manter-se o lucro de uma parte do empresariado nacional. Logo no primeiro dia de implementação da Lei, a Justiça condenou um empregado a pagar R$ 8,5 mil por ele ter acionado a Justiça, segundo o entendimento do juiz do caso, com má-fé, supostamente com intenções ruins contra seu patrão. O medo imposto ao trabalhador de ter de pagar multa consiste em um obstáculo ao livre acesso à Justiça, o que ao fim e ao cabo favorece tão somente aos patrões.
    Em diversos outros aspectos a nova legislação trabalhista é trágica e anti-popular. Um caso recente elucida de maneira concreta que a nova legislação trabalhista serve aos patrões em detrimento da situação econômica e jurídica dos trabalhadores. Trata-se da possibilidade de demissões em massa impostas pelo patrão sem acordo com os sindicatos. É o caso da Universidade Estácio de Sá, que demitiu cerca de 1200 professores com o intuito de recontratar professores com salários mais baixos e em regimes mais “flexíveis” permitidos agora pela nova legislação. As demissões tinham sido suspensas por uma liminar do Ministério Público do Trabalho (MPT), mas a decisão do desembargador deferiu um mandado de segurança impetrado pela instituição e autorizou a homologação das dispensas.
    Na próxima eleição, não se esqueça dos deputados que votaram para acabar com seus direitos.

    Em Minas Geias, são eles:
    - Aelton Freitas – PR
    - Bilac Pinto – PR
    - Brunny – PR
    - Caio Narcio – PSDB
    - Carlos Melles – DEM
    - Delegado Edson Moreira – PR
    - Domingos Sávio – PSDB
    - Eduardo Barbosa – PSDB
    - Fábio Ramalho – PMDB
    - Franklin Lima – PP
    - Jaime Martins – PSD
    - Leonardo Quintão – PMDB
    - Luis Tibé – PTdoB
    - Luiz Fernando Faria – PP
    - Luzia Ferreira – PPS
    - Marcelo Aro – PHS
    - Marcos Montes – PSD
    - Marcus Pestana – PSDB
    - Mauro Lopes – PMDB
    - Misael Varella – DEM
    - Newton Cardoso Jr – PMDB
    - Paulo Abi-Ackel – PSDB
    - Raquel Muniz – PSD
    - Renzo Braz – PP
    - Rodrigo de Castro – PSDB
    - Rodrigo Pacheco – PMDB
    - Saraiva Felipe – PMDB
    - Tenente Lúcio – PSB
    - Toninho Pinheiro – PP

     - Camponês viveu seis dias em uma gruta até negociar sua rendição; imprensa tratou posseiro como ‘fera’, e ele acabou virando um ‘bicho papão’ -                        Saluzinho não tinha histórico de enfrentamento ao regime militar, mas ficou com fama de assassino

    Por Bernardo Miranda - Jornal O Tempo

    “O Demônio é o latifúndio”. Era a frase repetida pelo camponês Salustiano Gomes Ferreira, o Saluzinho, que virou lenda no Norte de Minas após enfrentar sozinho mais de 60 agentes da ditadura militar enquanto se escondia dentro de uma gruta por seis dias. Sua história é destacada no relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) como uma das vítimas da perseguição contra trabalhadores rurais que lutavam por terras. Após a resistência, Saluzinho ficou preso no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em Belo Horizonte. Ele virou tema de música da região, e seu nome passou a ser utilizado para amedrontar crianças desobedientes. Na prisão, leu “Grande Sertão: Veredas” e passou a considerar a obra de João Guimarães Rosa como uma narrativa de sua vida pessoal.

    Saluzinho era posseiro de um terreno em Serra do Gato, no município de Varzelândia. No dia 17 de novembro de 1967, jagunços do fazendeiro Oswaldo Alves Antunes e policiais militares foram até sua casa para expulsá-lo da terra sem mandado judicial. Com uma espingarda velha, ele atingiu um jagunço e um militar, o que fez os demais desistirem de continuar a expulsão. De um simples camponês sem histórico de envolvimento em atos de resistência à ditadura, Saluzinho se transformou em um dos subversivos mais procurados da região. Com uma garrucha, um revólver 38 e duas espingardas, ele se embrenhou no sertão e se refugiou em uma gruta.

    Durante os três primeiros dias de perseguição, 15 PMs fizeram o cerco a Saluzinho. Eles abriram fogo, houve revide e um militar foi ferido. Os policiais tentaram incendiar a gruta com gasolina e, em seguida, usaram dinamite para desmoroná-la, mas Saluzinho resistiu. A perseguição virou notícia no Jornal “O Estado de São Paulo”, e o Dops enviou uma força especializada de 40 homens para prender o camponês.

    Eles utilizaram lançadores de bombas de gás por várias vezes, o que também não surtiu efeito. Ao sexto dia de cerco e com ampla cobertura da imprensa nacional, Saluzinho negociou sua rendição. “Ele não tinha confiança em polícia, tanto que a resistência dele foi maior porque ele sabia que, se saísse (da gruta), ia ser assassinado. Então ele batalhou para ter um processo de negociação, para poder não morrer ali. Quer dizer que ele também tinha consciência, e que aquilo era desproporcional”, contou Carlos Melgaço Valadares, que ficou preso no Dops junto com Saluzinho.

    Depois de se entregar, o camponês foi colocado na caçamba de um caminhão, que circulou por Montes Claros. Segundo o relatório da Covemg, a polícia exibiu o camponês para mostrar que havia prendido o criminoso mais perigoso do Norte de Minas.

    Após a prisão, os jornais passaram a tratar Saluzinho como “comunista, invasor de terras, uma fera, assassino incontrolável que tem prazer em matar”, embora ele não tivesse nenhum envolvimento político. Isso contribuiu para sua história ser contada e recontada na região por anos e ser conhecida até hoje. Porém, essa fama serviu mais para estigmatizá-lo, o que o levou a viver escondido após ser inocentado das acusações e libertado. Saluzinho morreu na miséria em 1990. Em Varzelândia, mães usam seu nome para amedrontar os filhos: “Ô, meu filho, vai pra dentro. A noite, né? Sai da rua, sai da rua, que Saluzinho vem aí, Saluzinho vem aí!”.

    109 foram mortos ou “sumiram”

    O relatório da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) revelou que foram mortos ou tiveram o desaparecimento forçado no Estado 109 camponeses durante a ditadura militar. O número é quase 50% maior do que o que havia nos registros anteriores sobre o período: 76 vítimas. Uma característica diferente da repressão na área urbana é que a maioria das mortes no campo aconteceu durante os anos 1980, quando o governo militar estava enfraquecido.

    “Tal resultado decorre de vários fatores. O primeiro deles é que, em algumas regiões, o movimento de sindicalização foi retomado mais intensamente nos anos 1980, quando houve diminuição da intervenção do Estado nos órgãos de classe e a organização política ao autoritarismo contestava o poder dos coronéis”, avalia o relatório final da Covemg. Outra hipótese é que a repressão no campo não era denunciada durante a primeira década da ditadura.

    Mulher foi torturada para informar paradeiro do marido

    Para descobrir o paradeiro de Saluzinho, policiais prenderam sua mulher e posseiros vizinhos, que foram torturados para que indicassem o esconderijo do camponês. Há a suspeita de que a morte de sua companheira tenha sido provocada pelas sequelas do espancamento que sofreu. “O sargento pegou uma tábua de bater sabão, me chamou de sem-vergonha, ladrona (sic) e criminosa e bateu muito em minha mão”, contou à época a mulher do camponês, Dulce Gonçalves Pereira, a um jornal da região.

    Na entrevista, ela disse que foi torturada de outra forma, mas que não contaria porque ficaria “avexada”. Mais tarde, seu filho revelou que a mãe teve os mamilos queimados e que sua morte precoce teria ocorrido em razão das sequelas da tortura. Ela morreu quando Saluzinho ainda estava preso. O próprio camponês acreditava que a mulher morrera em decorrência da violência que sofreu. “Ele não teve dúvida em falar que a esposa morreu jovem, ao 42 anos, em função das torturas que sofreu. Ele deu até o nome do médico, Dr. Pedro Santos, de Januária, que a teria atendido antes de ela falecer e teria constatado que ela teve ferimentos graves em função da tortura”, disse à Comissão da Verdade em Minas o ex-assessor sindical Luiz Antonio Chaves, que conheceu Saluzinho.

    Apesar dos relatos, a comissão não conseguiu encontrar documentos que pudessem comprovar a causa da morte de Dulce para que ela fosse considerada vítima da ditadura.


    MAIS VÍTIMAS
    Durval de Souza. Advogado que atuava na defesa de camponeses posseiros, ele foi morto em 1979 por três pistoleiros contratados por fazendeiros de Frutal, no Triângulo.

    Pedro Passos. Militante da Liga Camponesa, era perseguido por fazendeiros de Três Marias, na região Central. Teve a casa cercada por um muro, construído por um latifundiário da região, para impedí-lo de usar a estrada até a cidade. A única forma de deixar sua propriedade era pelo rio São Francisco. Foi morto por um militar do Exército enquanto pescava na represa.

    Francisca Prata. Camponesa em Carbonita, no Vale do Jequitinhonha, foi morta com dois tiros na cabeça por uma policial ao defender o marido durante um conflito fundiário.

     - Movimentos sociais defendem luta contra privatização da água -

     A luta contra a privatização das empresas públicas de abastecimento de água e saneamento foi defendida por convidados em audiência da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa na última quinta-feira (14/12). O objetivo era lançar o Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama) 2018, que será realizado de 17 a 22 de março de 2018, em Brasília (DF). O Fama ocorre como contraponto ao 8º Fórum Mundial da Água, considerado oficial, e que também ocorrerá em Brasília, de 18 a 23 de março. O tema do Fama é a luta contra a privatização e a comercialização da água.

    O autor do requerimento para a realização da reunião, deputado Rogério Correia (PT), reforçou o risco de mercantilização da água. Para ele, a privatização de usinas da Cemig, ocorrida neste ano, já significa o controle de empresas internacionais sobre esse recurso natural. Ele lembrou que a América Latina sempre exerceu o papel de fornecedora de matéria-prima para as grandes potências e que a água será o próximo recurso natural alvo de interesse.
    O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos (Sindágua-MG), José Maria dos Santos, disse que as empresas de energia estão sendo privatizadas e que a água agora está sendo visada. “Temos que defender nossos rios e nossa água das empresas multinacionais”, afirmou.
    Segundo ele, o fórum alternativo está sendo organizado pelos movimentos sociais para confrontar a política de privatização do governo federal e o interesse das multinacionais. “O desafio dos movimentos sociais é manter públicas as empresas que cuidam da nossa água”, concluiu.


    Recursos naturais

    Para a presidente regional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Beatriz Cerqueira, o que está em jogo no fórum oficial é a presença de grandes empresas internacionais, que querem comprar os recursos naturais, e o governo federal, que quer vendê-los.
    “Temos que nos articular, porque em pouco tempo a quantidade de água que chega nas nossas casas não estará mais no nosso controle. A luta pela água está intimamente ligada à luta contra o golpe que enfrentamos”, afirmou.


    Lutar pela água é defender a soberania nacional

    A representante da Coordenação Estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens, Aline Ruas, afirmou que a realização do fórum alternativo é necessária para defender a soberania nacional. “A água está em disputa e precisamos garantir o nosso controle sobre ela”, disse.
    Aline Ruas lembrou que o País tem grande abundância de água e possui os dois maiores aquíferos do mundo. Segundo ela, o fórum oficial está sendo realizado em Brasília justamente por conta do interesse das grandes empresas internacionais pelo potencial hídrico do Brasil. “O objetivo é tornar a água uma mercadoria, mas a água é um direito das pessoas”, considerou.
    O deputado federal Padre João (PT-MG) defendeu a importância de que Minas Gerais chegue com uma proposta concreta, construída pelo poder público, pelos sindicatos e pelos movimentos sociais, para apresentar no fórum alternativo. Para ele, a responsabilidade de todos pela produção e consumo de água é um assunto que deve ser debatido.


    Vargem das Flores pode sofrer alteração no zoneamento

    A representante do Comitê de Defesa de Vargem das Flores, Cristina Maria de Oliveira, falou sobre a luta da comunidade para defender e preservar a represa, diante de projeto da Prefeitura de Contagem (Região Metropolitana de Belo Horizonte) que pode alterar o zoneamento da região.
    Ela explicou que a Vargem das Flores foi criada na década de 1960 para atender 700 mil habitantes. Entretanto, a partir dos anos 1980, a Prefeitura de Contagem teria estimulado a ocupação urbana, com a criação de bairros, além dos loteamentos irregulares que começaram a surgir.
    Segundo ela, a situação pode piorar agora devido a uma proposta da Prefeitura de Contagem de alterar o plano diretor do município. Cristina de Oliveira explicou que o objetivo é eliminar a área rural do município, o que viabilizaria a ocupação da parte rural da Vargem das Flores por indústrias e empreendimentos imobiliários.
    De acordo com ela, essa ocupação poderia gerar um impacto enorme, secando a represa e eliminando a flora e a fauna, já que a projeção é de que mais 900 mil pessoas passem a habitar a região em 50 anos. Na reunião, as entidades presentes aprovaram uma moção de apoio à defesa da represa.


    Rio Doce

    Já o representante indígena Giovani Krenak falou sobre a situação da população do Vale do Rio Doce, após a contaminação das águas com o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, da mineradora Samarco, no episódio que ficou conhecido como tragédia de Mariana (Região Central do Estado). Para ele, a privatização do uso da água já está acontecendo, pois devido à atuação das mineradoras, foi tirado o direito da população de nadar no rio.
    A vice-presidente da comissão, deputada Celise Laviola (PMDB), lamentou o ocorrido e se solidarizou com a população da região do Rio Doce.

    Com assessoria do deputado Rogério Correia

    © 2015 Your Company. All Rights Reserved. Designed By JoomShaper