Alexandre de Moraes abre investigação contra André Mendonça no inquérito das fake news

Decisão cita suspeitas de abuso de autoridade, quebra de imparcialidade e direcionamento de investigações no STF O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quinta-feira (3) o envio ao presidente da Corte, Edson Fachin, de uma decisão e de relatórios da Polícia Federal que apontam, segundo o documento, “fortes indícios” de irregularidades atribuídas ao ministro André Mendonça na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero. Moraes também levantou o sigilo da decisão e dos documentos mencionados e determinou ciência à Procuradoria-Geral da República (PGR). Ad loading A decisão foi tomada no Inquérito 4.781, conhecido como inquérito das fake news. Moraes afirma ter recebido da Polícia Federal relatórios de inteligência produzidos após a identificação de supostas irregularidades na condução das duas investigações. Os documentos citam, entre outros, os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux, Alexandre de Moraes e Nunes Marques. De acordo com a decisão de Moraes, os relatórios indicariam que Mendonça, relator das Petições 15.041, ligada à Operação Sem Desconto, e 15.556, referente à Operação Compliance Zero, teria, “em tese”, adotado condutas que poderiam ser enquadradas como improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade, além de quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos. Os apontamentos são acusações contidas nos relatórios reproduzidos pela decisão e não representam condenação ou conclusão definitiva sobre responsabilidade do ministro. Relatórios apontam três grupos de condutas Na conclusão, Moraes divide os fatos atribuídos a Mendonça em três eixos principais: suposta usurpação da direção das investigações da Polícia Federal, condução irregular de tratativas envolvendo acordos de colaboração premiada e direcionamento de alvos para investigação, especialmente Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo a decisão, um relatório da PF sustenta que Mendonça teria avançado sobre atribuições próprias da Polícia Federal e adotado medidas capazes de comprometer a cadeia de custódia do material apreendido. O documento fala em “indícios crescentes de enviesamento da condução da supervisão judicial” e em assimetria no tratamento dispensado a investigados. Em outro trecho reproduzido por Moraes, a PF avalia que o juízo relator estaria exercendo “poderes típicos de presidência da investigação, e não de supervisão judicial”. Entre os efeitos apontados pelo relatório estão o acesso direto ao acervo probatório bruto e a redução da supervisão técnica dos delegados sobre materiais produzidos pela equipe de análise. A decisão registra ainda que a exigência de acesso antecipado aos dados brutos, segundo a avaliação da PF, colocaria o julgador em posição de exploração direta do conteúdo das provas. O relatório afirma que “o resultado prático do comando é a atuação do julgador como investigador”. Colaboração premiada entra no foco da decisão Outro ponto destacado por Moraes diz respeito às negociações para possíveis acordos de colaboração premiada. A decisão cita o artigo 4º, parágrafo 6º, da Lei 12.850/2013 e afirma que a legislação impede a participação do juiz nas negociações entre as partes para formalização do acordo. Na sequência, reproduz relatório segundo o qual Mendonça teria demonstrado comportamento participativo nas tratativas tanto da Operação Sem Desconto quanto da Compliance Zero. Segundo o relatório, em reuniões o ministro teria perguntado sobre o estágio das negociações e sobre elementos apresentados por potenciais colaboradores. O documento também registra relatos de contatos entre Mendonça e defensores de pessoas que negociavam possíveis acordos. O caso de Maurício Camisotti também é mencionado. Conforme o relatório reproduzido na decisão, diante de um impasse entre PF e PGR sobre os benefícios oferecidos, Mendonça teria afirmado que poderia conceder benefícios não previstos em lei a partir de uma proposta da Polícia Federal. Essa afirmação é apresentada no documento como relato produzido no âmbito da PF. Moraes aparece como alvo de suposto direcionamento A parte mais sensível da decisão envolve a alegação de direcionamento de investigações contra integrantes de outros Poderes. Segundo Moraes, os relatórios apontariam que Mendonça teria demonstrado interesse específico na abertura de investigação formal contra ele. Um dos documentos afirma que o relator solicitou “mais de uma vez que a equipe de investigação encaminhasse alguma provocação a ele nesse sentido”. Moraes sustenta na decisão que nem a Polícia Federal nem a Procuradoria-Geral da República teriam identificado fato que constituísse infração penal de sua parte. Ainda assim, segundo o ministro, Mendonça teria continuado a buscar elementos relacionados a ele. Outro relatório citado afirma que Mendonça havia perguntado anteriormente sobre informações referentes a Moraes encontradas em dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro. O documento registra ainda a hipótese de que conteúdo sobre o material pudesse ter sido transmitido ao gabinete por integrante da equipe de investigação fora dos autos, sem conhecimento dos demais participantes. A decisão de Moraes afirma também que houve determinação para uma diligência investigatória contra ele e destaca a forma considerada atípica pela qual a ordem teria sido transmitida aos investigadores. Segundo o relatório, integrantes da PF foram chamados ao gabinete de Mendonça e receberam uma cópia física da decisão sem assinatura. A versão assinada, ainda conforme o documento, somente teria sido disponibilizada posteriormente. Para a PF, de acordo com o trecho transcrito na decisão, uma coisa seria identificar pessoas mencionadas em provas para definir a competência jurisdicional; outra seria ordenar o fornecimento integral de mensagens e interações relacionadas a essas pessoas. Essa segunda hipótese é classificada no relatório como “ato de investigação de alcance amplo”. Documento cita Davi Alcolumbre Os relatórios também tratam do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Um dos textos citados por Moraes apresenta a avaliação de que o senador poderia constituir um “provável alvo estratégico”, considerando sua influência sobre a pauta do Senado e, especificamente, sobre pedidos de impeachment contra ministros do STF. A decisão ainda reproduz avaliação da PF sobre possíveis diferenças de tratamento conforme o espectro político das pessoas investigadas. O documento menciona ACM Neto e Fábio Luís Lula da Silva e afirma que situações consideradas semelhantes poderiam estar recebendo “standards probatórios distintos conforme o espectro político da pessoa envolvida nos fatos”. PF e PGR também aparecem nos relatórios Outro trecho da decisão relata críticas atribuídas a Mendonça ao diretor-geral da Polícia Federal

Daniel Vorcaro pagou R$ 1,68 milhão a empresa de Ratinho Jr. e Ratinho, garoto-propaganda do Master

A Massa & Massa, constituída para explorar a imagem comercial do apresentador Ratinho, tem o governador do Paraná entre seus sócios e recebeu os repasses em quatro parcelas. É a primeira vez que Ratinho Jr. aparece vinculado a uma das empresas do pai com negócios no banco de Daniel Vorcaro. A empresa Massa & Massa, que tem entre seus sócios o apresentador Carlos “Ratinho” Massa, do SBT, a esposa dele, e três filhos, entre eles o governador do Paraná Ratinho Junior (PSD), recebeu R$ 1,68 milhão do Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, em quatro parcelas de R$ 420 mil. Os pagamentos foram confirmados pela assessoria do Grupo Massa e vieram à tona a partir de documento anexado ao relatório da Polícia Federal divulgado pelo ministro do STF André Mendonça, que apontava uma das parcelas como pendente. A Massa & Massa foi constituída com o propósito específico de explorar a imagem comercial do apresentador Ratinho. Seu quadro societário reúne o próprio apresentador, sua esposa, o governador Ratinho Junior e outros dois filhos do casal. Foi a essa empresa que o Banco Master, de Daniel Vorcaro, transferiu R$ 1,68 milhão em quatro parcelas de R$ 420 mil, conforme confirmado pela assessoria do Grupo Massa. Segundo a Folha de S.Paulo, o comprovante de contas a pagar, encaminhado em 14 de julho do ano passado por um membro da tesouraria do Master ao ex-banqueiro Vorcaro, listava empresas com pagamentos pendentes. Entre os CNPJs da lista estavam o escritório Barci de Moraes, da esposa do ministro Alexandre de Moraes, com saldo pendente de R$ 3,4 milhões, e a Massa & Massa, com uma das parcelas em atraso. É a primeira vez que Ratinho Junior aparece como sócio de uma das empresas do pai com negócios registrados junto ao banco. Em nota, o Grupo Massa confirmou os repasses e apresentou uma justificativa comercial para a relação. Segundo o conglomerado, Ratinho manteve contrato privado de publicidade para uso de sua imagem na promoção do CredCesta, o cartão consignado do Banco Master. O grupo afirmou ainda que, após o pagamento das quatro parcelas, a relação foi encerrada por meio de distrato, motivado por atrasos e pelo “desencontro entre a prestação dos serviços e os respectivos pagamentos”. A nota do Grupo Massa buscou também contextualizar o momento da contratação: “À época da celebração do contrato, o Banco Master operava regularmente e não havia questionamentos públicos sobre sua idoneidade que impedissem ou desaconselhassem uma relação comercial dessa natureza. A contratação teve caráter exclusivamente comercial e publicitário, vinculada ao uso da imagem do apresentador e à divulgação do CredCesta.” O argumento serve para distanciar o grupo das investigações que recaem hoje sobre o banco, mas não responde à questão central que a revelação coloca: a participação do governador do Paraná como sócio de uma empresa que recebeu pagamentos de uma instituição financeira agora investigada pelo Congresso. O Governo do Paraná, por sua vez, foi direto: afirmou que não vai comentar o caso. Contexto das relações com o Banco Master A Massa & Massa não é a única empresa do universo do Grupo Massa com registros de repasses do Banco Master. Documentos encaminhados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado indicam que outras duas empresas ligadas ao grupo, a Massa Intermediação e a Gralha Azul Empreendimentos e Participações, receberam ao menos R$ 24 milhões do banco entre 2022 e 2025. A Massa Intermediação teria recebido cerca de R$ 21 milhões no período, e a Gralha Azul, aproximadamente R$ 3 milhões. A diferença relevante entre essas empresas e a Massa & Massa é societária: o Grupo Massa fez questão de informar que Ratinho Junior não integra o quadro de sócios da Massa Intermediação nem da Gralha Azul. Ainda assim, o volume total de negócios entre o Grupo Massa e o Banco Master, somadas todas as empresas, aponta para uma relação comercial de escala considerável com uma instituição que hoje é alvo de investigação parlamentar. Ratinho também esteve diretamente associado à promoção do CredCesta em campanhas publicitárias: o produto chegou a ser oferecido a servidores públicos no Paraná, mas teve seu uso bloqueado no estado em novembro de 2025.

“Dani”, “lindão”, “estamos na guerra juntos”: áudios mostram conversa entre Nikolas Ferreira e Vorcaro

Áudios revelam intimidade entre o deputado bolsonarista e o banqueiro em suposta negociação sobre ativo de minério Um áudio enviado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mostra o parlamentar pedindo ajuda para encaminhar uma demanda de seu advogado e ex-assessor, Thiago Rodrigues de Faria, relacionada à liberação de “um ativo minerário”. A informação foi revelada pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, que teve acesso à troca de mensagens. No áudio, enviado em 30 de março de 2025, Nikolas chama Vorcaro de “Dani” e “lindão”, diz que gostaria de ter mais proximidade com o banqueiro e afirma que estava repassando o contato de uma pessoa de sua confiança. “Ei Dani, tudo bom? Como você está? Como estão as coisas aí? Desculpa te incomodar num domingo aí, é jogo rápido, também não quero tomar muito seu tempo. É o seguinte, meu amigo, meu advogado, enfim, irmão meu aqui, comentou comigo e falou daqui do seu nome. Eu falei: ‘não conheço o Dani, enfim, não tenho a proximidade assim, até mesmo a que eu queria ter, enfim, de conversar e trocar ideia, mas eu o conheço.’ Ele falou: ‘cara, tô com um ativo minerário lá, inclusive já passou pela ficha técnica, o pessoal técnico dele, enfim, tá pendente lá, tem algumas pessoas que sabem disso lá na empresa.’ E eu falei: ‘não, ué, eu posso dar um toque nele’. Então assim, não sei nem do que se trata, mas enfim é como é uma pessoa, enfim, que eu confio totalmente, tô passando aí pra você, pra se for do teu interesse, passar o contato dele aqui pra vocês tocarem isso, beleza? No mais, qualquer coisa tô aqui à disposição”, disse Nikolas no áudio. Vorcaro respondeu minutos depois com um áudio de visualização única. Em seguida, Nikolas agradeceu e enviou o contato de Thiago Faria. O banqueiro respondeu: “Amém irmão. Estamos na guerra juntos”. Nikolas afirmou que iria “dar banho na pequena agora” e completou: “pra amanhã voltar pra guerra”. A conversa terminou com Vorcaro dizendo ao deputado para “Thiago me chamar”. No dia seguinte, 1º de abril de 2025, Nikolas informou ao banqueiro que Thiago estaria em Brasília e que “qualquer horário ele estará disponível”. Vorcaro respondeu um dia depois: “Deixa comigo”. As mensagens não permitem concluir se o banqueiro efetivamente ajudou no pedido relacionado ao ex-assessor do deputado. No mesmo áudio, Nikolas também pediu desculpas a Vorcaro por publicações feitas em abril de 2024, quando criticou um evento financiado pelo Banco Master em Londres, com a presença de ministros do STJ, STF e TSE. O deputado afirmou ter conversado com o pastor Valadão sobre o episódio e disse que não sabia que se tratava do “Banco do Dani”. “Troquei ideia lá com o Pastor Valadão naquela época, lá naquela postagem, eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o Banco do Dani etc. e tudo, se não, obviamente eu não teria postado, já teria conversado anteriormente’, mas enfim, acabou que a palavra dita não tem como voltar, né? Mas espero que tenha sido esclarecido, enfim, depois vamos marcar da gente se encontrar também, tá bem? Um abraço, lindão”, afirmou Nikolas. A coluna informou ter enviado cinco perguntas a Thiago Faria e a Nikolas Ferreira. Faria respondeu que o deputado estava em campanha e que não iria incomodá-lo. “Essas perguntas são nada a ver”, disse. Em áudio enviado ao ICL, Faria afirmou ainda que conhece Vorcaro por ambos serem de Belo Horizonte e declarou que trabalhava na área de mineração. “O Vorcaro é de Belo Horizonte e eu sou de Belo Horizonte e a gente conhece todo mundo. Uma vez eu, enfim, tinha um ativo minério porque eu trabalho nessa área de mineração e mandei um ativo minerário pra todo mundo de um contrato que todo mundo sabe que já saiu de uma pessoa que teve um problema e ao qual eu nunca fui chamado para depor na PF porque eu não tenho nada a ver com isso”, disse. O nome de Thiago Rodrigues de Faria ganhou destaque meses depois da troca de mensagens, após ser citado em apurações relacionadas à Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025. A investigação da Polícia Federal mirou um esquema criminoso de extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e resultou em 22 prisões preventivas. Segundo reportagem do jornal O Estado de Minas, Faria teria atuado como intermediário, por meio de um contrato de confidencialidade, em uma negociação envolvendo uma lavra de minério e empresas investigadas pela PF. Uma das empresas mencionadas é a Gmais Ambiental. A Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia tinha um contrato assinado em janeiro de 2025 com a Gmais. O acordo previa remuneração de 25% do lucro total, estimado entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões, caso fosse obtida autorização para retomada de mineração em uma área e posterior venda de uma lavra. Em trecho do inquérito da PF reproduzido pela reportagem, os investigadores afirmam: “chamaram a atenção os valores prováveis da negociação sobre os quais os apresentantes seriam remunerados. O valor inicial era de US$ 30.000.000,00 podendo ultrapassar os US$ 45M, valor que geraria 20% de comissão aos parceiros Gmais, Estabil escritório contábil e Thiago Rodrigues advocacia”. O contrato entre a Gmais e a empresa ligada ao ex-assessor de Nikolas também envolvia, segundo a reportagem, a mineração Topázio Imperial, detentora dos direitos minerários de uma lavra onde fica a barragem Água Fria, apontada como uma das sete estruturas com maior risco de rompimento no Brasil. À época, a operação estava suspensa por ação do Ministério Público Federal. Ainda conforme a PF, o grupo investigado pretendia vender a lavra da Topázio para exploração. Para isso, seria necessário liberar a empresa, titular dos direitos minerários em Ouro Preto, no distrito de Rodrigo Silva

Cármen Lúcia vira voto decisivo em disputa sobre Moraes no caso Master

STF está dividido e Cármen Lúcia será voto de Minerva sobre Moraes · 4 ministros são favoráveis à apuração e 3 são contra; A ministra Cármen Lúcia aparece como potencial voto decisivo numa eventual análise do plenário do Supremo Tribunal Federal sobre a possibilidade de investigar Alexandre de Moraes no caso Banco Master. Um levantamento do Poder360 aponta quatro ministros favoráveis à apuração e três contrários, mas não se trata de um placar produzido por votação ou de posições formalizadas publicamente por todos os integrantes da Corte.Edson Fachin, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e André Mendonça estariam no grupo favorável à investigação. Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin seriam contrários. Cármen Lúcia é apontada como indefinida. A reportagem afirma ainda que Moraes e Dias Toffoli devem se declarar suspeitos caso o tema chegue ao plenário, mas essa hipótese ainda não se materializou em declarações de impedimento no processo.Um voto de Cármen Lúcia contra a investigação produziria um empate por 4 a 4, resultado que favoreceria Moraes. O cenário depende, porém, da própria configuração do julgamento e das posições que efetivamente forem apresentadas quando o Supremo analisar a questão. André Mendonça e Alexandre de Moraes André Mendonça pediu que o caso seja submetido ao plenário. Antes disso, deve concluir o relatório sobre a apuração, o que é esperado para o início da próxima semana. Caberá ao presidente do STF, Edson Fachin, definir os próximos passos e eventual inclusão do assunto na pauta. Até agora, não há data formalmente marcada para uma votação.A movimentação ocorre em meio a uma disputa interna sobre a validade dos atos praticados por Mendonça no caso Master. Ministros próximos a Moraes calculam ter maioria para anular medidas do relator, enquanto Mendonça defende a continuidade da apuração.Fachin afirmou nesta quarta-feira (2) que os fatos revelados exigem encaminhamento institucional e que ainda analisa tanto os questionamentos sobre a condução de Mendonça quanto os elementos surgidos no material da Polícia Federal. Enquanto o presidente do STF não anunciar as medidas e o processo não chegar efetivamente ao plenário, o alegado 4 a 3 permanece como uma fotografia de bastidor, e não como resultado de julgamento.

‘Pedaladas fiscais’: cai o castelo de cartas do impeachment de Dilma

TCU anulou, em 1º de setembro, punições impostas ao ex-secretário do Tesouro Arno Augustin. Além da reparação jurídica, é necessário o desagravo político a ele Por Raul Pont e Olívio Dutra (*) Dez anos depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, uma decisão da Justiça Federal abre as portas para a reparação de uma das injustiças daquele processo. No dia 1º de setembro, foram anuladas as punições impostas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) ao ex-secretário do Tesouro Nacional Arno Augustin no caso das chamadas “pedaladas fiscais”. Com isso, cai por terra o castelo de cartas (marcadas) que serviu de abrigo ao processo de impeachment de Dilma Rousseff. Arno foi secretário do Tesouro nos governos Lula e Dilma e acabou transformado em bode expiatório de um processo que teve papel central na construção política e jurídica do impeachment. Antes dele, o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, também já havia obtido a anulação das decisões do TCU. O ponto principal da decisão é simples: o TCU puniu Augustin com base em uma interpretação adotada apenas em 2015, aplicando-a a fatos ocorridos anteriormente. Até então, os atrasos nos repasses da União a bancos públicos não eram considerados operações de crédito proibidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Mais do que isso: a atuação de Arno Augustin estava respaldada por entendimentos da Advocacia-Geral da União e da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Durante uma década, Arno Augustin,Guido Mantega e Dilma Rousseff carregaram uma acusação que atingiu suas trajetórias e imagem pública. As “pedaladas fiscais” foram apresentadas como demonstração de grave irregularidade e utilizadas para dar sustentação ao processo que afastou uma presidenta eleita por mais de 54 milhões de brasileiros. É um passo importante, mas insuficiente. Além da reparação jurídica, é necessário o desagravo político a Augustin, um gestor público honesto e competente, que sempre tratou as finanças públicas com seriedade, tanto na Prefeitura de Porto Alegre, no Governo do Estado do RS quanto no Governo Federal.É necessário um desagravo popular à Dilma Rousseff, uma mulher honesta que lutou pelo Brasil e pela democracia desde a sua juventude. Arno Augustin merece ter reconhecida sua trajetória de compromisso com o serviço público e de lealdade ao projeto político que ajudou a transformar o Brasil. Dilma Rousseff merece Justiça. O povo brasileiro merece saber a verdade. (*)Raul Pont é ex-prefeito de Porto Alegre Olívio Dutra é ex-governador do Rio Grande do Sul

André Mendonça teve encontro secreto com Daniel Vorcaro

Mensagens indicam que magistrado já sabia dos problemas do Master antes de reunião de duas horas em instituto fundado por ele em SP Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam uma articulação de semanas para aproximá-lo do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que culminou em uma reunião reservada em 14 de março de 2025, em São Paulo. O encontro ocorreu no endereço de um instituto fundado pelo próprio magistrado e, segundo os registros de deslocamento do banqueiro, durou aproximadamente duas horas. O material foi obtido pelo jornalista Paulo Motoryn e publicado originalmente na newsletter Noites Húngaras, no Substack. As conversas mostram que a aproximação foi conduzida principalmente pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), que mantinham contato com Mendonça e atuaram para organizar encontros com Vorcaro. A articulação começou em 7 de fevereiro de 2025. Naquela tarde, Ciro tentou ligar várias vezes para Vorcaro e, depois das chamadas não atendidas, escreveu: “Opa”, “me liga” e “Tô [com] André M.”. No dia seguinte, Ciro encaminhou ao banqueiro uma fotografia em que aparecia ao lado de André Mendonça. Segundo a reportagem, a imagem teria sido feita em uma unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, empresa com endereços em Brasília e São Paulo. Logo depois, o advogado enviou um áudio de seis segundos: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”. As mensagens não esclarecem qual trabalho Ciro dizia estar realizando para Vorcaro nem se havia algum contrato formal do advogado com o banqueiro, o Banco Master ou empresas ligadas ao grupo. O diálogo mostra, porém, que Ciro apresentava sua proximidade com Mendonça como parte de uma atuação em favor de Vorcaro. Ciro Rocha Soares é advogado e sócio do escritório Rocha Soares Advogados Associados, em Salvador. Entre 2016 e 2017, foi ouvidor do Ministério do Turismo. As conversas também revelam que a relação entre ele e Vorcaro não era estritamente profissional. Os dois se tratavam como irmãos e trocavam mensagens de amizade e sobre assuntos familiares. Essa proximidade aparece em uma conversa de 16 de fevereiro, quando Ciro procurou novamente o banqueiro. “Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”, escreveu o advogado. Logo depois, acrescentou: “Muito importante sua ida nele junto comigo”. Vorcaro respondeu com um ponto de interrogação e, posteriormente, sugeriu: “Marca quarta”. Na mesma sequência de mensagens, Ciro reclamou, em tom amistoso, que Vorcaro havia sido “o único amigo” que não telefonara em seu aniversário. O banqueiro explicou que quase compareceu à comemoração, mas teve um problema envolvendo os filhos. “Você é meu irmão caçula, meu protegido”, respondeu Ciro. Vorcaro, por sua vez, chamou o advogado de “irmão, anjo da guarda, parceiro, amigo de verdade” e afirmou: “Se não fosse você eu não estaria de pé”. “Dei uma balançada nele” Depois da troca de mensagens pessoais, Ciro enviou a Vorcaro um áudio de 1 minuto e 39 segundos em que detalhou sua interlocução com André Mendonça. O advogado contou que o ministro havia feito uma homenagem a ele durante sua festa de aniversário e citou também a presença do ministro do STF Kassio Nunes Marques e do procurador-geral da República, Paulo Gonet. “O André Mendonça fez uma homenagem pra mim do caralho no aniversário. O Kassio, o Gonet, puta merda, enfim, foi bacana”, disse. Em seguida, Ciro voltou ao assunto envolvendo Vorcaro: “O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.” O advogado não explicou naquele momento o que seria “aquele assunto”. Mais adiante no mesmo áudio, porém, fez referência direta aos problemas enfrentados pelo Banco Master perante o Banco Central. “O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo, me pediu até pra levar o Otto. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha, Cezinha já tinha falado com ele.” A gravação indica, portanto, que havia ao menos duas linhas de interlocução com Mendonça antes do encontro com Vorcaro: uma conduzida por Ciro e outra por Cezinha de Madureira. Segundo o próprio advogado, os dois já haviam falado ao ministro sobre uma situação envolvendo o Banco Central. Ciro também disse que iria a Brasília e depois seguiria para São Paulo, onde seria internado no Hospital Sírio-Libanês. Ele propôs encontrar Vorcaro no Banco Master antes da reunião com Mendonça. “Se quiser, eu passo no banco, a gente conversa”, sugeriu. Primeira tentativa de encontro fracassou Em 17 de fevereiro, Ciro voltou a procurar Vorcaro e afirmou que estava saindo de Brasília. “Dani, estou saindo de BSB agora. Estava numa reunião. Preciso falar com você hoje. Podemos marcar às 18h”, escreveu. Os dois fizeram uma ligação de 18 segundos. Pouco depois, Ciro informou que estava “subindo”, indicando que teria chegado ao local combinado. Às 19h08, enviou outra mensagem: “Cezinha confirmou às 16h de quarta”. A quarta-feira seguinte era 19 de fevereiro. O conjunto das mensagens indica que Ciro fazia referência a um encontro com André Mendonça que estava sendo organizado para aquele dia. Na data marcada, o advogado pediu a Vorcaro que Bruno Bianco Leal também comparecesse. Bianco comandou a Advocacia-Geral da União entre agosto de 2021 e janeiro de 2023, sucedendo justamente André Mendonça na chefia da instituição durante o governo de Jair Bolsonaro. Após deixar o serviço público, passou a atuar na iniciativa privada e posteriormente integrou a defesa de Vorcaro. “Ô, Dani, deixa eu te falar aqui, pede ao Bruno Bianco chegar aqui quatro e meia, pode ser? Que aí a gente faz uma apresentação aqui. Ou quatro e vinte”, disse Ciro em áudio. A reunião prevista para as 16h, porém, não ocorreu como planejado. A apuração da newsletter conferiu a agenda e os registros da sessão do plenário do STF daquele 19 de fevereiro e verificou que Mendonça estava em Brasília, participando presencialmente do julgamento durante a tarde. As mensagens não esclarecem se a reunião foi cancelada ou apenas remarcada. Menos de

Lula lidera com folga e Augusto Cury cresce, mas ainda não ameaça Flávio Bolsonaro

O presidente Lula (PT) tem 37% das intenções de voto, contra 29% de Flávio Bolsonaro (PL) e 10% de Augusto Cury (Avante) O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a corrida presidencial no primeiro turno e aparece numericamente à frente de seus adversários em todas as simulações de segundo turno testadas pela Quaest, em pesquisa divulgada nesta quarta-feira (2). No cenário estimulado sem Pablo Marçal (PRTB), Lula tem 37% das intenções de voto, contra 29% de Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de oito pontos percentuais. O levantamento mostra a disputa mais apertada em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Nesse cenário, o petista aparece com 42%, contra 41% do candidato do PL. Outros 13% afirmam que votariam em branco, nulo ou não iriam votar, enquanto 4% estão indecisos. No primeiro turno, o escritor Augusto Cury (Avante) aparece em terceiro lugar, com 10%. Na sequência aparecem Renan Santos (Missão), com 3%, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Samara Martins (UP), todos com 1%. Rui Costa Pimenta (PCO), Wilson Grassi (Democrata), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB) e Hertz Dias (PSTU) pontuaram 0. Os indecisos somam 11%, enquanto 7% afirmam que votarão em branco, nulo ou não irão votar. A Quaest também testou um cenário de primeiro turno com a inclusão de Pablo Marçal, que registrou candidatura pelo PRTB no último dia do prazo, em 15 de agosto, embora esteja inelegível. Nesse quadro, Lula mantém 37%, enquanto Flávio Bolsonaro sobe para 30%. Augusto Cury segue com 10%, Renan Santos aparece com 3%, e Caiado, Marçal e Zema registram 1% cada. Samara Martins, Rui Costa Pimenta, Clariana Barão, Wilson Grassi, Edmilson Costa e Hertz Dias aparecem com 0. Os indecisos são 10%, e branco, nulo ou não vai votar somam 7%. Além do confronto com Flávio Bolsonaro, a Quaest apresentou outras quatro simulações de segundo turno. Contra Ronaldo Caiado, Lula marca 42%, ante 37% do governador de Goiás. Nesse cenário, 17% declaram voto branco, nulo ou dizem que não irão votar, e 4% estão indecisos. Na disputa inédita contra Augusto Cury, incluído pela primeira vez em uma simulação de segundo turno da Quaest, Lula aparece com 40%, enquanto o candidato do Avante registra 34%. O percentual de branco, nulo ou não vai votar chega a 21%, e 5% não souberam responder. Lula também aparece numericamente à frente de Renan Santos e Romeu Zema. Contra Renan, o presidente tem 43%, contra 36% do candidato do Missão, com 17% de branco, nulo ou não vai votar e 4% de indecisos. Já contra Zema, Lula registra 44%, enquanto o governador de Minas Gerais aparece com 33%; nesse cenário, 19% declaram voto branco, nulo ou dizem que não irão votar, e 4% estão indecisos. A presença de Marçal no cenário eleitoral ainda depende de decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que deverá analisar se ele poderá ou não concorrer. Por esse motivo, o levantamento divulgado nesta quarta-feira apresentou duas simulações de primeiro turno: uma sem o candidato do PRTB e outra com seu nome incluído. Segundo a Quaest, os números da rodada atual não são comparáveis aos da pesquisa anterior, divulgada em 14 de agosto, porque o cenário testado era diferente. Naquele levantamento, Leonardo Avalanche aparecia como candidato do PRTB, antes de ceder a vaga a Pablo Marçal. Na pesquisa espontânea, em que os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, Lula também aparece na liderança. O presidente foi citado por 28% dos eleitores, enquanto Flávio Bolsonaro marcou 20%. Augusto Cury foi lembrado por 4%, mesmo percentual registrado pela soma dos demais nomes citados. A taxa de indecisos chega a 42%, e 2% afirmam que votarão em branco, nulo ou não irão votar. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas de 16 anos ou mais em todo o país entre os dias 30 de agosto e 1º de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi registrado no TSE sob o número BR-07065/2026.

Mendonça desafia PGR e quer levar caso Moraes-Vorcaro ao plenário do STF

Gonet pede nulidade da apuração, mas ministro quer que Corte examine relatório da PF O ministro André Mendonça deve insistir para que o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) analise o relatório da Polícia Federal que cita o ministro Alexandre de Moraes em conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. A iniciativa deve avançar mesmo após a Procuradoria-Geral da República (PGR) pedir o arquivamento da apuração. Com informações de Ana Flor, no g1. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, assinou a manifestação que defende a nulidade da investigação conduzida sob relatoria de Mendonça. Gonet também aparece nas conversas reunidas pela Polícia Federal. O relatório contém uma troca de mensagens que indica que Moraes discutiu com Vorcaro a possibilidade de a Polícia Federal deflagrar uma operação que teria o então banqueiro como alvo. Os diálogos chegaram ao STF e Mendonça retirou o sigilo do material. A Polícia Federal também apontou mensagens e encontros entre Moraes e Vorcaro desde 2024. O documento inclui informações sobre contratos entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Pedido de Mendonça prevê decisão dos ministros do STF Mendonça já havia solicitado ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, o envio do caso ao plenário. A corte deverá decidir se autoriza ou não a abertura de uma investigação a partir dos elementos reunidos pela Polícia Federal. A manifestação da PGR, apresentada na terça-feira (1), sustenta que a apuração que apontou a relação entre Moraes e Vorcaro é nula. O pedido do órgão contraria a iniciativa de submeter o conteúdo ao conjunto dos ministros. Vorcaro trocou mensagens com Moraes em período anterior à prisão do ex-banqueiro, conforme o relatório policial. Uma das conversas trata da eventual ação da PF, enquanto os documentos também registram contatos pessoais entre os dois. Com a avaliação no plenário, os ministros poderão examinar as informações da PF e a posição da PGR antes de definir se haverá investigação sobre os fatos relacionados a Moraes, Vorcaro e os contratos mencionados no relatório.

Dez anos do golpe contra Dilma Rousseff e a democracia nacional

Em artigo publicado na revista Teoria e Debate, editada pela Fundação Perseu Abramo, a presidenta do Instituto Lula, Ivone Silva, reflete sobre os dez anos do golpe que retirou Dilma Rousseff da Presidência do Brasil Por Ivone Silva*Os avanços sociais alcançados no Brasil nas primeiras décadas dos anos 2000, durante os dois mandatos do Presidente Lula e o primeiro governo de Dilma Rousseff, trouxeram esperança, otimismo e a sensação de que, finalmente, nossa democracia estava consolidada. Parecia que os traumas e as mazelas deixados pela ditadura militar estavam, enfim, sendo enfrentados e superados. O país crescia, milhões de brasileiros saíam da pobreza, o mercado de trabalho se aquecia, o Brasil construía, de fato, um futuro mais justo.Foi nesse contexto que elegemos a primeira mulher Presidenta da história do país. E isso não era pouca coisa. Dilma Rousseff era uma mulher que havia lutado pela democracia durante os anos mais sombrios da ditadura militar, integrado a resistência armada contra o regime, sido presa, barbaramente torturada – e, mesmo assim, sobrevivido. Ela resistiu, reconstruiu sua vida, seguiu lutando por seus ideais, e décadas depois chegou ao posto mais alto da República: Presidenta do Brasil.Era um símbolo poderoso. Uma mulher que o Estado autoritário havia tentado silenciar pela violência se tornava, agora, a própria representante máxima daquele Estado – democrático e legítimo. Para muitos brasileiros, sua trajetória pessoal se confundia com a própria trajetória do país: de um passado de repressão e silenciamento a um presente de participação, voz e esperança renovada.Esse simbolismo se traduziu em governo nos primeiros anos da presidência de Dilma Rousseff. Os anos de 2011 e 2012 foram marcados pela continuidade das políticas sociais e econômicas do período Lula, e também pela afirmação de um estilo próprio de governar, mais técnico. Dilma deu sequência a programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, além de lançar o Brasil Sem Miséria, voltado à erradicação da extrema pobreza. A taxa de desemprego seguiu em queda, atingindo patamares historicamente baixos, e o país mantinha o protagonismo internacional, sediando eventos como a Rio+20, em 2012. Por outro lado, o período também revelou os primeiros sinais de desaceleração econômica. O crescimento do PIB, que havia sido robusto nos anos Lula, começou a perder fôlego já em 2011 e despencou em 2012, refletindo fatores externos – como os efeitos da crise financeira internacional de 2008 sobre a economia global. Ainda assim, a popularidade de Dilma se manteve elevada ao longo desses dois primeiros anos, sustentada pelos avanços sociais acumulados e por uma economia que, apesar da desaceleração, ainda garantia emprego e renda à maioria da população. As jornadas de junho de 2013 chegaram como um anúncio do que estava por vir. Naquele momento as coisas ainda não estavam muito claras, poucos perceberam, mas era o início do golpe contra a nossa democracia tomando forma. Começaram como um protesto pontual contra o aumento de vinte centavos na tarifa do transporte público em São Paulo, organizado pelo Movimento Passe Livre. A resposta truculenta da polícia às primeiras manifestações, com uso intenso de bombas e balas de borracha contra estudantes, foi o estopim que levou milhões de pessoas às ruas em centenas de cidades do país. O que era uma pauta específica se transformou rapidamente em um mosaico de reivindicações difusas, sem lideranças claras e sem uma bandeira única. Foi justamente nessa pulverização de pautas que setores organizados da direita, até então marginais nas ruas, encontraram espaço para se inserir e disputar o sentido dos protestos. Bandeiras nacionais, discursos contra a “corrupção” genérica e pautas anti-partidárias começaram a ganhar destaque, enquanto militantes de partidos e sindicatos eram hostilizados nas manifestações. Esse deslocamento discursivo abriu caminho para uma polarização crescente. Nesse sentido, muitos analistas e atores políticos identificam em junho de 2013 o momento de gestação de um processo mais amplo, que desembocaria no golpe de 2016. A desconfiança nas instituições, amplificada pela cobertura midiática e pelas redes sociais, criou o terreno fértil para a deslegitimação de governos eleitos e para a naturalização de saídas não eleitorais como resposta a crises políticas. Foi nesse ambiente já contaminado pela desconfiança na política e nas instituições que a campanha de 2014 chegou – e ela foi um divisor de águas na forma como acompanhei a política deste país. Como sindicalista, eu já estava acostumada ao embate duro, aos ataques de patrões e da mídia contra qualquer mobilização de trabalhadores. Mas assistir aos debates entre Dilma Rousseff e Aécio Neves foi outra coisa: era possível sentir, através da tela, uma carga de agressividade que não se dirigia apenas a um adversário político, mas a uma mulher no poder. Os ataques de Aécio traziam um tom que ia além da crítica às pautas políticas. Havia uma insistência em pautar posturas, tom de voz, “nervosismo” – adjetivos que raramente se aplicam a candidatos homens em situação semelhante. Para nós, mulheres que estamos nos espaços sindicais, isso não era novidade: sabíamos reconhecer ali os mesmos mecanismos que enfrentamos em assembleias, em mesas de negociação, em ambientes dominados por homens. O mais angustiante era perceber como esse tipo de discurso encontrava eco. Comentários nas ruas, nas rodas de conversa, repetiam as mesmas ideias: que ela era “despreparada”, “autoritária”, “não sabia ouvir” – enquanto propostas concretas, dados econômicos e projetos de país ficavam em segundo plano diante da disputa por quem parecia mais “equilibrado”. Como mulher, eu enxergava naquilo uma antecipação de algo maior: uma deslegitimação que não era só político-partidária, mas de gênero, e que se aprofundaria nos anos seguintes. Essa antecipação, infelizmente, não tardou a se confirmar. Dilma venceu a eleição de 2014, mas Aécio Neves já declarava que ela não ia conseguir governar. Aécio e o PSDB chegaram a formalizar uma petição oficial no TSE pedindo a fiscalização integral dos sistemas de votação. Segundo o partido (PSDB), o objetivo não era colocar em dúvida a vitória ou alegar fraude inicial, mas sim acalmar “teorias conspiratórias” levantadas por cidadãos na internet após a apuração. A partir daí, o segundo mandato de

Sai nova pesquisa BTG/Nexus: Lula lidera e Cury assume a terceira posição, com 11%

Presidente aparece com 39% no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro; Augusto Cury alcança dois dígitos e surge como novidade da disputa Uma nova rodada da pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda-feira 31, sobre a eleição presidencial de 2026 mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na liderança da disputa, com 39% das intenções de voto no cenário estimulado de primeiro turno. Flávio Bolsonaro aparece na segunda colocação, com 33%, enquanto Augusto Cury desponta como a principal novidade do levantamento e assume isoladamente o terceiro lugar, com 11%. O resultado consolida Cury como um novo personagem relevante na corrida presidencial. Com dois dígitos, ele aparece à frente de candidatos que já vinham construindo suas campanhas há mais tempo e altera a configuração da disputa abaixo dos dois primeiros colocados. Na sequência aparecem Ronaldo Caiado, com 5%, Renan Santos, com 3%, Romeu Zema, com 1%, e Samara, também com 1%. Lula tem 39%, Flávio 33% e Cury chega a 11% No cenário estimulado de primeiro turno informado pela pesquisa BTG/Nexus, os resultados são: Lula mantém, portanto, seis pontos percentuais de vantagem sobre Flávio Bolsonaro. A novidade está na chegada de Cury aos 11%, percentual que o coloca com ampla vantagem sobre os demais candidatos situados fora da polarização entre Lula e Flávio. Lula lidera todos os segundos turnos testados A BTG/Nexus também simulou quatro confrontos de segundo turno envolvendo Lula. O presidente aparece numericamente à frente em todos eles. No duelo mais apertado, Lula registra 46%, contra 45% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de apenas um ponto percentual. O cenário caracteriza empate técnico. Contra Ronaldo Caiado, a distância também é mínima: Lula aparece com 45% e o governador de Goiás com 44%, configurando igualmente empate técnico. As vantagens do presidente aumentam nos outros dois confrontos. Lula marca 46% contra 41% de Romeu Zema e chega a 47% diante de Renan Santos, que registra 38%. Os resultados são: Pesquisa não testou Lula contra Augusto Cury Um dado importante da nova rodada é a ausência de uma simulação de segundo turno entre Lula e Augusto Cury. Embora o escritor apareça agora com 11% e ocupe a terceira colocação no primeiro turno, a BTG/Nexus não testou como seria um eventual confronto direto entre ele e o atual presidente. A ausência desse cenário ganha relevância justamente pelo desempenho de Cury. Ao atingir dois dígitos, ele se distancia de Caiado, Renan Santos e Zema e passa a ocupar uma faixa própria dentro da disputa presidencial. Cury é a novidade da corrida presidencial O levantamento mostra uma eleição ainda liderada por Lula e com Flávio Bolsonaro consolidado como seu principal adversário, mas acrescenta um elemento novo ao quadro eleitoral. Os 11% obtidos por Augusto Cury indicam a existência de um contingente expressivo do eleitorado disposto a buscar uma candidatura fora da polarização entre Lula e o bolsonarismo. A evolução desse eleitorado passa a ser uma das variáveis importantes das próximas pesquisas. Ao mesmo tempo, os números de segundo turno revelam uma disputa competitiva. Lula lidera numericamente todos os confrontos apresentados pela BTG/Nexus, mas enfrenta situações de empate técnico contra Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado. A nova rodada, portanto, desenha três movimentos centrais para a eleição: Lula permanece na liderança, Flávio Bolsonaro continua como principal adversário e Augusto Cury emerge, com 11%, como a novidade mais relevante da disputa pelo terceiro lugar.