“Mulher arruma enguiço”: declaração misógina amplia repúdio de eleitoras ao bolsonarismo

Ao justificar o fim da presidência do PL Mulher dizendo que “mulher arruma enguiço com 20”, Valdemar Costa Neto amplia uma sequência de crises que desmonta a estratégia de Flávio Bolsonaro para reduzir a rejeição feminina A estratégia da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para reduzir a histórica rejeição do bolsonarismo entre as mulheres sofreu mais um revés nesta quarta-feira (8). Após participar de um almoço promovido por frentes parlamentares, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, justificou a decisão de extinguir a presidência nacional do PL Mulher após a saída de Michelle Bolsonaro. Ao defender a medida, afirmou que nenhuma dirigente do partido estaria “à altura” da ex-primeira-dama. Questionado por jornalistas sobre a possibilidade de outra mulher assumir a presidência nacional do PL Mulher, respondeu: “Você sabe mulher como é, né? Arruma enguiço com 20. Nós queremos extinguir a presidência nacional.” A declaração de Valdemar se soma a uma sequência de episódios que, em menos de duas semanas, tornou incontornável um traço histórico do bolsonarismo: a misoginia. Michelle Bolsonaro rompeu com Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo afirmou que mulheres “votam estatisticamente muito mal” e, agora, o presidente do PL recorreu a um estereótipo de gênero para justificar o fim da presidência nacional do PL Mulher. A fabricação do “bolsonarista vacinado” O desgaste ocorre justamente quando Flávio Bolsonaro tenta reduzir a resistência do eleitorado feminino ao bolsonarismo. Desde o início da pré-campanha, aliados do senador trabalhavam para evitar que ele herdasse a rejeição das mulheres ao ex-presidente Jair Bolsonaro, considerada um dos fatores que contribuíram para a derrota da direita em 2022. Entre aliados, a estratégia era sintetizada na ideia de construir um “bolsonarista vacinado”. Flávio intensificou as aparições ao lado da esposa, a dentista Fernanda Bolsonaro, e das filhas, incorporou a imagem de “pai de meninas” à comunicação da campanha, adotou um tom mais moderado em entrevistas e passou a defender a presença de uma mulher na chapa presidencial. As mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro e concentram, historicamente, a maior rejeição ao bolsonarismo. Era justamente essa distância que a campanha tentava reduzir. Michele, Figueiredo e Valdemar A primeira fissura veio com o rompimento entre Michelle e Flávio Bolsonaro. A ex-primeira-dama afirmou ter sido desrespeitada, humilhada e “apunhalada” pelo enteado durante divergências sobre alianças políticas no Ceará. A crise retirou da campanha justamente a liderança encarregada de aproximar o bolsonarismo do eleitorado feminino. Dias depois, Paulo Figueiredo ampliou o desgaste ao afirmar que mulheres “votam estatisticamente muito mal”, sobretudo as solteiras. A repercussão obrigou Flávio Bolsonaro a repudiar publicamente a declaração depois de seis dias, mas não impediu que ela fosse associada ao entorno político do senador. Agora, a fala de Valdemar Costa Neto produz um efeito semelhante. Mais do que ampliar a crise, ela corrói a principal narrativa construída pela pré-campanha: a de que seria possível apresentar um Bolsonaro mais moderado sem romper com a cultura política que caracteriza o bolsonarismo. O custo político A sucessão de episódios ocorre em um cenário eleitoral particularmente desfavorável ao bolsonarismo entre as mulheres. Levantamento Meio/Ideia divulgado nesta quarta-feira mostra que 60,6% dos brasileiros rejeitam a declaração de Paulo Figueiredo. Entre as mulheres, nenhuma entrevistada afirmou concordar com a fala. Quase metade (49,6%) discordou totalmente e 25,8% discordaram parcialmente. O mesmo instituto mostra Lula liderando todos os cenários testados para a eleição presidencial de 2026. Em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, o presidente aparece com 45% das intenções de voto, contra 40% do senador. Outros levantamentos reforçam essa tendência. Pesquisa BTG Pactual/Nexus mostrou Lula com 55% das intenções de voto entre as mulheres, enquanto Flávio registra 37%. Os números ajudam a explicar por que o eleitorado feminino se tornou prioridade para a campanha bolsonarista. Mais do que ampliar votos, o objetivo era romper uma barreira que acompanha a família Bolsonaro há anos. Até agora, o movimento tem produzido o efeito contrário. O contraste na disputa pelo voto feminino O contraste torna-se ainda mais evidente porque ocorre em paralelo ao movimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nos últimos dias, Lula intensificou uma agenda voltada às mulheres, defendendo o endurecimento das penas para autores de feminicídio, novas medidas de proteção às vítimas de violência e políticas voltadas à autonomia econômica feminina. As declarações reforçam uma agenda construída desde o início do mandato, marcada pela recriação do Ministério das Mulheres, pela Lei da Igualdade Salarial e pela ampliação da rede de enfrentamento à violência de gênero. Em uma eleição na qual as mulheres representam a maioria do eleitorado, a sucessão de acontecimentos das últimas semanas produziu um efeito que vai além do desgaste provocado por declarações individuais. Ela tornou mais difícil para o bolsonarismo sustentar a tentativa de apresentar Flávio Bolsonaro como um candidato capaz de romper com a rejeição feminina herdada do pai e ampliou um contraste que tende a marcar a disputa de 2026: de um lado, um governo que busca disputar esse eleitorado por meio de políticas públicas; de outro, uma oposição cuja tentativa de moderação esbarra, repetidamente, em manifestações de misoginia vindas do próprio campo político.

União-PP deve abandonar Flávio Bolsonaro e anunciar neutralidade nas eleições

Falta de apoio a Márcio Canella, preso pela PF, amplia crise no Rio e leva federação União-PP a se afastar de Flávio Bolsonaro na disputa pelo Planalto A prisão de Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil no Rio de Janeiro, ampliou a crise entre aliados da direita no estado e deve levar a federação União-PP a abandonar o apoio a Flávio Bolsonaro (PL) e anunciar neutralidade nas eleições, segundo Bela Megale, do jornal O Globo. A operação da Polícia Federal contra Canella provocou forte irritação entre dirigentes do União Brasil por dois motivos principais: a percepção de que o PL teria passado a atuar para retirar o ex-prefeito da disputa ao Senado e a ausência de manifestações de apoio, ainda que reservadas, por parte de Flávio Bolsonaro.Canella, aliado de Flávio no Rio, foi preso na quarta-feira (8) depois que um fuzil foi encontrado em seu carro. Ele foi um dos alvos da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal para desarticular uma organização criminosa suspeita de usar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro para lavar dinheiro.Mesmo após a prisão, lideranças do União Brasil avaliam que ainda há possibilidade de Canella ser solto e de sua pré-candidatura ao Senado ser mantida. A legenda, no entanto, passou a enxergar com desconfiança a movimentação de aliados do PL em torno do caso.Dirigentes do União atribuem a correligionários do partido de Flávio Bolsonaro a circulação da versão de que Canella poderia deixar a disputa majoritária e concorrer a deputado. Para integrantes da sigla, essa articulação teria como objetivo abrir espaço para que o PL indique um nome próprio na chapa ao Senado no Rio.A irritação também aumentou diante do silêncio de Flávio Bolsonaro após a ação da Polícia Federal contra seu aliado. A cúpula do União Brasil esperava algum gesto político do senador, mesmo discreto, mas afirma que não houve manifestação de apoio.O desgaste se soma a uma insatisfação anterior do PP, outro partido da federação, com a postura de Flávio Bolsonaro. O presidente nacional da legenda, senador Ciro Nogueira (PP-PI), já havia demonstrado contrariedade depois de ser alvo da Polícia Federal na investigação relacionada ao Banco Master e ao empresário Daniel Vorcaro.Ciro Nogueira já vinha descartando a possibilidade de apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Com a prisão de Canella e a reação negativa do União Brasil, a tendência dentro da federação é de distanciamento ainda maior em relação ao projeto eleitoral do senador do PL no Rio de Janeiro.