Fora de controle no Brasil, pandemia começa a se espalhar para países vizinhos

Ponte da Amizade, na fronteira com o Paraguai: crise que se alastra (Paulo Lisboa/AFP)

Número de casos de Covid-19 tem aumentado nas regiões fronteiriças e preocupa Ponte da Amizade, na fronteira com o Paraguai: crise que se alastra

A grave situação da pandemia no Brasil, com recordes de mortes e o sistema de saúde em seu limite, espalhou-se para o restante da América do Sul, colocando em xeque até o Uruguai, considerado até agora um exemplo de contenção do coronavírus. “Infelizmente, a terrível situação do Brasil também afeta os países vizinhos”, declarou a diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Carissa Etienne. É “crucial” reforçar as medidas, advertiu.

A agência destacou o aumento de casos de Covid-19 nos estados venezuelanos de Bolívar e Amazonas, bem como no departamento (estado) de Pando, na Bolívia, e em Loreto, no Peru, todos vizinhos do Brasil.

A circulação massiva da cepa brasileira, ou P.1, uma mutação do Sars-CoV-2 muito mais virulenta, está no centro dessa nova onda. Após ser detectada em Manaus no final de 2020, muitos países suspenderam as ligações aéreas e terrestres para viajantes do Brasil, na tentativa de impedir sua propagação. Mas, três meses depois, a variante já foi identificada em 32 países e territórios das Américas.

“Emergência de saúde pública ativa”

O panorama é crítico no Brasil. A flexibilização das restrições ordenadas pelos governos estaduais, especialmente durante o Natal e o carnaval, levou a uma “emergência de saúde pública ativa”, disse Etienne.

Na terça-feira, o país bateu novo recorde ao registrar 3.251 mortes em 24 horas. Um dia depois, ultrapassou a marca de 300 mil vítimas fatais, enquanto 12,2 milhões de seus 210 milhões de habitantes já foram infectados.

A pressão levou o presidente Jair Bolsonaro, cético em relação ao vírus e obstinado opositor do confinamento, a formar na quarta-feira um comitê de crise “para decidir o rumo do combate” à pandemia.

A decisão chega no momento em que 23 dos 26 estados e o Distrito Federal relatam 85% de ocupação das Unidades de Terapia Intensiva, e as denúncias de escassez de oxigênio e outros insumos médicos se multiplicam.

Manaus registrou em fevereiro uma média semanal de 110 mortes diárias, quase o triplo da primeira onda. “Não foi só o sistema de saúde que entrou em colapso. Também faltavam insumos e oxigênio. Foi algo dramático, desesperador”, disse Adele Benzaken, médica da cidade de 2,2 milhões de habitantes. “Você não tem ideia de como é ver parentes correndo para conseguir um cilindro de oxigênio. Havia brigas nos lugares onde se vendia”, contou.

Cepa brasileira

Quase 24 milhões das 600 milhões de pessoas que vivem na América Latina e no Caribe contraíram a Covid, e 753 mil morreram, de acordo com um balanço da AFP. Vários países, incluindo Uruguai, Venezuela e Peru, atribuíram oficialmente a forte escalada de infecções à ferocidade da cepa P.1.

O ministro da Saúde do Peru, Óscar Ugarte, disse na quarta-feira (24) que um estudo baseado em “uma amostragem em toda Lima” mostrou que 40% das infecções são causadas por ela. Com 2,8 mil quilômetros de fronteira com o Brasil, o Peru identificou essa cepa pela primeira vez em janeiro, na região amazônica de Loreto.

Quanto ao Uruguai, até recentemente elogiado por conter a epidemia sem recorrer à quarentena, agora enfrenta “uma situação complexa” que pressiona seu sistema de saúde, admitiu seu presidente, Luis Lacalle Pou. Os novos casos de Covid atingiram esta semana uma alta diária de 2.682, e a taxa de positividade ficou em 17,89% na quarta-feira, um dos maiores picos desde março de 2020.

Apesar do avanço explosivo e do clamor dos sindicatos médicos, Lacalle resiste em confinar a população “por uma questão de princípio”, mas adotou novas medidas de restrição, reduzindo algumas horas de expediente, suspendendo a frequência presencial escolar e shows e fechando escritórios públicos.

Confinamento total

As campanhas de imunização, que avançam em velocidades diferentes na região, ainda não trouxeram alívio. O Chile vive a experiência agridoce de liderar a vacinação – junto com Israel – e, ao mesmo tempo, sofrer uma retomada brutal da epidemia, que atingiu um novo máximo quando ultrapassou 7 mil infecções diárias. “São fenômenos que ocorrem em vias totalmente diferentes”, explica o presidente da Sociedade Chilena de Medicina Intensiva, Darwin Acuña.

O impacto da vacina para a população de maior risco “ainda não se viu, porque a população de risco acaba de receber a segunda dose”, disse o médico, que acredita que apenas em abril “se verá um efeito real”, por exemplo, na ocupação dos leitos de terapia intensiva.

Com quase 1 milhão de infectados e mais de 22 mil mortos, o país decretou confinamento obrigatório, a partir desta quinta-feira, para 70% de sua população. No fim de semana, quando um toque de recolher se aplica, a medida vai atingir 90% dos chilenos.

Na Venezuela, em função do aumento de casos, uma “quarentena radical” está em vigor desde segunda-feira e deve durar duas semanas, após meses de flexibilização. Ainda assim, seus números oficiais continuam baixos, em termos comparativos. Com 30 milhões de habitantes, tem 152 mil infecções e 1.511 mortes, números questionados por diversos observadores.

Também com números inéditos e sem leitos disponíveis para casos graves em hospitais públicos e privados, o Paraguai decretou o fechamento total, exceto para atividades essenciais, a partir de sábado e por uma semana, anunciou na quarta-feira o presidente Mario Abdo. Sua gestão da pandemia gerou protestos, exigindo sua renúncia.

AFP/Dom Total

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