Pai, jabuticaba voa? – Por Eduardo Fernandez, do site Congresso em Foco

 A pergunta foi feita na década de 1950 pelo Rui, um garoto traquina, morador no hoje município Varjão de Minas. Ante a resposta ele disse: “Não??? Então engoli um besouro!”

Menos da metade dos eleitores brasileiros, esperançosos e enganados, ansiavam saborear uma jabuticaba – sério combate à corrupção, criação de milhares de empregos, fim da velha política, redução da violência, entre outros – e acabaram obrigando-nos a engolir um besouro – retrocesso no combate à corrupção, acobertamento do crime de rachadinha, apoio à velha política, nada de empregos, fortalecimento das milícias e, ainda, política genocida de (não) enfrentamento da pandemia! Por certo, mais uma promessa eleitoral não cumprida.

Perdido e sem rumo, o Brasil não está andando em círculos; está numa espiral descendente. O século 21 avança, a inteligência artificial e a robótica roubam os já escassos empregos, a pandemia se agrava e a era do petróleo está acabando – não pela escassez do produto mas pelo reconhecimento crescente dos males que sua queima causa à saúde e ao ambiente. Muitos países já estabeleceram, para dentro de poucos anos, a proibição de veículos movidos por combustível fóssil, induzindo o investimento privado a alternativas. O Brasil, ofuscado pelo brilho das incertas promessas de riqueza vinda das profundezas do oceano, continua investindo na mercadoria condenada.

Para justificar a ideia de que a riqueza do pré-sal é incerta basta lembrar da exploração de Carajás, que gera grandes lucros mas pouquíssimos empregos e nada, ou quase nada, em termos de melhoria de qualidade de vida.

A ampliação dos usos da inteligência artificial e da robótica tenderá a destruir os tipos de empregos a que a pouco e mal educada população brasileira pode ter acesso, e nossos dirigentes continuam a crer num mito: o “crescimento da economia” seria a solução para o desemprego. Insistem em “reformas” cujos objetivos são “retomar a economia”, sem reconhecer, como já o fizeram vários ganhadores recentes do prêmio Nobel de economia, que na realidade não se sabe como promover o rápido crescimento. A “receita” tradicional falha com mais frequência que obtém êxito. Mudanças de orientação do FMI, do Banco Mundial e da OCDE atestam a necessária busca de outros caminhos.

Nessa busca, quase todos os membros da ONU acordaram, em 2015, trilhar um novo rumo balizado por metas de melhoria de qualidade de vida a serem alcançadas até 2030: os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Alguns deles são: erradicar a pobreza absoluta e a fome; garantir o acesso à saúde e educação de qualidade; igualdade de gênero; energia limpa; saneamento. Cada um dos objetivos foi detalhado em metas claras e quantificadas. O Brasil poderia tomá-los como um Norte para se orientar, para sair dessa espiral descendente. Mas, embora signatário, em nosso país o tema saiu completamente da agenda. Esta, infelizmente, se reduz a escolher entre nomes, que tenderão a fazer promessas igualmente incertas.

Lutar para realizar as reformas necessárias para alcançar aqueles 17 objetivos ainda em 2030 (apesar do tempo já perdido) poderia – deveria? – ser uma pauta a unir aqueles que preferem saborear uma jabuticaba a um besouro.

  • Eduardo Fernandez
    Eduardo Fernandez Silva. Mestre em Economia, ex-professor da UFMG, da FGV-BSB, da UCB e do IESB. Foi técnico da Fundação João Pinheiro e secretário adjunto do Trabalho e Ação Social e de Assuntos Metropolitanos, em Minas Gerais. Primeiro diretor-geral do Sest-Senat, é autor de diversas publicações e consultor.

Via Congresso em Foco

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