Vacinas de vento e vacinas de soro: o retrato da desonestidade – Por João Figueiredo

Muitos vídeos têm circulado pelas redes sociais mostrando funcionários da área da saúde praticando a falsa aplicação de vacinas. São casos em que a seringa contém apenas ar com o recuo do êmbolo e o ar é injetado, outros com a seringa fechada e o profissional faz apenas um leve recuo enquanto simula aplicar a vacina e casos em que o profissional só insere a agulha no braço do paciente e a retira em seguida sem qualquer movimento de aplicação. Há também denúncias de que houve casos em que a seringa conteria soro fisiológico no lugar da vacina. Isso nos leva a pensar sobre os casos que não houve registro de imagens, que não devem ser poucos.
Defensores do governo federal, que seguem a cartilha de tentar minimizar os efeitos da doença, defendem o fim das medidas restritivas de contato social e rejeitam as conclusões científicas sobre a pandemia (são os negacionistas), falam de uma conspiração orquestrada tanto para provocar mais mortes, bem como para falsificar dados sobre a doença e acusar o presidente de má gestão das medidas de contenção da doença no país. Criticam o foco da mídia nas mortes pela Covid sem atenção para as mortes por outros motivos. Costumam dizer que os lockdowns decretados pelos governadores e prefeitos têm a finalidade tão-somente de obter recursos do governo federal que seriam gastos em outras questões e/ou desviados para fins políticos e pessoais. Assim, os governos estaduais e municipais estariam usando os profissionais da saúde para simularem vacinas com o intuito de gerar uma falsa tranquilidade à população, fazendo-a se sentir mais segura e, ao mesmo tempo, estariam provocando, deliberadamente, a morte de pessoas para justificar a necessidade de receberem mais recursos do governo federal referentes ao combate à pandemia.
Que tem ocorrido falsa vacinação em várias partes do país, é um fato. Não há como negar. Contudo, a teoria de conspiração, de união de governadores e prefeitos, para essa prática não passa de um delírio, ou simplesmente de uma forma de manipulação da população. Não há como se pensar em ações criminosas envolvendo centenas de funcionários da saúde, como parte de um complô político por todo o país, sem que apareça alguém do meio para denunciar a prática criminosa às autoridades competentes. Não é possível existir uma conivência genérica, irrestrita, entre todos os funcionários da saúde. Acreditamos que tais ações são atitudes individuais de funcionários desonestos com o objetivo de se apropriar das doses de vacinas omitidas, porque se a aplicação de falsas vacinas é registrada como sendo vacinas verdadeiras, implica na sobra de doses de vacinas verdadeiras: essa sobra poderia estar sendo desviada para parentes desses funcionários desonestos ou para venda clandestina do produto.
Infelizmente a famosa frase “O Brasil não é um país sério”, parece tornar-se cada vez mais real. O que estamos vivenciando com a politização da pandemia mostra isso. A frase foi cunhada na década de 1960, atribuída ao general Charles De Gaulle, ex-presidente da França, dita em francês: “Le Brésil n’est pas un pays sérieux”, em relação a supostas mentiras do então governo brasileiro, com apoio da imprensa local, no episódio da “Guerra da Lagosta”; em 1979 o ex-embaixador brasileiro na França, Carlos Alves de Souza, no seu livro “Um embaixador em tempos de crise”, assumiu a autoria da frase – embora haja, ainda hoje, quem questione o relato de Souza e reafirme ser De Gaulle o autor. O fato é que a frase reflete uma verdade. A grande maioria dos brasileiros é composta de gente desonesta, insensível, egoísta, conforme se vê no enfrentamento da pandemia: a crise nacional revela isso; ressalte-se, dentre outras práticas sórdidas, a difusão de inúmeros Fake News relacionados a vacinas, restrições sociais, tratamento precoce, etc., com objetivos de marketing político.
Não ser sério é ser desonesto. Há, porém, na nossa cultura, uma visão fragmentada do que é desonestidade, como se fosse possível ser desonesto para determinadas ações e para outras não. Não se costuma ver a desonestidade como resultante de um desvio de caráter: a mentira é a base de toda atitude desonesta, é o motor do mau caráter; quem mente é capaz de praticar qualquer ato incorreto, depende apenas de oportunidade para praticá-lo com a certeza da impunidade.
Apoiadores do atual governo costumam admitir que o chefe da nação mente, que é capaz de enganar com um discurso mentiroso, mas buscam uma compensação para isso afirmando que ele não é corrupto – uma contradição que cometem sem o perceber. Se alguém é mentiroso, enganador, manipulador, logo, é desonesto; se é desonesto, é capaz de cometer qualquer ato incorreto, mesmo que ainda não o tenha praticado. Depende apenas, como foi dito, de uma oportunidade “segura” para tal.
Injetar e/ou contribuir para a injeção de falsas vacinas, especialmente em tempo de pandemia, deveria ser considerado crime hediondo, no mesmo nível de Terrorismo ou Homicídio Qualificado pela premeditação (tentado ou consumado), com a aplicação rigorosa da lei penal. Seria o esperado para um país sério, mas, por enquanto, continuamos fazendo jus à famosa frase acima citada.
* João Figueiredo é jornalista e escritor

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