O choro de Neymar foi mais fake que a invoice da Covaxin – Por Henrique Rodrigues

Tudo virou um grande engodo, um teatro patriótico falso e ridículo para endossar os delírios do pilantra que tomou o Brasil de refém –

O bolsonarismo, como eficiente desgraça que representa, conseguiu tirar do brasileiro até o hábito de torcer e assistir à seleção. A tarefa agora é privativa das hostes idiotizadas que urram suas saudações fascizantes em homenagem ao maior canalha já parido nessa Terra de Vera Cruz.

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Os jogadores também não colaboram na tarefa de se desvincularem do regime político da morte. Neymar, ao contrário, gosta mesmo é de mostrar seu alinhamento com o quadrúpede genocida.

Tudo que a onda de boçalidade e transe coletivo toca vira merda. Tenho medo da feijoada tornar-se símbolo dessa milícia imunda, porque aí teremos que dar adeus à sagrada tradição dos sábados e substitui-la por alguma outra iguaria mais desconhecida.

Vejam só como são as coisas. Passei boa parte da minha vida andando de moto por todo o Brasil e somo mais de 23 mil quilômetros só de sertão. Dia desses me peguei olhando feio para a companheira de aço. Percebi que era involuntário. O princípio de asco repentino e incontrolável já é um resultado das motocadas da morte que o facínora promove, emulando um de seus padrinhos ideológicos, o tirano italiano Benito Mussolini.

Até a bandeira da pátria na qual nascemos, nosso pendão nacional, provoca-nos agora calafrios. Ver esses sem-vergonhas enrolados nela é de virar o bucho.

Ontem, na final da Copa América entre Brasil e Argentina, no Maracanã, tivemos um exemplo prático de como essa lógica trágica e triste, mas real, funciona.

Audiência quase zero. A imensa maioria dos brasileiros sequer assistiu ao embate, numa competição continental que foi marcada mesmo pelas contaminações de Covid-19, em número muito maior que o de gols.

A transmissão foi feita pelo SBT, um canal de tevê decadente, cafona e tosco em todos os aspectos, cujo dono, um senhor quase centenário que apoiou a Ditadura Militar, resolveu servir de porta-voz às loucuras do símio do Planalto.

E eis que nesse cenário sem graça e insípido surge uma final entre os dois grandes rivais das Américas. As nações de Pelé e Maradona, que juntas somam sete títulos de Copa do Mundo.

Só que isso não é o suficiente para trazer emoção, senso de unidade ou para fazer emanar uma energia em prol do Brasil. Não no país em que seu líder autoritário e de contornos psicopáticos sequestrou símbolos nacionais populares para servir aos seus propósitos assassinos.

O choro de Neymar ao final da partida, milimetricamente projetado e calculado para servir ao regime como imagem do patriota sofredor, foi o ponto máximo dessa encenação patética. Ajoelhou-se com as mãos em oração, aos prantos, do jeito que o fundamentalismo evangélico bolsonarista ama.

Chorinho forçado, sem lágrimas, escondendo a cara na barra da camisa, como um criança manipuladora tentando comover os pais para ganhar um brinquedo.

Aquele choro de Neymar ontem foi mais fake que a invoice da Covaxin apresentada pelo Onyx Lorenzoni.

Mas o bolsonarismo é isso. É esse incessante espalhar de safadezas, essa distribuição gratuita do ranço.

Um dia vai passar. Até esse dia chegar, sigamos assim: eles lá e a gente aqui.

  • Henrique Rodrigues é jornalista e professor de Literatura Brasileira

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