Justiça suspende exposição sobre Democracia a pedido de bolsonarista em MG

Painéis fotográficos estavam colocados na fachada de um centro cultural e foram alvo da fúria de vereador extremista por conterem uma imagem de FHC passando a faixa presidencial a Lula

A paranoia dos seguidores de Jair Bolsonaro, que veem em tudo questões ideológicas e ações políticas contra seu líder, parece não ter limites. Desta vez, uma decisão insólita de um magistrado de Juiz de Fora, na Zona da Mata de Minas Gerais, deu ganho de causa a uma alegação absurda proferida por um vereador do município.

Na fachada do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, imagens fotográficas dos períodos democráticos vividos pelo Brasil no último século estampam uma exposição cujo nome é “Democracia em Disputa”.

A seleção das fotografias foi feita por historiadores e a mostra é coordenada pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), vinculada à Prefeitura, em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Democracia e Democratização da Comunicação (INCT Democracia).

Uma das tantas fotografias mostra um momento histórico do Brasil. A passagem da faixa presidencial das mãos de Fernando Henrique Cardoso para Luiz Inácio Lula da Silva, em 1° de janeiro de 2003.

Foi a única vez, desde a 2ª Guerra Mundial, que um presidente democraticamente eleito e que cumpriu todo o seu mandato passou a faixa para um presidente também democraticamente eleito e que igualmente cumpriu todo o seu mandato.

Só que isso foi motivo suficiente para que o vereador bolsonarista Sargento Mello Casal (PTB) considerasse a exposição um “engenho de publicidade”, que “avilta o patrimônio público”, e recorresse à Justiça para interromper a atividade histórico-artística.

O mais absurdo no episódio foi o juiz Alexandre do Valle Thomaz, da 1ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias Municipais da Comarca de Juiz de Fora, deferir decisão liminar favorável à interpretação grotesca do vereador extremista, o que resultou no recolhimento dos painéis que ilustravam a frontaria do centro cultural.

Indignado, o INCT Democracia divulgou uma nota afirmando que as imagens são exclusivamente de momentos históricos importantes para o Brasil, que “são cruciais para a construção de nossas instituições políticas”.

O coordenador do INCT Democracia, Leonardo Avritzer, avaliou que o gesto do vereador e a decisão judicial são apenas elementos que mostram a corrosão da liberdade de expressão e da democracia no Brasil atual, reafirmando o absurdo da acusação de “influência ideológica” do conteúdo.

“Fomos acusados de ser partidários por ter uma foto na exposição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) passando a faixa presidencial para o ex-presidente Lula (2003-2011)”, disse.

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