Futebol com elogios, sem comemorações – Por Fernando Calazans

Fora de campo Roger Machado, demitido do Fluminense, é ativista incansável na luta contra o racismo

Dois técnicos de futebol que atuam no Brasil chamaram a minha atenção nas últimas semanas, um no mau sentido, outro no bom. E, vale a pena adiantar, sem relação com o desempenho de seus times nas competições. O primeiro é o português Abel Ferreira, do Palmeiras, que, a julgar por seu comportamento à beira do campo, não tem nada a ver com a educação que sempre notei dos seus conterrâneos em duas viagens a Lisboa. É o modelo de comportamento de que não precisamos no futebol brasileiro, porque já temos por aqui, em matéria de técnicos ‒ chamados de “professores” ‒, alguns dos piores exemplos de falta de educação e de civilidade à beira do campo. São gritos, reclamações e palavrões o tempo todo, sobretudo contra os árbitros, em tentativa de pressão. É o tempo todo esbravejando, o que acaba se tornando também uma incitação à briga de jogadores.

É estranho que o comportamento antiesportivo de Abel Ferreira não tenha uma repercussão maior na imprensa, porque os números são constrangedores: em menos de um ano no Brasil, o treinador já levou 14 cartões amarelos e 3 vermelhos. Não joga de zagueiro, nem de meio-campo, nem de atacante. Joga fora de campo, ali na beira, sem disputar a bola com ninguém. E soma 17 cartões apresentados contra ele pelos árbitros, repito, em menos de um ano.

A falta de repercussão na mídia, acredito eu, deve-se ao bom trabalho que está consolidando no Palmeiras. É como a gente já sabe por aqui: não se pode criticar técnico ou jogador que está vencendo. Técnico, então, nem se fala. Infelizmente. Fica então o péssimo exemplo ao futebol brasileiro.

Canela Preta

Em relação ao comportamento dos times, Roger teria ao menos uma desculpa. Comparado ao Palmeiras de Abel Ferreira, o elenco do Fluminense é insignificante. Abel é que não tem desculpa: com os bons resultados que está obtendo, suas atitudes durante os jogos são injustificáveis, grosseiras e nocivas ao futebol brasileiro (SE Palmeiras e EC Bahia/Divulgação)
O outro treinador, o do bom exemplo, é o oposto de Abel até em outros sentidos. Roger Machado, que comandou o Fluminense até quinta-feira (19), quando o time caiu nas quartas de final da Libertadores ao empatar por 1 a 1 com o Barcelona do Equador. Ao contrário do Palmeiras de Abel, seu time atual não vai nada bem das pernas, mas fora de campo Roger é um ativista incansável na luta contra o racismo no Brasil. Seu maior campo de batalha é a publicação de livros de autores negros e indígenas. Conforme li na reportagem de Marcello Neves, n’O Globo, já são 12 livros do selo Diálogos da Diáspora publicados com apoio do projeto social Canela Preta, do qual Roger é um dos líderes.

Este, sim, é o melhor exemplo para o futebol brasileiro, cujos técnicos e jogadores se mostram praticamente alienados em relação aos movimentos sociais, raciais e políticos. Dizem até, por aqui, que futebol e política não podem se misturar. Seria isso a chamada liberdade de expressão?

Em relação ao comportamento dos times dentro de campo, Roger teria ao menos uma desculpa. Comparado ao Palmeiras de Abel Ferreira, por exemplo, o elenco do Fluminense é insignificante. Abel é que não tem desculpa alguma: com os bons resultados que está obtendo, suas atitudes durante os jogos são absolutamente injustificáveis, grosseiras e nocivas ao futebol brasileiro. Ele que fique com seus cartões amarelos e vermelhos.

Futebol brasileiro, mais do que três clubes
Existe um conceito que cada vez mais se consolida por aqui: Atlético Mineiro, Flamengo e Palmeiras – não por coincidência os classificados para as semifinais da Libertadores – são os times no patamar mais alto do nosso futebol. O resto… bem… eu diria que o resto é o resto.

Pelo que estão jogando, os três merecem sim os elogios, sem dúvida alguma, mas esses elogios têm que ser controlados, para não prejudicarem a consciência que devemos ter em relação ao nosso futebol.

Porque já houve tempo em que o futebol brasileiro foi mais do que três clubes. Bem mais do que isso. Tínhamos em posição perene na elite quatro clubes de São Paulo, quatro do Rio, dois de Minas, dois do Rio Grande do Sul. Eram, portanto, doze. Repito em números: 12.

Hoje, são três. Vejam bem como anda o resto. Vejam as posições de Internacional, Santos, Corinthians, São Paulo, Fluminense e Grêmio na Série A do Campeonato Brasileiro. Vejam as posições de Botafogo, Vasco e Cruzeiro ‒ estes na Série B, como chamamos a Segunda Divisão.

No Rio, o cenário é desalentador. Fluminense, Vasco e Botafogo, três grandes do futebol brasileiro que já encheram de craques a nossa Seleção, têm hoje elencos que desmancham essa História. Imagino como é difícil para um jovem torcedor imaginar que o Botafogo que ele vê hoje já foi o time de Garrincha, Didi, Nílton Santos, Zagallo, Gérson, Jairzinho, Paulo Cézar Caju, Quarentinha, Amarildo, Roberto, Mauro Galvão, Marinho Chagas, Túlio, Sebastião Leônidas, Heleno de Freitas, Jefferson… e não há memória que possa guardar todos os grandes nomes que passaram por lá.

Hoje, temos três bons times no Brasil. Há motivos para elogios, sim. Mas não para comemorações.

Via Ultrajano

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