O agro não produz comida, nem emprego ou riqueza. E mal paga imposto

Propaganda enganosa – Dados analisados confirmam ainda que o agronegócio é agressivo ao meio ambiente, derrubando florestas, conaminando rios com agrotóxicos e está por trás de conflitos agrários

Na propaganda, o agro é pop, tech e tudo. Na realidade, porém, é bem diferente. Não produz alimento, empregos, riquezas para o país e praticamente nem paga impostos. É o que constata o estudo O Agro não é Tech, o Agro não é Pop e Muito Menos Tudo, de autoria dos geógrafos Marco Antonio Mitidiero Junior, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE), e Yamila Goldfarb, vice-presidenta da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA). O financiamento é da Fundação Friedrich Ebert Stiftung, a mais antiga da Alemanha, que patrocina em diversos países trabalhos pautados na defesa da liberdade, justiça e solidariedade.

Ao analisar dados fiscais de produção, exportação, geração de empregos e de divisas, entre outros, e colocar tudo na ponta do lápis, os pesquisadores constataram que o agro usa diversas estratégias para construir um consenso entre a sociedade brasileira de que é o setor mais dinâmico, moderno e importante da economia nacional. Porém, a análise dos números fazem concluir que, na verdade, trata-se de um setor que recebe muito e contribui pouco com o país.

Para começar, há a falácia de que o agro é o “celeiro do mundo”. Mas a atividade não alimenta o mundo, muito menos os brasileiros. Por aqui, os alimentos são os mais afetados pela inflação – com aumento de preços três vezes maiores que os demais. Atualmente, a insegurança alimentar afeta, em maior ou menor grau, cerca de metade da população, ao mesmo tempo em que país bate recordes de produção agrícola e pecuária. O problema, porém, é que a carne produzida, em sua maioria, segue para exportação. Por sua vez, a produção agrícola, em sua ampla maioria de soja e milho, também é exportada, majoritariamente para a produção de ração animal.
Agro na balança

Na verdade, o plantio de alimentos propriamente dito vem quase que totalmente das pequenas propriedades rurais, onde famílias de pequenos agricultores produzem arroz, feijão, verduras, legumes, frutas e ovos consumo da população. Em grande parte dos casos, são famílias, comunidades quilombolas e indígenas que, apesar do bem que praticam, vivem na mira de latifundiários, cada vez mais desassistidos e excluídos de políticas governamentais.

A alegada modernidade, ao lado do pretenso dinamismo do setor, que estariam por trás da geração de empregos e de riquezas para o país também não se sustenta. A análise dos pesquisadores mostra que o agro quase nada contribui para a arrecadação de impostos, bem como com a balança comercial. “O Brasil tem status absolutamente subalterno na economia mundial. O superávit da balança comercial, propalado pelo agro, não significa desenvolvimento econômico. O Brasil exporta commodities, como soja e milho, sem valor agregado. Continuamos com a economia colonial, baseada na exportação de produtos primários e importação de industrializados”, disse Yamila Goldfarb à RBA.

O PIB do agro

Para facilitar o entendimento do que isso significa, a Organização Mundial do Comércio (OMC) informa que a China faturou 40 bilhões de dólares, de março a setembro de 2020, apenas com a venda ao exterior de máscaras para proteção contra a covid-19 . Nesse mesmo período, a brasileira Confederação Nacional da Agricultura (CNA) anunciou que o país exportou 23,8 bilhões de dólares em soja, outros 4,2 bilhões de dólares em carne bovina in natura, 3,5 bilhões de dólares em açúcar de cana e outros 3,5 bilhões de dólares em farelo de soja.

Outra questão apontada por Yamila é que a contribuição do agro ao PIB brasileiro é diferente daquela propalada pelos editores de economia dos jornais brasileiros, alinhados ao setor. Segundo o IBGE, a agropecuária contribui, em média, com cerca de 5,4% do PIB, enquanto o setor industrial com 25,5% e o de serviços com 52,4%.

Porém, o agro criou sua própria metodologia de medição, o PIB do Agro. Trata-se de uma espécie de maquiagem, que leva em conta outras variáveis e supervaloriza os resultados.
O agro e a riqueza do Brasil

O estudo desconstroi também o mito de que o agro produz a “riqueza do Brasil”. O setor recebe a maior parte de recursos públicos em créditos, incentivos, isenções tributárias e, sobretudo, perdões de dívidas.

De acordo com a própria Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), se as exportações passassem a ser tributadas, o impacto sobre a atividade agropecuária seria a redução do faturamento na ordem de R$ 47,8 bilhões. Só uma auditoria independente poderia mostrar o tamanho das facilidades concedidas pelo poder público ao agronegócio brasileiro. “A sociedade paga um preço muito alto e não percebe. Não percebe todo esse ônus, os conflitos agrários desencadeados e o desmatamento para mais pastos em nome de interesses de um pequeno grupo”, disse Yamila.

Clique aqui e confira a íntegra do estudo

Via RBA

Deixe um comentário