Morre em Curitiba o consagrado poeta Norte Mineiro Geraldo Magela

Geraldo Magela Cardoso foi um homem impar, quer pela sua intelectualidade, ou quer pelo seu lado humano em benefício do próximo (Foto: Divulgação)

* Por Juca Brandão

Morreu na manhã do dia 29 de março de 2022, em Curitiba-PR-, o grande poeta de nossa terra e também de Guaraciama, o premiadíssimo Geraldo Magela, aos 65 anos, que era filho da saudosa poetisa Maria Lisbela Cardoso. Ele deixa vivos 5 irmãos e duas irmãs. Também o pai, José Gonçalves Cardoso Filho, ainda bem saudável e que completou 80 anos no último dia de São José, ou seja, em 19 de março. Quando o Magela nasceu em Guaraciama (Taióba e Santa Clara) a comunidade era distrito de Bocaiuva. Por isso, com bastante orgulho para nós bocaiuvenses, reivindicamos o referido compatrício do já saudoso amigo e confrade.
Era um autêntico mineiro sertanejo e que viveu na bela e acolhedora capital Curitiba, desde 1971. Aos 14 anos de idade ele fora morar com o tio, que chegara antes naquelas atraentes paragens sulistas. Na imensa e acolhedora cidade ele trabalhou em armazém, nos Correios como carteiro e depois, em 1975 entrou nas Forças Armadas, na Aeronáutica, onde ficou até o ano de 1979.
Geraldo Magela Cardoso foi um homem impar, quer pela sua intelectualidade, ou quer pelo seu lado humano em benefício do próximo. As tantas narrativas póstumas, todas elas expressadas logo após a sua lamentável morte, sustentam as diversas afirmativas e os bons conceitos relativos à sua a pessoa. O fato é que ele deixa vasto legado e valioso espólio cultural. Tanto como produtor cultural, (trabalhou 30 anos na Fundação Cultural de Curitiba) assim como escritor de 15 apreciadas obras poéticas, cujo primeiro livro, “Bendita Boca Maldita” foi lançado com sucesso em 1982.

“Como a morte nos surpreende.
Num piscar de olhos, ela surge.
Inesperadamente e contundente, ela nos confunde em lágrimas
São choros profundos vindos do âmago d’alma.
Perder um ente querido é inexplicável. É dureza confundida com a amargura da despedida.
Às vezes pensamos que não tem muito sentido a vida por aqui.
Mas tem sim.
Porque é bom viver.
Teríamos que permanecer mais nesta terra, pois são muitos curtos os dias e as noites”

Na manhã do dia 29 de março de 2022 ficamos logo sabendo da infausta notícia, em razão da morte do querido poeta Magela. E, logo depois, a confirmação pelo áudio da consagrada poeta Angel Popovitz. Ela estava inconsolável, pela perda de seu grande amigo poeta.
É ela quem contou:
– “Ontem, 28/03 ou seja, na segunda feira, eu liguei para ele para saber de um aniversário de uma amiga nossa, poeta, que fizera 90 anos. O expliquei a razão de minha ausência, por ter viajado no último final de semana. No telefonema, ele disse que a Amanda, estava viajando e que ele estava dando uma saída. E que naquele dia não iria tomar o seu remédio! – Hoje (segunda feira), eu vou tomar uma aguardente e irei deixar o apartamento todo aberto, pois se não acordar amanhã (terça-feira) é por que eu morri, agourou!
Como nos narrou emocionadamente a Angel, ela o advertiu de não brincar assim, porém imaginou que era folia ou zoeira, tão ao estilo dele…
E, não foram às folias e às zoeiras dele, para tristezas, de seus amigos, amigas, os tantos consagrados eruditos de Curitiba e de todo o Brasil. E nós, também, os seus conterrâneos! Na verdade, ele não se acordou mesmo! Mais tarde veio a confirmação de que ele fora vítima de um infarto fulminante!
À memória do poeta e intelectual de renome e do quilate do Magela incorporamos, nas nossas homenagens e nos nossos tributos, o belo soneto do festejado Fernando Py, (Rio de Janeiro) denominado de Soneto do Amor:

“Amor, como compreendo agora, é mais
renúncia que desejo. Outrora hostil,
agressivo, hoje súplica , murmúrio
íntimo, cinzas em silêncio, amor,
à morte assemelhando-se besouro
em agonia, dor da perda, o sono
estraçalhado, renunciar, renunciar
sempre, sem espera, ao corpo amado.

A vida me consente essa amargura
é preciso vivê-la sem demora,
abrir os olhos, aceitar a sombra,
meditar sem rancor a decepção –
instante em que a mulher se distancia
e a voz do telefone ri tranquila
anunciando a partida: outros braços,
agora, amor, mesclado de impotência
e irrisão, lágrimas que não se mostram.

Toda renúncia compõe jogo amargo
de desespero e morte. Renunciar,
ainda que de joelhos, deitado, o corpo
ansiando pelo teu amor, se fira,
e o coração, tumulto, empalideça
e nada reste enfim que a vida mesma,
percorrida com e indiferença.

Assim, amor te compreende agora:
– devoção malquerida a toda hora.”

Há alguns anos, o Geraldo Magela veio a Minas e esteve em nossa região visitando aos seus parentes, amigos e conterrâneos. Esteve também em Bocaiuva me honrando com uma rápida visita. Tivemos uma conversa agradável e proveitosa. E, na oportunidade, fui premiado por ele com livros e revistas.
Antes do nosso abraço de despedidas eu o fiz uma brincadeira, pelo fato de o poeta se referir a mim, honrosamente, como confrade, embora eu não pertencesse à confraria dos que sabem rimar. O perguntei se não seria como a letra de uma música: “Ninguém não é poeta/só por não saber rimar”? Antes da resposta, ele sorriu se despedindo:
– É isto mesmo, c o n f r a d e !!!

* José Henrique Brandão (Juca Brandão) é jornalista, advogado e historiador da cidade de Bocaiuva (MG), e colaborador do Em Cima da Notícia

1 Comentário

  • Geraldo Magela, esse poeta mineiro nos deixa um legado de obras poéticas que tanto encantou a todos com sua visão de um homem que soube viver o doce e o amargo da vida.

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