Minas Gerais confirma mais um caso de raiva humana

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) confirmou na tarde de ontem que investiga dois casos suspeitos de raiva humana, doença altamente letal, no estado. Os casos são de dois adolescentes indígenas, da etnia maxacali, no município de Bertópolis, no Vale do Rio Doce, que sofreram mordeduras de morcego hematófago, transmissor da doença: um garoto, de 12 anos, que morreu na segunda-feira, em Teófilo Otoni (mesma região); e uma menina, também de 12 anos, que, na madrugada de ontem, deu entrada no Hospital Infantil Joao Paulo II, em Belo Horizonte. De acordo com a última informação divulgada pela SES, ela permecia em isolamento e seu quadro era estável.

Amostras de material dos dois pacientes foram coletas e serão encaminhadas para análise em laboratório. Embora lembre que é “importante esclarecer que ambos os casos se encontram em investigação, ou seja, ainda não estão confirmados por exames laboratoriais”, a Secretaria de Saúde acendeu o sinal de alerta. A pasta informou que encaminhou notificação da morte do adolescente com suspeita de raiva humana ao Ministério da Saúde. e anunciou um série de medidas preventivas contra a transmissão da raiva humana no estado.

Entre as ações estão: investigação na localidade de ocorrência da exposição com busca ativa de pessoas que tiveram contato com o caso suspeito e encaminhamento para atendimento médico profilático, contato com o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) para ações cabíveis; vacinação antirrábica de cães e gatos da localidade; bloqueio focal e divulgação do caso na região com objetivo de alertar as pessoas sobre as formas de transmissão e prevenção da raiva.

A gravidade da raiva humana justifica o reforço das medidas de prevenção mesmo com os casos sendo considerados ainda suspeito. Conforme informa o Ministério da Saúde, a raiva é uma doença infecciosa viral aguda grave (…), que se caracteriza-se como “uma encefalite progressiva e aguda com letalidade de aproximadamente 100%” (confira arte).

VACINA

De acordo com registro da literatura médica, ao longo da história de mais de 4 mil anos do primeiro registro da moléstia, foram raros os casos de pacientes contaminados pela raiva humana que sobreviveram. A forma mais eficaz de prevenção contra a doença é vacina antirrábica, descoberta pelo cientista francês Louis Pasteur em 1885.

A SES destaca a importância de se procurar a unidade de saúde mais próxima para avaliação da necessidade de adoção de medidas profiláticas (administração de vacina e soro) em caso de qualquer incidente com mamíferos silvestres, sobretudo morcegos, bem como com cães e gatos.
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A vacina pode ser aplicada pré ou pós-exposição ao vírus que provoca a doença, transmitido ao homem por mamíferos, entre eles cães e gatos, que devem ser imunizados a partir dos três meses de idade. A profilaxia é essencial para evitar que a infecção se instale em humanos e deve ser feita rapidamente. Pessoas não imunizadas que tenham sido atacadas por morcegos ou tido outros animais com suspeita da doença devem ser administradas cinco doses da vacina, uma no dia da mordida, e as seguintes ao 3º, 7º,14º e 30º dias. Além disso, caso a lesão seja grave, devem ser administradas imunoglobulinas antirrábicas juntamente com a 1º dose da vacina.

Em Minas Gerais, conforme a SES, a última morte por raiva humana foi registrada em 2012, na região da Zona da Mata (leia memória nesta página). No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, o último caso da doença ocorreu em novembro de 2021, no município de Chapadinha (MT). Antes, houve no país dois registros da doença em 2020, em Angra dos Reis (RJ ) e Catolé da Rocha (PB); e um caso em 2019 – Gravataí (SC).

OS CASOS
O adolescente que morreu na segunda-feira em Minas chegou a ser internado na Unidade Pronto Atendimento (UPA) de Teófilo Otoni, no Vale do Rio Doce, depois ser mordido por um morcego hematófago, na aldeia Pradinho, no município de Bertópolis. De acordo com a diretora da UPA, Danielle Avelar, o menino deu entrada na unidade de pronto atendimento no domingo. Ele apresentava febre, confusão mental, agitação, vômito, sialorreia, edema e ferida no lábio superior. O quadro se agravou e evoluiu para óbito na segunda-feira.

O prefeito de Teófilo Otoni, Daniel Sucupira (PT), disse que a família do adolescente informou que ele havia sido mordido pelo morcego na área maxacali 10 dias antes, mas continuou recebendo “tratamento” apenas com os rituais indígenas, até que o caso se agravou e ele foi encaminhado para o atendimento médico hospitalar. Antes de ser encaminhado para a UPA, a vítima recebeu atendimento em um hospital de Machacalis (na mesma região, a 174 quilômetros de Teófilo Otoni).

Na terça-feira à noite, uma menina de 12 anos da aldeia maxacali, que também teria sido mordida por um morcego, apresentou sintomas como cefaleia, febre e sonolência. O quadro se agravou e ela foi encaminhada em uma ambulância, sendo acompanhada por um médico, até a UPA de Teófilo Otoni.

Porém, a garota nem chegou a dar entrada na UPA. Foi conseguida uma vaga para a menina indígena no Hospital Infantil João Paulo II, da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) em Belo Horizonte, onde ela segue internada.

Conforme apurou a reportagem, a paciente foi colocada em um leito em isolamento, seguindo os protocolos clínicos, com as equipes médicas e demais profissionais de saúde usando a paramentação e adotando a higienização e todos os cuidados preventivos recomendados.

Memória

Óbito há 10 anos
O último caso de raiva humana registrado em Minas Gerais foi de um produtor rural, de 32 anos, que morreu em 28 de junho de 2012, depois de contrair a doença em Rio Casca, na Zona da Mata. Antes, tinha sido registrado um caso da doença no estado em 2005, no município de Prados, Região Central. O produtor rural de Rio Casca foi atacado por um morcego. Mas o homem procurou atendimento médico somente 49 dias depois de ter sido mordido, quando começou a sentir os sintomas. Ele chegou ao hospital com um corte na mão e suspeita de tétano. Com o agravamento dos sintomas, o paciente procurou novo atendimento Hospital Arnaldo Gavazza, em Ponte Nova, na Zona da Mata. Somente nessa ocasião, a esposa dele relatou o ataque pelo morcego. A vítima foi transferida para o Hospital Eduardo de Menezes, em Belo Horizonte, onde passou por tratamento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas não resistiu e morreu. Análises da Fundação Ezequiel Dias (Funed) e Instituto Pasteur (SP) comprovaram a contaminação por raiva humana. Os exames identificaram o vírus de morcego hematófago, causador da doença.

 

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