Produtor com deficiência visual empreende na apicultura – Por Ricardo Guimarães*

Após algumas tentativas em outros ramos da produção rural na pequena propriedade da família na comunidade de Traçadal, em Januária, Nilson César dos Santos Macedo se encontrou na apicultura. Além da produção de méis e seus derivados, ele empreendeu na fabricação e venda de material de trabalho no apiário para outros apicultores da região, como roupas e materiais para formação das colmeias.

“Por aqui sempre foi difícil conseguir caixas próprias, roupas e outros. Comecei a produzir meu próprio material de trabalho. Um tempo depois, alguns colegas começaram a pedir também e comecei a comercializar na região. A apicultura é um ramo em que aprendi muita coisa, virou o carro-chefe. A minha vida agora é a apicultura, que considero muito além de um trabalho, pois ajuda a ocupar bem a cabeça”, explicou Nilson.

Porém, para além do tino empreendedor, a história de Nilson reserva ainda maior motivação a todos que convivem com o apicultor. Em 2005 o produtor perdeu totalmente a visão do olho direito e enxerga com dificuldades com o olho esquerdo, mas isso não impede que ele siga trabalhando e confiando. “Tive a perda total em um dos olhos e o outro tenho bem pouca visão por uma doença de nascença. Precisei me adaptar com o que tinha. Faço todas as coisas do dia a dia de trabalho na propriedade. Eu sou muito teimoso, gosto de fazer minhas coisas – só no apiário que não vou só”, brincou o produtor.

Equipamentos

O material segue toda uma técnica apurada e é feito com bastante cuidado e zelo. Nilson vem se dedicando à apicultura nos últimos seis anos, sendo hoje também parte do grupo da assistência técnica e gerencial do Programa AgroNordeste, do Sistema FAEMG, na região. A técnica de campo que acompanha a propriedade, Jozelia Aparecida Ribeiro, foi uma das incentivadoras e ajudou Nilson a adaptar muitas peças usadas no dia a dia do apiário. A especialista destaca que o trabalho tem sido oportuno não só para Nilson César, mas para outros apicultores seguirem evoluindo na atividade.

“Agora ele já está fabricando novos materiais, como o escape de abelha. Acredito que seja uma boa iniciativa, pois na região não tem outro fabricante e são materiais que facilitam os manejos com os enxames. Nesse caso, quem não tem o escape de abelha tem que usar uma espuma para tampar o alvado, que é a abertura da caixa para a entrada e saída das abelhas, e deve fazer esse manejo no período da noite, pois é o momento em que 95% das abelhas estão dentro da caixa. Já com o auxílio do escape, o transporte pode ser feito durante o dia por que as abelhas entram e não conseguem sair, além de evitar a mortalidade dos animais, pois o escape permite a entrada de ar”, detalhou a técnica de campo.

Também produz bem

E, se o lado empreendedor segue bons passos, a vida de produtor também tem sido alavancada. Nilson lembra que, durante muitos anos, apostou em outras culturas e cultivos, mas nada dava muito certo por causa do clima, o que reforça que a apicultura foi um grande diferencial de oportunidades. Ele tem a atividade como a principal fonte de renda.

“No começo eu não via futuro na apicultura, mas minha esposa foi contemplada com um kit de trabalho de apicultura e eu comecei timidamente a ajudá-la. Aos poucos fui me interessando e me apaixonei. A chegada do ATeG só fez crescer esse interesse, porque foi apresentado novas formas de atuar, os manejos e a organização da atividade, novidades que os técnicos foram trazendo para gente”, explicou Nilson, que hoje tem 18 colmeias em produção de mel silvestre e de aroeira. Em 2021 foram 234,5 kg de mel produzido.

A presença técnica na propriedade levou novidades também pensando na adaptação, para facilitar os ajustes de Nilson. Segundo Jozelia Aparecida, foram apresentados vários novos equipamentos para melhorar os manejos da atividade, como o incrustador de cera, que facilita a colagem da placa de cera alveolada no arame e evita que as abelhas puxem favos tortos no ninho, dificultando os manejos dentro da colmeia. “Eu apresento a ele o equipamento e ele faz as adaptações para facilitar o manuseio. Entre outras coisas, também mostrei como fazer o atrativo de enxames utilizando matéria que ele facilmente encontra nas colmeias e na sua propriedade. O atrativo de enxame tem como função atrair novos enxames para as caixas vazias e, assim, aumentar o número de colmeias povoadas”, comentou a técnica.

O trabalho no apiário tem sido tão oportuno, que Nilson não tem perdido tempo em seguir investindo. “Hoje estou melhor com a apicultura. A atividade dá prazer e bem-estar. Fiz aqui um investimento para criar uma pequena casa do mel, para também pode ajudar vizinhos que precisam extrair o produto e estarmos sempre um incentivando o outro. Parei com a construção da minha casa para investir no mel”, finalizou Nilson.

Projeto AgroNordeste

O projeto é uma iniciativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em parceria com o Sistema CNA/SENAR e a ANATER. Em Minas Gerais, o AgroNordeste é desenvolvido pelo Sistema FAEMG em parceria com os Sindicatos Rurais.

* Jornalista

 

Montes Claros, 27/07/22

Jornalista – Registro: 0017201/MG

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