Botumirim – Espinhaço, rico pela própria natureza

Espinhaço Setentrional, um dos vários sertões de Guimarães Rosa. Beleza e endemismo (Manoel Freitas)

Cenário deslumbrante é palco de programa nacional de conservação

* Por Manoel de Freitas – O Norte

É nos campos de altitudes, nas montanhas de Minas, que a biodiversidade revela toda grandeza da maior savana do mundo. Sua espinha dorsal, a Serra do Espinhaço, atravessa os vários sertões de Guimarães Rosas, numa beleza cênica adornada por espécies endêmicas que encantam e reclamam proteção. E é nesse cenário de ecossistema único, que o Ministério do Meio Ambiente implementa na atualidade o Programa Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção (Pró-Espécies), através do Projeto Estratégia Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção,  englobando outros 12 estados brasileiros.

Cuidado que a gente sertaneja agradece e, através da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), coloca seu time de pesquisadores em campo para documentar – nos campos rupestres do sertão mineiro – parte desses tesouros, muitos dos quais guardados nos 36.188 hectares do Parque Estadual de Botumirim. Desse modo, a unidade de conservação, criada pelo Instituto Estadual de Florestas em julho 2018, possibilita o avanço da pesquisa científica no momento em que empossa mês que vem seu Conselho Consultivo, ferramenta necessária para implantação do Plano de Manejo.

Na segunda quinzena de outubro, O NORTE escalou a montanha e pôde seguir as trilhas que conduziram grupo de biólogos da Unimontes, coordenados pela pesquisadora Maria das Dores Magalhães Veloso, doutora em Ciências Florestais e professora do Departamento de Biologia Geral, até a Orthophytum humile, bromélia endêmica do Espinhaço. Até então, restrita apenas aos campos rupestres das cidades vizinhas Cristália e Grão Mogol.

Entretanto, a coleta dessa planta de distribuição restrita para ser estudada no herbário onde funciona seu laboratório de Ecologia Vegetal/Biologia, só foi possível no quarto dia de campo. É que são poucos indivíduos distribuídos em uma área muito grande: a joia estava incrustada nas fendas dos paredões de “Encantado”, dentro do Parque Estadual de Botumirim. Na verdade, o achado coroou criterioso trabalho de campo iniciado dia 19 de outubro, do qual participaram  cinco pesquisadores, que no caminho encontraram ainda outros exemplares da flora do Espinhaço, como a Drosera graomogolensis, espécie de planta carnívora nativa do Estado de Minas Gerais que cresce no habitat dos campos rupestres.

Rolinha do Planalto, símbolo para a conservação do Cerrado


Missão cumprida pelos biólogos da universidade, no dia seguinte a vez de O NORTE acompanhar no Espinhaço o ambientalista Gustavo Malacco, mestre e doutor em Engenharia Florestal, que há 15 anos coordena em Januária (Extremo Norte de Minas) o Projeto Bicudo, na Reserva Particular Porto Cajueiro, que objetiva a reintrodução do Bicudo (Sporophila maximiliani) no Cerrado mineiro, ave cada vez mais rara na natureza por força do tráfico de animais silvestres e da excelência de seu canto.

Desta feita, ele que é um dos mais respeitados fotógrafos de aves do Brasil, para documentar a Rolinha do Planalto (Columbina cyanopis), em Reserva Natural criada em 2015 para proteger essa que é uma das aves mais raras do mundo. Isso, em mês no qual pesquisadores e observadores de três países europeus fizeram o mesmo, para gravar o canto e a imagem da pomba que não é encontrada em nenhuma outra parte do planeta.

É que, como a espécie reapareceu 75 anos depois de considerada extinta, passou a ser dentro do Parque Estadual de Botumirim símbolo para a conservação do espinhaço mineiro, chamando a atenção de observadores de inúmeros países para outras aves endêmicas e consideradas raras, a ponto de Botumirim ser considerada pela Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (Save) como uma das áreas importantes para conservação de aves no mundo, daí a explicação de atrair o ano inteiro observadores de várias nacionalidades, visitação internacional  superior a do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Januária, tão rico que lança ano que vem sua candidatura a Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade.

Riqueza florística a ser preservada


Com o propósito de fundamentar ainda mais o trabalho que é feito pelo Governo Federal e Organizações Não Governamentais para proteção da fauna e flora do Espinhaço Setentrional, O NORTE ouviu dois personagens importantes, sem os quais não teria sido possível desenvolver esse enredo. Nesse sentido, a reportagem procurou primeiramente a pesquisadora Maria das Dores Magalhães Veloso, doutora em Ciências Florestais e professora do Departamento de Biologia Geral, ela que é curadora do Herbário de Montes Claros, único da região, cujo acervo beneficia professores e acadêmicos da comunidade científica da Unimontes e de outras instituições de ensino das regiões Norte, Noroeste, Vales do Mucuri e Jequitinhonha, além do Centro-Oeste mineiro.

Dora Veloso explicou que “pelo percurso que fizemos em quatro dias no Espinhaço Setentrional, em pontos distintos, em busca de espécies alvo do Projeto Pro Espécies, pudemos observar que a região apresenta uma riqueza florística exuberante, com várias espécies endêmicas e habitats diversificados”. Observou que o cenário variou “desde afloramentos rochosos secos, ambientes arenosos, turfosos, áreas de veredas, cerrados a paredões rochosos úmidos, sendo possível constatar que mesmo naqueles locais que sofreram a ação do homem, como é o caso de uma área que foi utilizada pela mineração e posteriormente abandonada, encontramos representantes do gênero que estamos buscando, o que nos anima a uma segunda visita para verificação em período de floração da espécie Cuphea rubro-virens, uma das espécies da família Lythreaceae, endêmicas do Espinhaço e ameaçada de extinção.

No seu modo de entender, “a Serra do Espinhaço possui uma riqueza florística muito grande e isto requer uma proteção especial, haja vista que a sua vulnerabilidade pode acarretar na extinção de espécies endêmicas e pouco conhecidas”.  Mais ainda, chamou a bromélia encontrada no trabalho de campo “que faz parte do grupo de espécies alvo do Espinhaço, a Sincoraea humilis, endêmica da Serra do Espinhaço, que ocorre em campos rupestres com 850 – 1000m de altitude, em rochas úmidas e secas, próximas a margens de rios e lagos, em locais expostos à luminosidade, cujas populações não são facilmente encontradas, o que as coloca dentro do grupo de espécies alvo”.

Ecossistema Único


A Cadeia do Espinhaço é reconhecidamente uma das regiões mais belas de Minas. E, como as aves são bioindicadores, ou seja, atestam que o ambiente é preservado, para falar sobre sua relação com essa cordilheira O NORTE falou com o biólogo Gustavo Malacco, também diretor presidente da ONG Associação para a Gestão Socioambiental do Triângulo Mineiro. É que, além de visitar a Reserva Natural Rolinha do Planalto, percorreu os 77 km entre Itacambira e Botumirim, que retratam parte da grandeza de seu patrimônio natural.

“A Serra do Espinhaço é uma região única, que no futuro poderia ser considerado outro tipo de ecossistema em face ao elevado número de espécies endêmicas, sendo que no caso das aves temos vários endemismos notáveis”, opinou Malacco, citando como exemplos duas aves de campos de altitude, o Beija-flor-de-garganta-verde (Augastes scutatus) e o Lenheiro-da-Serra-do-Cipó (Asthenes luizae), ambos com muitos registros em Botumirim, “preciosidades da avifauna brasileira”. Sobre a Rolinha-do-Planalto (Columbina cyanopis), disse que “além de rara, trata-se de uma das pombas mais bonitas do mundo”.

O biólogo abordou ainda a importância do trabalho conjunto desenvolvido no Espinhaço Setentrional, especificamente em Botumirim, pela Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), com foco na conservação das aves brasileira e o Instituto Estadual de Florestas (IEF), gestor do Parque Estadual de Botumirim, “a despeito de um parque como esse, um dos mais belos que vi em minha vida, demandar um olhar mais crítico e cuidadoso do poder público”. Mesmo impressionado com o que viu, cobrou da administração municipal “políticas públicas para fomentar o turismo e incorporar esse sentimento de pertencimento, porque o parque pode ser um agregador fantástico para a economia local, porque a sociedade civil de há muito faz a sua parte”

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