A QUEM INTERESSA UMA GUERRA CIVIL NO BRASIL? Por João Figueiredo*

       Não há dúvidas de que as pessoas que estão se manifestando em frente aos quartéis, pedindo por um golpe das Forças Armadas, sabem que uma tomada de poder nas condições que estão pedindo implica em provocar no país uma guerra civil. Nem todos, entretanto, têm ideia clara das consequências de uma guerra civil. Temos exemplos recentes de desastrosas guerras civis, pelo mundo, algumas delas duraram décadas, como em Angola por 27 anos, no Líbano por 15 anos, Iugoslávia por 10 anos, na Síria está em curso há 11 anos… Mas, a quem interessa uma guerra civil no Brasil?

As tais manifestações se apresentam sob a justificativa de que o resultado das urnas em relação à eleição presidencial teria sido produto de fraude. Há suspeitas de que a própria coordenação da campanha eleitoral bolsonarista, se não o próprio Bolsonaro, esteja disfarçadamente estimulando tais manifestações. Vamos, então, tentar responder a indagação contida no primeiro parágrafo.

Uma guerra civil nas condições que vem sendo preparada pelos partidários de Bolsonaro, a julgar pelo perfil e comportamento da maioria dos manifestantes, atenderia aos anseios aventureiros de muitos aposentados, homens e mulheres, civis e militares, carentes de peripécias que lhes aplaquem o tédio da vida cotidiana – em muitos casos o descompasso entre os desejos impulsionados pela libido e a incapacidade orgânica da explosão orgástica direcionam o indivíduo para a busca de outras formas de queima das energias acumuladas…

Mas há outros interesses mais objetivos de diversos grupos, dentre eles:

1) Alguns militares ambiciosos, com sede de poder (acredita-se que não são maioria nas Forças Armadas);

2) Os derrotados nas urnas eleitorais em 2022, que veem a possibilidade de se manterem no poder, caso se efetive de fato o golpe reivindicado às Forças Armadas; 

3) Os fabricantes de armas, munições e artefatos de guerra, assim como contrabandistas desses produtos, por razões óbvias;

3) Os comerciantes de gêneros de primeira necessidade, produtos farmacêuticos, etc., interessados nos lucros ao vender seus estoques com ágio, haja vista que o transporte de mercadorias ficaria prejudicado no caso de guerra;

4) Aqueles que costumam se apropriar dos despojos de guerra, para enriquecimento pessoal;

5) Os que se aproveitam da miséria e da fome da população atingida pela guerra, como um meio de se promoverem politicamente, com práticas demagogas.

Os que defendem a tomada do poder pelos militares, acreditam, em sua maioria, que desta vez se repetiria o mesmo que ocorreu em 1964: a tomada de poder sem confronto armado e com pleno domínio dos militares – lembrando que confrontos armados desse tipo podem durar décadas seguidas, como alguns casos acima citados, com inúmeras mortes de combatentes envolvidos e de pessoas inocentes, com consequências graves para a qualidade de vida dos sobreviventes, como veremos mais adiante.

Não percebem, os afoitos manifestantes, que em 1964, em plena Guerra Fria, os EUA apoiavam golpes desse tipo, em todo o continente americano e outras partes do planeta, por temor de que as então recentes ações ocorridas em Cuba (1959) e o apoio a elas dispensado pela então União Soviética, poderiam se repetir em outros países americanos e promover o domínio da URSS no continente. Assim, o serviço de inteligência da CIA colaborou na articulação do golpe no Brasil, inclusive na mobilização para a “Passeata da Família com Deus” que viria coroar todo o arcabouço de sustentação ideológica golpista. Os EUA também disponibilizaram, na época, o apoio militar direto de uma força-tarefa da Operação Brother Sam, estacionada no Caribe, para o caso de uma reação armada das forças leais a João Goulart – o presidente deposto preferiu não reagir, não obstante o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, ter proposto uma reação com tropas de militares leais a ele.

Hoje a realidade é outra. Os EUA vêm adotando outras estratégias de política externa, nas quais não está incluído semelhante apoio, além do fato de que o governo de Joe Biden não é simpático às ações do governo Bolsonaro. Logo, uma guerra civil no Brasil hoje poderia se estender anos a fio com previsões trágicas para todos os brasileiros: mortes, fome, doenças, destruição de bens públicos e privados…

Um detalhe de suma importância e que não se pode esquecer é que até o século XIX a América do Sul era dividida apenas em América Espanhola e América Portuguesa. A América Espanhola, a partir de conflitos armados internos, se dividiu em 33 territórios, dos quais 31 são países independentes e 02 são dependências de outros países: Guiana Francesa e Porto Rico. A América Portuguesa continuou intacta com apenas um território: o Brasil não se dividiu devido ao advento da vinda da Família Real, em 1808, e aqui ter sido estabelecida a sede do “Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves”. Uma guerra civil no país, hoje, além de todas as agruras, devastação e mortes que uma guerra provoca, poderia resultar na divisão territorial do país. Isto é, o Brasil acabaria dividido em dois ou mais países independentes.

Um exemplo de divisão, após uma guerra civil, mais recente, que pode ser apontado para nós, é o caso da Iugoslávia, cujos conflitos internos de 1991 a 2001 a dividiu nos seguintes países: Eslovênia, Croácia, Sérvia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Macedônia. Alguém poderia tentar apresentar a justificativa de que a Iugoslávia era composta por uma diversidade étnica antes da guerra e que essa diversidade foi responsável pela divisão. Em resposta poderíamos indagar: e o Brasil, quantos povos compõem o povo brasileiro na atualidade?…          

* Jornalista e escritor   

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