Morre Pelé, maior jogador de futebol da história, aos 82 anos

‘Rei do Futebol’ morreu nesta quinta-feira (29/12), no hospital Albert Einstein, em São Paulo, em decorrência de um câncer no cólon

O mundo do esporte está de luto. Morreu nesta quinta-feira (29/12) Pelé, aos 82 anos. Edson Arantes do Nascimento, conhecido como ‘Rei do futebol’ e maior jogador de todos os tempos, estava internado desde 29 de novembro no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em decorrência de uma infecção respiratória. Mas a saúde do ‘Atleta do Século XX’ já vinha muito debilitada desde 2021 após o diagnóstico de câncer no cólon.

Do início ao fim da carreira, Pelé sempre foi Pelé, suprassumo da excelência. Dizer, por exemplo, que Nadal, Federer e Djokovic disputam o posto de ‘Pelé do Tênis’ é não entender que o mineiro de Três Corações não competiu com ninguém.

Hors concours, Pelé simplesmente foi o melhor e maior esportista da história, reconhecido pelos seus mais de mil gols e vencedor de todos os títulos importantes como protagonista. A comparação usando o nome dele – que virou adjetivo em forma de homenagem (o ‘Pelé da Medicina’, o ‘Pelé da Música’, o ‘Pelé da F1’) – sempre é imprecisa e exagerada. Como Pelé, apenas Pelé e somente Pelé.

Ao longo da sua trajetória, Pelé foi coroado. No entanto, dizer que ele foi um rei também soa injusto. Qual o grande atributo de um monarca? No geral, nenhum. Ao rei basta nascer, estar na linha sucessória e herdar o trono. O Charles III, a título de exemplo, o qual assumiu a monarquia britânica: com todo respeito que merece, é sujeito desinteressante, sem carisma, sem nenhuma marca indelével.

Mesmo sendo figura superlativa em relação a qualquer integrante de família real – até o francês Luís XIV, o ‘Rei Sol’, seria ofuscado pelo mineiro, assim como foi a simpática rainha Elizabeth II, em encontro com o craque em 1968 -, Pelé ganhou título de nobreza: o ‘Rei do Futebol’, que virou aposto e quase nome próprio ao longo da sua vida e assim será também agora, posterior a ela.

O título de Rei

Quando tinha apenas 17 anos e era conhecido por poucos, antes mesmo de ganhar a primeira de três Copas do Mundo e de completar duas centenas de gols, o cronista Nelson Rodrigues já reivindicava o trono para aquele garoto nascido em 23 de outubro de 1940, no Sul de Minas Gerais, que despontava no futebol brasileiro.
“Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: – dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis”, escreveu o jornalista, na Manchete Esportiva, no dia 8 de março de 1958.
“Pois bem: – verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope”, acrescentou.
A crônica foi escrita quando Nelson Rodrigues presenciou quatro gols de Pelé, vestindo a camisa do Santos, contra o América-RJ. Depois disso, ele não teve dúvidas. Com seu estilo literário, conseguiu prenunciar a História. Talvez tenha sido o primeiro a dizer que Pelé já era Pelé.
“O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”, escreveu Nelson Rodrigues.
O cronista alertou que o craque, aos 17 anos, já sabia que era o melhor. Não o melhor ponta, o melhor meia, o melhor atacante. Pelé tinha plena consciência que era o melhor em todas as posições.
“Tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: – “Quem é o maior meia do mundo?” Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: – “Eu.” Insistiram: – “Qual é o maior ponta do mundo?” E Pelé: – “Eu.” Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção que ninguém reage, e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé”, garantiu o cronista.

Doença

O estado de saúde de Pelé começou a se deteriorar com a descoberta de um câncer no intestino em agosto de 2021, quando recebeu o diagnóstico de um tumor maligno no cólon.
Ele passou por cirurgia no hospital Albert Einstein, em quatro de setembro de 2021, para a retirada do tumor. Chegou a ser transferido para uma UTI por causa de problemas respiratórios.
Naquele momento, Pelé iniciou o processo de quimioterapia e ficou 15 dias internado em dezembro de 2021. Em janeiro, metástases foram diagnosticadas em diferentes órgãos do corpo, como fígado e pulmão.
Em fevereiro de 2022, Pelé retornou ao hospital paulista para novas sessões de quimioterapia, quando os médicos observaram uma infecção urinária. O quadro melhorou e, por isso, ele foi liberado naquele mês.
Pelé foi internado novamente em novembro de 2022 com quadro de anasarca (inchaço generalizado), síndrome edemigênica (edema generalizado) e insuficiência cardíaca descompensada. Desde então, não saiu mais do hospital. Em 21 de dezembro, o boletim médico apontou a piora do quadro de saúde:
“Internado desde 29 de novembro para uma reavaliação da terapia quimioterápica para tumor de cólon e tratamento de uma infecção respiratória, Edson Arantes do Nascimento apresenta progressão da doença oncológica e requer maiores cuidados relacionados às disfunções renal e cardíaca.
O paciente segue internado em quarto comum, sob os cuidados necessários da equipe médica.”

Copas do Mundo e gols

Além de Nelson Rodrigues, outros grandes escritores brasileiros também citaram Pelé em sua vasta literatura. Foi assim com Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira.
“O difícil, o extraordinário não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé”, escreveu o poeta, em crônica do Jornal do Brasil de 28 de outubro de 1969.
Somando os 1.380 jogos que fez, o Rei do Futebol marcou 1.284 vezes (média impressionante de 0,93).
Os números de Pelé em partidas oficiais variam segundo o critério utilizado. De acordo com o site RSSSF, o Rei do Futebol tem 767 gols em 831 jogos (média de 0,92). Há registros que não contabilizam confrontos pela Seleção Paulista e pela Seleção Militar – nesse caso, são 757 gols em 820 jogos (média de 0,92).
A melhor temporada da carreira do craque foi a de 1958, quando veio o primeiro título do Brasil (e de Pelé) em uma Copa do Mundo. Naquele ano, ele marcou 75 gols. Aos 17 anos, foi o artilheiro da Seleção no Mundial da Suécia, com seis gols.
Na final, o Brasil goleou a anfitriã por 5 a 2, com dois tentos do então atacante do Santos. Nos nove primeiros anos de carreira, Pelé fez ao menos 36 gols por temporada.
Na maior competição do mundo, Pelé é insuperável: ninguém venceu tantas edições em campo quanto o maior jogador de todos os tempos (1958, 1962 e 1970).
Em 1962, Pelé fez um gol na campanha no Chile, nos 2 a 0 sobre o México, já que se machucou no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia. Garrincha e Vavá foram os destaques brasileiros, com quatro gols cada.
Na Copa de 1970, o mineiro balançou as redes quatro vezes, inclusive na final contra a Itália, e foi eleito o melhor jogador da competição. Aquela seleção encantou o mundo e é considerada até hoje a melhor de todos os Mundiais.
Pelé também marcou um gol no Mundial de 1966, na Inglaterra. Em 14 jogos em Copas, o craque comemorou 12 vezes (média de 0,85 gol por jogo).
Pela Seleção, Pelé marcou 77 gols em 92 partidas oficiais. A CBF contabiliza amistosos contra clubes e seleções estaduais, aumentando os números do ‘Rei’: 113 jogos (84 vitórias, 15 empates e 14 derrotas) e 95 gols. Ele jogou no Santos de 1956 a 1974. Depois, mudou-se para os Estados Unidos, onde vestiu a camisa do New York Cosmos, de 1975 a 1977.

Prêmios

Pelé foi reconhecido mundialmente e colecionou homenagens. Em 12 de julho de 1980, o craque foi eleito ‘Atleta do Século’ por jornalistas das 20 maiores publicações de esportes do mundo.
Ele recebeu 178 pontos, nove a mais que o estadunidense Jesse Owens. Em terceiro lugar ficou o ciclista belga Eddy Merchx, com 99 pontos. A premiação foi organizada pelo jornal L’Equipe, da França.
Em 1999, Pelé também foi eleito o ‘Atleta do Século’ pela revista oficial do Comitê Olímpico Internacional (COI) – o curioso é que Pelé nunca disputou uma Olimpíada sequer. Ele foi escolhido em uma eleição que contou com 200 comitês olímpicos nacionais.
Pelé recebeu mais votos que o pugilista Mohammed Ali, que ficou na segundo posição. O velocista Carl Lewis ficou no terceiro posto. Astro da NBA, Michael Jordan ficou em quarto.
Via EM

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