A paranoia bolsonarista nas redes sociais – Por João Figueiredo *

O Jogo patológico, a compulsão por defender Bolsonaro e por atacar a esquerda, o WhatsApp como “divã”

 Em um Grupo de WhatsApp integrado por maioria bolsonarista, há alguns membros que atuam como se fossem abelhas-soldados de uma colmeia: reagem agressivamente (injúrias, xingamentos, comentários sarcásticos) contra qualquer mensagem que julgarem ameaça à maneira de pensar de seus membros, bem contra o autor da postagem. Nesses casos, além do ataque direto à postagem e a quem a postou, segue-se uma enxurrada de postagens com mensagens contrárias, com o claro objetivo de anular a mensagem criticada. Um vício, uma paranoia de ataques constantes que gera uma necessidade compulsiva de defesa e a transforma em um jogo patológico.

Circularam diuturnamente, por esse grupo, entre 2018 – ano de sua criação – e 2022, milhares de mensagens de exaltação a tudo que se refere a Bolsonaro: chavões como “este é o maior presidente que o Brasil já teve”, “o nosso mito”, “Deus, pátria e família”, dentre outros que se misturavam com ataques injuriosos a Lula e a quem defende os ideais da esquerda, como “o ladrão de nove dedos”, “o maior ladrão do mundo”, “a esquerda é corrupta”, “comunismo do diabo”, “os imbecis da esquerda”, “jumentos lulistas”, etc., etc.;  tudo regado a sucessivas postagens de fake news, cuidadosamente preparadas, reforçando as posições expressas em tais frases.

O grupo ainda permanece atuante, mas houve um arrefecimento recente nos ataques furiosos à esquerda e na defesa intransigente das ações de bolsonaristas radicais, como veremos mais à frente. A sua denominação em nada vincula seus integrantes a ações políticas e ideológicas: seria, em tese, uma inofensiva coletividade de trabalhadores de determinada categoria profissional, contudo, basta acessar as mensagens para se perceber que a denominação, a rigor, deveria ser mudada para identificá-lo como um espaço de defesa aferrada dos ideais bolsonaristas.

Dentre os integrantes do citado grupo há aqueles que nada postam nem comentam, os que raramente postam ou raramente comentam e os que postam e comentam intermitentemente mensagens agressivas de defesa de Bolsonaro e de ataque à esquerda. Estes últimos, uma parcela significativa dos integrantes, agem o tempo todo como um exército de defesa do grupo, como as abelhas-soldados de uma colmeia. Estão sempre atentos a toda e qualquer postagem dos outros membros e, em questão de poucos minutos, estão prontos a reagir contra qualquer postagem que considerarem nociva aos ideais do grupo, isto é, que possa influenciar os demais integrantes a pensar diferente sobre política, a pensar fora da caixinha ultraconservadora.

Um integrante desse grupo, há algum tempo, postou um cartum de Yorhán Araújo, intitulado “Devaneios com Sigmund e Freud” com um diálogo entre dois personagens, em que um comenta: “Fico me perguntando como seria se eu tivesse feito outras escolhas” e o outro responde: “Você estaria se perguntando como seria a sua vida se tivesse feito outras escolhas”. A mensagem do cartum foi entendida como uma crítica ao bolsonarismo e foi rechaçada de imediato com outras postagens que aparentemente nada tinham a ver com aquela, mas que procuravam desqualificar os esquerdistas como pessoas alienadas, impatrióticas, com termos e expressões como “esquerdopatas”, “defensores de bandidos” e outros…

O grupo referido é apenas um dentre muitos, os quais entre 2017 e 2022 funcionaram incialmente como instrumento de campanha eleitoral e, depois, de defesa do governo federal como uma espécie de palanque eleitoral permanente. Durante a campanha eleitoral de 2022, até o dia oito e janeiro de 2023, tais grupos atingiram o grau máximo de agressividade: durante a campanha falavam de um suposto desespero da esquerda diante da inexorável reeleição de Bolsonaro; após a eleição de Lula centraram os ataques em uma suposta fraude eleitoral e sobre uma também suposta tomada do poder pelas Forças Armadas. Seguiram-se inúmeras postagens de defesa dos acampamentos dos extremistas defronte aos quartéis do Exército até a ocorrência da invasão das sedes dos Três Poderes da República.

Após as ações classificadas como terroristas, no Distrito Federal, e os desdobramentos judiciais em torno delas, houve um visível arrefecimento das defesas desses atos e os ataques passaram a ser direcionados em forma de fake news sobre o que seriam decisões impopulares do novo governo. O foco passou a ser postagens dizendo que as forças policiais seriam desarmadas, que trabalhadores que ganham um salário mínimo seriam obrigadas a pagar Imposto de Renda, que o Auxílio Reclusão teria sido reajustado com um valor superior ao salário mínimo, que policiais aposentados perderiam o porte de armas, e muitas outras; o refrão mais usado após cada uma das notícias falsas agora é “Faz o L!”. Não obstante a mudança de comportamento após os desdobramentos judiciais sobre os atos em Brasília-DF, aqueles que age como se abelhas-soldados fossem continuma com o mesmo ritmo de reação compulsiva a qualquer mensagem considerada uma ameaça à defesa bolsonarista – agem como os jogadores compulsivos em busca da vitória a qualquer custo.

Sobre uma ação compulsiva semelhante, Hermano Tavares em sua tese de doutorado em medicina pela USP, intitulada “Jogo Patológico e suas relações com o Espectro Impulsivo-Compulsivo”, fala que os jogadores patológicos apresentam, assim como os portadores de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), fortes tendências a comorbidades ligadas à ansiedade e depressão, o que dinamiza a impulsividade do paciente.

Edson Nunes, em artigo com título “Bolsonarismo, doença que distorce a realidade”, publicado no Farol de notícias, define como característica comportamental da maioria dos chamados bolsonaristas radicais como “pessoas que distorcem a realidade, sobrevivem de delírios e condicionamento mental”; o autor ainda fala de um fanatismo que os leva a ter com as fake news uma relação análoga aos portadores do TOC, e insiste que entre as pessoas que assim se comportam há portadores também de Esquizofrenia e outras patologias mentais, que levam o paciente a perder o contato com a realidade. Ele define o TOC como uma patologia “em que o indivíduo apresenta obsessões e compulsões, ou seja, sofre de ideias e/ou comportamentos que podem parecer absurdos, ou ridículos para a própria pessoa e para os outros e mesmo assim são incontroláveis, repetitivos e persistentes”.

Katharine Anne Phillips, no artigo intitulado “Transtorno obsessivo compulsivo (TOC)”, publicado no site do Manual MSD, descreve o transtorno do TOC como caracterizado por obsessões, compulsões ou por ambas categorias, que provocam ansiedades que alimentam impulsos recorrentes e persistentes, sobre os quais os pacientes não têm controle. Para a autora, as compulsões são rituais envolvendo “determinadas ações ou atos mentais que a pessoa se sente impelida a praticar para tentar diminuir ou evitar a ansiedade causada pelas obsessões.

Numa outra abordagem citamos Thaiana Brotto que em seu artigo, “Vício em Redes Sociais e seus impactos no dia a dia”, publicado no site PSI – Psicólogo e Terapia, fala que vício em Redes Sociais tem a mesma essência de vícios em drogas, bebidas alcóolicas, jogos, etc. Essa visão é corroborada pelo médico Mitch Prinstein, diretor científico da Associação Americana de Psicologia (APA), citado por Melissa Vasquez Loalza e Carolina Melo, no artigo “Carência por like está quimicamente relacionada ao vício, alerta especialista”, publicado no site da CNN Brasil, que esclarece que as mídias sociais são viciantes no mesmo nível das drogas legais e ilegais, porque ativam substâncias químicas cerebrais que aguçam a sensação de se criar um universo paralelo que afasta da vida real e mantém o desejo de se continuar em tais atividades.

Melissa Vasquez Loalza e Carolina Melo falam das plataformas das Redes Sociais que têm interesses que determinados comportamentos dos internautas continuem porque isso dinamiza e, obviamente, monetiza essas redes. As autoras citam que as Redes Sociais acabam se alimentando dos efeitos do ódio, violência e desinformação que através delas se espalham.

Os autores citados, muito embora não tratem especificamente da questão apresentada na introdução deste texto, fornecem informações que identificam a paranoia de muitos bolsonaristas radicais e seus comportamentos que denotam obsessão, compulsão e compulsividade por reagirem contra quaisquer mensagens que traduzem ideias diferentes das suas, em grupos de WhatsApp. Para traduzir de forma simples, obsessão é a motivação irresistível para realizar algo irracional, é o apego exagerado a um sentimento ou ideia desarrazoada; compulsividade é a propensão para realizar ações que, pela repetição, se tornaram automáticas, condicionadas; compulsão é a tendência para agir de maneira impensada, movido pela emoção, sem qualquer controle pela ação praticada.

Podemos, ainda, diante de tudo que foi dito, afirmar que os indivíduos cujos comportamentos foram objetos de análise neste texto, certamente buscam, através das suas ações, um alívio para seus males da alma. As ansiedades e depressões, decorrentes das revoltas, frustrações, decepções, enfim, das insatisfações dessas pessoas, as fazem agir em busca de um lenitivo. Nesse mister, as Redes Sociais, especialmente no caso do grupo de WhatsApp citado, funcionam como um instrumento terapêutico para esses atores. O grupo é usado, inconscientemente, como um “divã”, como um locus terapêutico.

* Mestrando em Desenvolvimento Social pela UNIMONTES, historiador, sociólogo, jornalista, escritor (contista, cronista, ensaísta, poeta/cordelista), ambientalista, professor de Yoga, capoeirista, terapeuta reichiano.

Deixe um comentário