O governador de Minas Gerais, Mateus Simões foi condecorar Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, quando disse algo que há anos é tido como notoriamente discriminatório, sem nenhum constrangimento

O governador de MG, Mateus Simões – Imagem: Frame de vídeo do YouTube

O cenário era a histórica Ouro Preto, palco da tradicional entrega da Medalha da Inconfidência, nesta terça-feira (21), feriado nacional de Tiradentes. No entanto, o que deveria ser um ato de exaltação ao civismo acabou marcado por uma fala carregada de preconceito estrutural. O governador em exercício de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), que substituiu Romeu Zema (Novo) após sua renúncia por razões eleitorais, causou indignação ao utilizar uma expressão racista para elogiar seu homólogo paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Durante o discurso de entrega do Grande Colar, a mais alta honraria do estado, reservada aos governantes dos estados e os chefes de Poderes, Simões tentou fazer um aceno à representatividade feminina, mas tropeçou no vocabulário discriminatório.
“Dizia ao governador Tarcísio da minha inveja branca de ele ter nomeado a primeira comandante da Polícia Militar mulher”, declarou Simões, sem esboçar qualquer constrangimento ao pronunciar o termo claramente racista.

Peso do termo
A expressão “inveja branca” é amplamente condenada por especialistas, historiadores e movimentos sociais por reforçar o racismo linguístico. A lógica por trás do termo é a de que o “branco” purifica o sentimento, tornando-o aceitável ou positivo, enquanto o “preto” permanece implicitamente ligado ao que é ruim, pecaminoso ou maléfico. Em um estado como Minas Gerais, cuja história é marcada pela luta e resistência negra, o uso do termo em uma cerimônia oficial foi recebido como um retrocesso e gerou revolta nas redes sociais.

Corrida política e alianças
O absurdo verbal ocorreu em um momento em que Simões busca consolidar seu nome para a sucessão de Romeu Zema. A presença de Tarcísio de Freitas e de outras figuras da direita, como o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro e também agraciado com a Grande Medalha, reforça a tentativa de Simões de atrair o Republicanos e o PL para sua futura coligação.
Ao tentar “disputar” o pioneirismo na promoção de mulheres em postos de comando, Simões lembrou que Minas já possui a coronel Jordana Filgueiras Daldegan à frente do Corpo de Bombeiros. Contudo, o mérito da pauta foi ofuscado pela escolha infeliz das palavras.

Silêncio do governo
Até o fechamento desta reportagem, o governo de Minas Gerais e a assessoria pessoal do governador Mateus Simões não se manifesteram em relação aos pedidos de esclarecimento enviados por e-mail e mensagens instantâneas das mais diversas redações de inúmeros veículos de imprensa. O espaço na Fórum permanece aberto para manifestação.
A fala de Simões acende um alerta sobre a naturalização de termos discriminatórios no alto escalão da política brasileira, especialmente em eventos que celebram a liberdade e a justiça, pilares do movimento inconfidente.

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