A amizade do senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas (PP) com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, resultou em uma investigação que aponta mesada, sociedade oculta, viagens de luxo, uso de imóveis e atos parlamentares sob suspeita.

Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira. Foto: reprodução

Com informações da Piauí, que teve acesso a relatório da Polícia Federal e a documentos do Coaf que embasam a apuração sobre a relação entre o senador e o banqueiro. A Polícia Federal vê na relação entre o Senador e o ex-banqueiro um “arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade”, nas palavras do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao autorizar nova operação no caso Master.
Em março, após mensagens de WhatsApp ligarem seu nome ao banqueiro, Ciro tentou minimizar a relação. “Sem falsa modéstia, você sabe que eu me tornei um dos homens mais influentes da política nacional. Eu conheço todos os grandes empresários do nosso país. Todos”, disse em entrevista a um telejornal de Teresina.
O senador também afirmou: “Não tem nenhum grande empresário nesse país que não já tenha me procurado em Brasília, ou me convidado para eventos, ou para palestra, ou para jantares”.

Vorcaro e Ciro Nogueira durante viagem bancada pelo ex-CEO do Master. Foto: melhorada com IA

Em outro momento, declarou: “Agora, você nunca vai ver nada de errado nesses diálogos. Ah, ‘foi convidado para jantar’. Ah, ‘botou um helicóptero à minha disposição’, que eu não usei. Poxa, mas, pelo amor de Deus. Isso é o fato de nós termos um homem influente que conhece todos os homens influentes do país”.
A investigação mostra, porém, que a relação seria mais antiga e mais ampla. Um documento do Coaf aponta que, entre agosto de 2023 e agosto de 2024, a BRGD, empresa da família de Vorcaro, depositou R$ 902 mil na CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa ligada à família de Ciro. O órgão considerou as operações atípicas, e a PF suspeita de pagamentos de propina disfarçados de relação empresarial.
Em abril de 2024, a CNLF comprou por R$ 1 milhão uma fatia de 30% da Green Investimentos que valeria R$ 13 milhões, segundo a reportagem. O negócio foi feito por contrato de gaveta e, conforme Mendonça, buscava “evitar a supervisão regulatória”. Três meses depois, a CNLF teria direito a cerca de R$ 720 mil em dividendos.
Também foram reveladas mensagens que indicam pagamento de mesada ao senador. Em junho de 2025, Vorcaro cobrou o primo Felipe Cançado Vorcaro sobre atrasos: “Cara, eu no meio dessa guerra, atrasou dois meses Ciro?”

O primo respondeu: “Vou ver se dou um jeito aqui” e perguntou: “Vai continuar os 500k, ou pode ser os 300k?”
Outro trecho envolve o uso de imóvel de Vorcaro por Ciro. Em diálogo, o senador disse: “Não quero abusar da tua boa vontade, não. Tá bom, meu irmão?”
O banqueiro respondeu: “Relaxa com isso”. Depois, Ciro escreveu: “Me avisa que eu dou um jeito se tu precisar. Abração, meu irmão. Saudade grande de você”. Vorcaro concluiu: “Irmãozão, já te falei desse apto. Zero estresse. Vamos conversar depois”.
A investigação também aponta que a chamada “Emenda Master”, apresentada por Ciro em agosto de 2024 para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, teria sido redigida pela assessoria do próprio banco. Segundo a PF, Vorcaro comemorou que o texto saiu “exatamente como mandei”.

No “pacote” da amizade entre os ambos ainda tem o financiamento de viagens de luxo, como uma temporada em Courchevel, nos Alpes franceses, que teria custado R$ 1,849 milhão e sido paga por Vorcaro. Procurado, Ciro Nogueira não respondeu uma lista de 60 perguntas enviadas pela revista.

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