Vídeo de advogada imobiliária reacendeu uma disputa que se arrasta há anos e envolve posse, propriedade e o nome de Flávio Bolsonaro.

Richarlison marcou Flávio Bolsonaro em post cobrando uma resposta sobre o imbróglio – crédito: NELSON ALMEIDA / AFP e Albari Rosa / AFP

Uma antiga disputa judicial por uma mansão de luxo em Angra dos Reis (RJ), que envolve o advogado Willer Tomaz e tem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como testemunha em um dos processos, voltou a repercutir nas redes sociais nesta semana após um comentário do jogador Richarlison em um vídeo da advogada imobiliária Ana Paula Zantut.
O caso ressurgiu na terça-feira (30), quando Ana Paula publicou uma gravação explicando a diferença entre propriedade e posse de um imóvel. Para ilustrar o tema, ela utilizou justamente a disputa envolvendo Richarlison e Willer Tomaz.
Nos comentários da publicação, o atacante afirmou ter investido cerca de R$ 10 milhões na compra da mansão e disse que perdeu o imóvel.
“Realmente gastei em torno de 10 milhões lá. E simplesmente me tomaram. E estou até hoje sem receber a minha grana.”

Comentário de Richarlison fez a antiga disputa voltar às redes sociais. Reprodução / Instagram

A manifestação viralizou e fez o caso voltar ao debate público. Diante da repercussão, Ana Paula retirou o vídeo do ar e publicou uma nota de retratação, informando que algumas informações apresentadas inicialmente não refletiam com precisão a situação jurídica atual do processo.

O que dizia o vídeo

Logo no início da gravação, Ana Paula Zantut apresenta o caso como um exemplo da diferença jurídica entre propriedade e posse.

“O Richarlison comprou uma mansão avaliada em R$ 10 milhões. Dois anos depois, o advogado do Flávio Bolsonaro, e talvez o Flávio junto, comprou a posse desse imóvel.”

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Na sequência, Ana Paula afirma que Richarlison adquiriu a propriedade da mansão diretamente do então proprietário, mas que já existiria na matrícula do imóvel um antigo registro de cessão de posse, datado da década de 1960. Segundo ela, a empresa ligada ao advogado Willer Tomaz adquiriu esses direitos possessórios e, posteriormente, ingressou com uma ação de reintegração de posse.

A advogada sustenta que o caso passou a envolver direitos distintos sobre o mesmo imóvel, uma vez que, na avaliação dela, a propriedade permaneceria com Richarlison e seu empresário, enquanto a posse teria sido transferida a uma terceira pessoa.

Ela acrescenta que a disputa judicial deixou de tratar apenas da definição de quem detém a posse e passou a discutir também a validade do negócio jurídico que transferiu esses direitos. Conforme explicou, caso fique comprovado que o contrato foi firmado com alguma irregularidade ou mediante indução a erro, ele poderá ser anulado.

Ao concluir o vídeo, Ana Paula afirmou que utilizou o episódio para alertar compradores sobre a importância de analisar cuidadosamente a matrícula e todo o histórico jurídico de um imóvel antes da aquisição.

Como Flávio Bolsonaro entrou na história

A origem da disputa remonta a 2020, quando a Sport 70, empresa ligada ao jogador Richarlison e ao empresário Renato Velasco, negociava a compra da mansão localizada na Ilha Comprida, em Angra dos Reis.

Segundo relatos constantes no processo e reportagens publicadas à época, Flávio Bolsonaro conheceu a propriedade durante uma visita ao local e demonstrou interesse na aquisição. O então possuidor do imóvel informou, porém, que a venda já estava praticamente concluída com a empresa de Richarlison e que os compradores já tinham planos para reformar a mansão.

De acordo com o antigo proprietário, Flávio chegou a perguntar se seria possível desfazer a negociação, mas foi informado de que o negócio já estava fechado.

Mesmo após a venda, o senador retornou ao imóvel acompanhado do advogado Willer Tomaz, amigo de longa data. Segundo o relato do antigo possuidor, Tomaz também demonstrou interesse na casa, mas ambos ouviram novamente que a propriedade já havia sido negociada e não estava mais disponível para compra.

Pouco tempo depois, a disputa ganhou novos contornos quando surgiu uma reivindicação possessória envolvendo a M Locadora de Veículos e Transportes Turísticos Ltda.

A empresa alegava ser sucessora de antigos direitos de ocupação do imóvel, adquiridos originalmente do marido da cantora Clara Nunes em 1986 e posteriormente transferidos em 2002.

Após mais de duas décadas, representantes dos antigos titulares desses direitos passaram a reivindicar novamente a posse da área.

Foi nesse momento que surgiu outra ligação entre os personagens da disputa: o advogado da M Locadora era sócio de Willer Tomaz, que havia visitado a mansão ao lado de Flávio Bolsonaro depois de a venda já estar concluída.

Enquanto a batalha judicial se desenrolava, a mansão passava por reformas financiadas pelos compradores. Na época, a esposa de Renato Velasco, grávida, morava no imóvel quando foi surpreendida por policiais e um oficial de Justiça cumprindo uma ordem de reintegração de posse.

Segundo Velasco, o episódio provocou forte abalo emocional na família. Sua esposa precisou ser internada e antecipou o parto em razão do estresse causado pela retirada da residência.

Já Willer Tomaz sustentou que Richarlison e Renato Velasco ocupavam irregularmente o imóvel.

O advogado afirmou ter adquirido legalmente os direitos possessórios da M Locadora, declarou que quitou débitos fiscais e investiu cerca de R$ 5 milhões para regularizar a propriedade. Também classificou o jogador e seu empresário como “invasores”.

As visitas feitas por Flávio Bolsonaro antes do início da disputa levaram a empresa ligada a Richarlison a incluir o senador como testemunha em uma das ações judiciais. Flávio nunca foi parte no processo e afirmou, à época, que apenas mantém amizade com Willer Tomaz, sem qualquer participação na disputa pelo imóvel.

O processo

A mansão é avaliada em cerca de R$ 10 milhões e conta com 11 suítes, praia privativa, cachoeira, heliponto, piscina e quadra de tênis.

A disputa judicial opôs a Sport 70 Intermediação de Negócios Ltda., empresa ligada a Richarlison, e a WT Administração de Imóveis e Bens S.A., ligada a Willer Tomaz.

A empresa do jogador sustentava ter adquirido regularmente a propriedade da mansão, enquanto Tomaz afirmava ser titular dos direitos de ocupação do imóvel com base em contratos anteriores.

Em maio de 2025, o Superior Tribunal de Justiça manteve o entendimento do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro favorável à empresa ligada a Willer Tomaz.

O relator, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, concluiu que o recurso apresentado pela empresa de Richarlison exigiria reexaminar provas e interpretar cláusulas contratuais, providências vedadas em recurso especial pelas Súmulas 5 e 7 do STJ.

Advogada faz retratação

Após a repercussão do vídeo e do comentário de Richarlison, Ana Paula Zantut publicou uma nota pública informando que retirou o conteúdo do ar.

Segundo a advogada, após aprofundar a análise do processo e ter acesso a documentos que não haviam sido considerados na elaboração do vídeo, verificou que parte das informações apresentadas não refletia com precisão o estado atual do caso.

Ela esclareceu que o processo foi encerrado em 2025 e afirmou não ter conhecimento da existência de novas ações judiciais relacionadas aos fatos.

“A retratação decorre exclusivamente do meu compromisso profissional com a precisão das informações e não deve servir para alimentar narrativas alheias aos fatos.”

Na nota, Ana Paula também afirmou que a correção não deve ser utilizada como instrumento de disputa política ou ataque pessoal e informou que publicará um novo vídeo explicando detalhadamente o histórico da disputa, o andamento do processo e os pontos que motivaram a retratação.

Fonte: Congresso em Foco

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