Zé Ninguém, servidor do estado de Minas Gerais e de reputação ilibada, geria uma área de conservação ambiental, atividade na qual exercia sua função e tinha a responsabilidade como gestor, de zelar e fazer uso adequado de vários equipamentos públicos, dentre eles veículos automotores como carros e motocicletas.

Charge de Carlos Latuff

Ao todo cinco veículos. Além destes, motores  estacionários, roçadeiras, motosserras, dentre outros. O que estou dizendo é que toda essa  estrutura demandava gastos com manutenção, combustíveis, além de diárias de viagens  utilizadas em viagens e monitoramentos da área que não era pequena. Recebia seu salário e recursos como diária, verbas para manutenção dos equipamentos,  verbas para intervenções na unidade de sua responsabilidade como confecção de aceiros,  edificação de estruturas, além de outros, movimentados no banco ITAÚ, à época. Pois bem! 

Em dezembro de 2007, sob o governo do PSDB, a folha de pagamento do estado fora retirada do banco ITAÚ para o banco do Brasil. Embora seus proventos foram para o banco do  Brasil, Zé Ninguém preferiu continuar utilizando o primeiro banco, recebendo todos os recursos  para o manejo da unidade de conservação, não me lembro quanto, mas não era pouco dinheiro.  Infelizmente, em novembro de 2010 fora acometido por um câncer ficando afastado por todo o  ano de 2011 realizando tratamento como radioterapia e quimioterapia. Quando finalmente se  livrou do problema de saúde, procurou resolver outros imbróglios, os quais naquele intervalo fatídico, não encontrava disposição nem cabeça para solucioná-los. Um deles, era a famigerada  conta do ITAÚ, uma vez que havia mais de um ano sem movimentação, já que por estar de  licença não caíram recursos para a unidade em sua conta ITAU. 

Neste sentido, procurou o referido banco para negociar um débito adquirido pela  manutenção da conta corrente no valor de R$ 400,00 aproximadamente, ou seja, quase o valor  de um salário mínimo que na época era de R$ 545,00. Assim, propôs adquirir um empréstimo  com juros menores, para quitar o débito e pagar o valor de forma mais branda. Foi negado, é  lógico!

Não obstante, em janeiro de 2022, a folha de pagamento do estado retorna ao banco  ITAU, fato em que Zé Ninguém, em cumprimento parcial ao seu juramento, foi obrigado entrar  naquele estabelecimento para requerer sua portabilidade para o mesmo banco do Brasil. Foram  três suas “visitas” para esta finalidade – todas elas sem sucesso. A última ida, porém,  permaneceu 5 horas em uma fila (de 09:00 às 14:00) e, segundo o atendente, com um ou dois  minutinhos o seu pagamento estaria na sua conta no banco do Brasil. Foi-se embora  monitorando seu saldo pelo aplicativo, sendo que não se confirmou a transferência até minutos  antes da agência fechar, horário em que Zé Ninguém se encontrava na porta da mesma a fim de  resolver o problema. Contudo, a portaria da agência afirmou que ele deveria pegar a fila  novamente, fato que o deixou indignado perdendo sua razão ao empurrar a porta nervoso com  a situação. O intuito era abrir a porta sem se importar se quebraria ou não, se seria repreendido  pelos seguranças ou não. Antes mesmo de assentar para conversar com o gerente, a porta  começou a debulhar em minúsculos fragmentos e a polícia já estava no ambiente, o que o fez  indignamente falar aos militares que pudessem atirar, afirmando que só sairia dali com seu  dinheiro. O problema é que já havia 6 dias que seu dinheiro se encontrava retido no banco,  cerca de R$ 12.000,00. Já imaginaram 1.200.000 servidores com seus salários retidos e o banco  especulando este dinheiro em aplicações ou em bolsas de valores neste intervalo de tempo? Pois  é! 

Zé Ninguém foi preso, jogado dentro do camburão feito um bandido ou um saco de  batatas, conduzido para a delegacia. Nunca tinha sofrido tanta humilhação e constrangimento daquela envergadura, sobretudo por ser um homem honrado e ter acontecido em meio a dezenas  ou centenas de colegas de trabalho que estavam no momento dentro e fora do banco nas longas  filas que ainda persistiam naquele horário. Resolveu o problema, mas o incidente fez uma  PISADURA brava no seu âmago que nunca mais cicatrizou. 

Essa ferida persistiu e ainda persiste até hoje no coração e na mente de Zé Ninguém. Não sei se  por este e ou por outros motivos, em meados de 2024 o seu câncer voltou feito um furúnculo  que vem a furo ou um vulcão em erupção. Entrou na justiça por danos morais, mas perdeu ou  nem fora julgado seu processo, É Óbvio! 

Você que chegou até aqui deve estar se perguntando o que o título deste texto tem a ver  com seu conteúdo: Ordem e progresso, ordem para o povo, para o Zé ninguém, para o  trabalhador, progresso para a Faria Lima, neste caso representado pelo banco ITAU. E o mais  grave, aparelhado pelos tentáculos do estado, pois o banco nada sofreu, Zé Ninguém perdeu a  fé em tudo, inclusive não reconhecendo mais o estado, nem a justiça e outras mazelas do  sistema. 

(*) Professor pelo estado de Minas Gerais por cerca de 14 anos; Biólogo de formação pela  Universidade Estadual de Montes Claros e ainda servidor público como Analista Ambiental na  mesma esfera da federação por 20 anos; Pós graduado em Administração e Manejo de Unidade  de Conservação; Pós Graduado em Perícia e Auditoria Ambiental e Mestre em biotecnologia  com ênfase em recuperação em áreas degradadas em Mata ciliares, escritor e membro efetivo  do Instituto Histórico e Geográfico de uma comuna de Minas Gerais, mas conduzido e preso  pela polícia militar deste estado, jogado dentro de um camburão de uma viatura como um  vagabundo, não a pedido, mas a mando da Faria Lima.

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