Entidade pretende acompanhar o sistema eletrônico de votação e ações de educação eleitoral durante o pleito

O Carter Center decidiu enviar uma equipe de especialistas para acompanhar as eleições brasileiras de outubro, cerca de 20 dias depois de comunicar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que não participaria do pleito de 2026. As informações são do jornal Folha de São Paulo.
A organização, fundada pelo ex-presidente estadunidense Jimmy Carter e por sua esposa, Rosalynn Carter, é a única entidade dos Estados Unidos convidada pela Corte Eleitoral para observar as eleições deste ano.
Segundo pessoas que acompanham o assunto, a missão deverá concentrar sua atuação em dois pontos: o sistema eletrônico de votação e a educação eleitoral. Ao término do trabalho, os especialistas deverão produzir um relatório sobre as duas áreas.
Monitoramento internacional
A decisão ocorre em meio aos esforços do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, para ampliar a presença de observadores internacionais nas eleições. O objetivo, segundo interlocutores do ministro, é aumentar o monitoramento do processo eleitoral diante de possíveis questionamentos sobre os resultados e as urnas eletrônicas.
Em 17 de agosto, Kassio recebeu em Brasília (DF) representantes de dezenas de embaixadas. Na ocasião, afirmou que as missões internacionais de observação “avaliarão a integridade, a eficácia operacional e o cumprimento estrito das normas eleitorais brasileiras”.
O Carter Center não foi citado entre as organizações que participariam do acompanhamento porque, naquele momento, o TSE já havia sido informado de que a entidade não teria condições de enviar uma equipe.
Kassio também afirmou que os observadores poderão acompanhar diferentes fases da eleição. “Neste pleito, tal qual vem sendo feito desde as eleições de 2018, as missões internacionais de observação poderão acompanhar oficialmente diferentes etapas do processo eleitoral, incluindo cerimônias públicas de auditoria, preparação das urnas eletrônicas, votação, apuração e totalização de votos”, disse.
Experiência do Carter Center
Criado em 1982 por Jimmy Carter e Rosalynn Carter, o Carter Center possui experiência na observação de eleições e já organizou mais de cem missões em 40 países.
A entidade também acompanhou as eleições brasileiras de 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou Jair Bolsonaro (PL). Naquele pleito, a missão contou com quatro especialistas e permaneceu no país durante dois meses.
A atuação do grupo contribuiu para a estratégia adotada pelo TSE de recorrer a organizações internacionais para contestar o discurso bolsonarista contra as urnas eletrônicas.
A expectativa para 2026 é que a equipe tenha novamente quatro integrantes. O primeiro turno das eleições está previsto para ocorrer dentro de cerca de seis semanas.
Financiamento limitou atuação
A decisão anterior de não enviar uma missão ao Brasil estava relacionada à situação financeira do Carter Center. Desde o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, a entidade enfrenta os efeitos da redução generalizada no financiamento destinado a agências internacionais de desenvolvimento e cooperação.
Com menos recursos disponíveis, a direção havia decidido concentrar sua atuação em outros processos eleitorais. O Carter Center é financiado por doações de governos, pessoas físicas, empresas, fundações e agências internacionais. Historicamente, os Estados Unidos estão entre seus principais financiadores, por meio da Usaid ou diretamente pelo Departamento de Estado.
Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Bélgica e União Europeia também estão entre os contribuintes da organização. Algumas fundações que tradicionalmente financiavam missões internacionais passaram a priorizar ações emergenciais e humanitárias depois da decisão de Trump de fechar a Usaid.
Outro fator foi a decisão da União Europeia de organizar sua própria missão de observação no Brasil, que participará pela primeira vez de uma eleição brasileira. Como parte dos recursos do Carter Center vem de governos europeus, alguns deles optaram por destinar verbas à missão da UE.
A organização também não pode receber recursos do governo ou de instituições do país em que realiza a observação eleitoral. Além do Carter Center, a OEA e a União Europeia devem estar entre os principais observadores internacionais das eleições brasileiras. Também são esperadas missões da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), da União Interamericana de Organismos Eleitorais (Uniore), da Liga Árabe e do Parlasul.