Em artigo publicado na revista Teoria e Debate, editada pela Fundação Perseu Abramo, a presidenta do Instituto Lula, Ivone Silva, reflete sobre os dez anos do golpe que retirou Dilma Rousseff da Presidência do Brasil

Reprodução Agência Senado

Por Ivone Silva*
Os avanços sociais alcançados no Brasil nas primeiras décadas dos anos 2000, durante os dois mandatos do Presidente Lula e o primeiro governo de Dilma Rousseff, trouxeram esperança, otimismo e a sensação de que, finalmente, nossa democracia estava consolidada. Parecia que os traumas e as mazelas deixados pela ditadura militar estavam, enfim, sendo enfrentados e superados. O país crescia, milhões de brasileiros saíam da pobreza, o mercado de trabalho se aquecia, o Brasil construía, de fato, um futuro mais justo.
Foi nesse contexto que elegemos a primeira mulher Presidenta da história do país. E isso não era pouca coisa. Dilma Rousseff era uma mulher que havia lutado pela democracia durante os anos mais sombrios da ditadura militar, integrado a resistência armada contra o regime, sido presa, barbaramente torturada – e, mesmo assim, sobrevivido. Ela resistiu, reconstruiu sua vida, seguiu lutando por seus ideais, e décadas depois chegou ao posto mais alto da República: Presidenta do Brasil.
Era um símbolo poderoso. Uma mulher que o Estado autoritário havia tentado silenciar pela violência se tornava, agora, a própria representante máxima daquele Estado – democrático e legítimo. Para muitos brasileiros, sua trajetória pessoal se confundia com a própria trajetória do país: de um passado de repressão e silenciamento a um presente de participação, voz e esperança renovada.
Esse simbolismo se traduziu em governo nos primeiros anos da presidência de Dilma Rousseff. Os anos de 2011 e 2012 foram marcados pela continuidade das políticas sociais e econômicas do período Lula, e também pela afirmação de um estilo próprio de governar, mais técnico. Dilma deu sequência a programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, além de lançar o Brasil Sem Miséria, voltado à erradicação da extrema pobreza. A taxa de desemprego seguiu em queda, atingindo patamares historicamente baixos, e o país mantinha o protagonismo internacional, sediando eventos como a Rio+20, em 2012.

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Por outro lado, o período também revelou os primeiros sinais de desaceleração econômica. O crescimento do PIB, que havia sido robusto nos anos Lula, começou a perder fôlego já em 2011 e despencou em 2012, refletindo fatores externos – como os efeitos da crise financeira internacional de 2008 sobre a economia global. Ainda assim, a popularidade de Dilma se manteve elevada ao longo desses dois primeiros anos, sustentada pelos avanços sociais acumulados e por uma economia que, apesar da desaceleração, ainda garantia emprego e renda à maioria da população.

As jornadas de junho de 2013 chegaram como um anúncio do que estava por vir. Naquele momento as coisas ainda não estavam muito claras, poucos perceberam, mas era o início do golpe contra a nossa democracia tomando forma. Começaram como um protesto pontual contra o aumento de vinte centavos na tarifa do transporte público em São Paulo, organizado pelo Movimento Passe Livre. A resposta truculenta da polícia às primeiras manifestações, com uso intenso de bombas e balas de borracha contra estudantes, foi o estopim que levou milhões de pessoas às ruas em centenas de cidades do país. O que era uma pauta específica se transformou rapidamente em um mosaico de reivindicações difusas, sem lideranças claras e sem uma bandeira única.

Foi justamente nessa pulverização de pautas que setores organizados da direita, até então marginais nas ruas, encontraram espaço para se inserir e disputar o sentido dos protestos. Bandeiras nacionais, discursos contra a “corrupção” genérica e pautas anti-partidárias começaram a ganhar destaque, enquanto militantes de partidos e sindicatos eram hostilizados nas manifestações. Esse deslocamento discursivo abriu caminho para uma polarização crescente.

Nesse sentido, muitos analistas e atores políticos identificam em junho de 2013 o momento de gestação de um processo mais amplo, que desembocaria no golpe de 2016. A desconfiança nas instituições, amplificada pela cobertura midiática e pelas redes sociais, criou o terreno fértil para a deslegitimação de governos eleitos e para a naturalização de saídas não eleitorais como resposta a crises políticas.

Foi nesse ambiente já contaminado pela desconfiança na política e nas instituições que a campanha de 2014 chegou – e ela foi um divisor de águas na forma como acompanhei a política deste país. Como sindicalista, eu já estava acostumada ao embate duro, aos ataques de patrões e da mídia contra qualquer mobilização de trabalhadores. Mas assistir aos debates entre Dilma Rousseff e Aécio Neves foi outra coisa: era possível sentir, através da tela, uma carga de agressividade que não se dirigia apenas a um adversário político, mas a uma mulher no poder.

Os ataques de Aécio traziam um tom que ia além da crítica às pautas políticas. Havia uma insistência em pautar posturas, tom de voz, “nervosismo” – adjetivos que raramente se aplicam a candidatos homens em situação semelhante. Para nós, mulheres que estamos nos espaços sindicais, isso não era novidade: sabíamos reconhecer ali os mesmos mecanismos que enfrentamos em assembleias, em mesas de negociação, em ambientes dominados por homens.

O mais angustiante era perceber como esse tipo de discurso encontrava eco. Comentários nas ruas, nas rodas de conversa, repetiam as mesmas ideias: que ela era “despreparada”, “autoritária”, “não sabia ouvir” – enquanto propostas concretas, dados econômicos e projetos de país ficavam em segundo plano diante da disputa por quem parecia mais “equilibrado”. Como mulher, eu enxergava naquilo uma antecipação de algo maior: uma deslegitimação que não era só político-partidária, mas de gênero, e que se aprofundaria nos anos seguintes.

Essa antecipação, infelizmente, não tardou a se confirmar. Dilma venceu a eleição de 2014, mas Aécio Neves já declarava que ela não ia conseguir governar. Aécio e o PSDB chegaram a formalizar uma petição oficial no TSE pedindo a fiscalização integral dos sistemas de votação. Segundo o partido (PSDB), o objetivo não era colocar em dúvida a vitória ou alegar fraude inicial, mas sim acalmar “teorias conspiratórias” levantadas por cidadãos na internet após a apuração. A partir daí, o segundo mandato de Dilma foi se tornando cada vez mais difícil.

Essa contestação foi só o prenúncio do que viria. Como sindicalista, sempre lutei por espaço, por reconhecimento, e via a primeira mulher presidenta do Brasil sendo tratada com uma agressividade que nenhum presidente homem jamais teria sofrido. Não era só oposição política. Chamavam ela de “histérica”, diziam que ela “não tinha jeito para governar”, que era “dura”, “seca”, “sem carisma”. Um homem com o mesmo tom de voz seria “firme”, “decidido”. Em mulher, virava defeito de caráter.

Lembro de charges, memes, comentários em rodas de conversa, críticas que não falavam do trabalho dela, mas da aparência, de estar “sem marido”, ser vista como “mandona” só por exercer o cargo que o povo escolheu para ela. A gente, mulher trabalhadora, sindicalista, sabia reconhecer aquilo porque vivia versões menores da mesma coisa. Só que ali era em rede nacional, contra a pessoa mais poderosa do país – e ainda assim ela era tratada como se precisasse pedir desculpas por existir naquele posto.

Foi nesse terreno de deslegitimação construído desde 2013 que o golpe parlamentar de 2016 finalmente se consumou, colocando Michel Temer no poder. Assim que ele assumiu, em 2016, ficou explícito que a agenda que vinha por trás do golpe não era só sobre “ajustar as contas públicas”. Era uma pauta de retirada de direitos que finalmente encontrou uma janela política para passar, justamente num governo sem voto popular direto e com pouca legitimidade nas ruas.

A Reforma Trabalhista de 2017 foi o símbolo maior disso. Mudou mais de cem pontos da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) de uma vez, numa velocidade que não deu tempo de debate real com a sociedade. Coisas que a gente batalhou para conquistar – hora extra, intervalo de almoço, jornada de trabalho, contribuição sindical obrigatória – viraram “negociável”, “flexível”, sujeitas a acordo individual entre patrão e empregado, como se as duas partes estivessem em pé de igualdade. Qualquer sindicalista sabe que não estão: o trabalhador que precisa do emprego para pagar aluguel não tem o mesmo poder de barganha que o empregador.

O fim da obrigatoriedade da contribuição sindical foi um golpe duro nos sindicatos – não só financeiro, mas político, porque enfraqueceu a capacidade de organização coletiva bem no momento em que ela mais fazia falta. Ao mesmo tempo, cresceram formas precarizadas de trabalho, como o “contrato intermitente”, que na prática deixava o trabalhador sem previsibilidade de renda, sem direitos consolidados, na base da incerteza.

O que mais doía era o discurso que acompanhava tudo isso: vendiam a reforma como “modernização” e “geração de empregos”, como se décadas de direitos trabalhistas fossem o entrave e não a garantia mínima de dignidade. Prometeram emprego e o desemprego seguiu alto por anos; prometeram formalização e a informalidade cresceu. Para quem estava na luta sindical, ficou nítido o padrão: um governo que chegou ao poder por uma via não-eleitoral aproveitou a fragilidade democrática do momento para aprovar, em tempo recorde, uma agenda que jamais teria passagem tão fácil com um Congresso e uma sociedade mobilizados em condições normais.

É preciso voltar, porém, àquele fatídico ano de 2016: em seu discurso ao deixar o Palácio depois do golpe, Dilma Rousseff disse: “Nós voltaremos!”

Nós voltamos, Presidenta! A senhora cravou aquela frase de cabeça erguida, sem lágrima que pudesse apagar a certeza que já estava ali. E hoje, quando eu olho para o Brasil, vejo prova disso em cada gesto.

Nós voltamos quando vejo o Presidente Lula criando políticas voltadas para as mulheres, tratando nossa autonomia econômica e nossa segurança como prioridade de Estado, e não como pauta secundária.

Nós voltamos quando vejo Janja homenageando Dona Marisa, resgatando publicamente a memória de uma mulher que também foi atacada e injustiçada – e que hoje ocupa o lugar de dignidade que sempre mereceu.

Nós voltamos quando vejo o Ministério das Mulheres reconstruído, com orçamento e política pública de verdade, depois de anos em que essa pauta foi tratada como despesa dispensável.

Nós voltamos quando vejo mulheres assumindo ministérios estratégicos, ocupando espaço de decisão que antes era negado a nós como se fosse natureza das coisas, e não escolha política deliberada de quem estava no poder.

Nós voltamos quando vejo a senhora, presidenta, de volta à cena pública, com a voz recomposta, sem precisar pedir licença para existir no espaço político que sempre foi seu por direito.

Nós voltamos quando vejo mulheres trabalhadoras entendendo que a luta daquele momento não foi em vão. Resistir naquele instante era também construir o caminho de volta.

Nós voltamos, presidenta. E dessa vez, voltamos sabendo exatamente o preço que já pagamos – e o quanto ainda vamos lutar para nunca mais precisar pagar de novo.

*Ivone Silva é sindicalista e presidenta do Instituto Lula

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