Mensagens indicam que magistrado já sabia dos problemas do Master antes de reunião de duas horas em instituto fundado por ele em SP

André Mendonça e Daniel Vorcaro. Foto: reprodução

Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam uma articulação de semanas para aproximá-lo do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que culminou em uma reunião reservada em 14 de março de 2025, em São Paulo. O encontro ocorreu no endereço de um instituto fundado pelo próprio magistrado e, segundo os registros de deslocamento do banqueiro, durou aproximadamente duas horas. O material foi obtido pelo jornalista Paulo Motoryn e publicado originalmente na newsletter Noites Húngaras, no Substack.

As conversas mostram que a aproximação foi conduzida principalmente pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), que mantinham contato com Mendonça e atuaram para organizar encontros com Vorcaro.

A articulação começou em 7 de fevereiro de 2025. Naquela tarde, Ciro tentou ligar várias vezes para Vorcaro e, depois das chamadas não atendidas, escreveu: “Opa”, “me liga” e “Tô [com] André M.”.

No dia seguinte, Ciro encaminhou ao banqueiro uma fotografia em que aparecia ao lado de André Mendonça. Segundo a reportagem, a imagem teria sido feita em uma unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, empresa com endereços em Brasília e São Paulo.

Logo depois, o advogado enviou um áudio de seis segundos: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”.

As mensagens não esclarecem qual trabalho Ciro dizia estar realizando para Vorcaro nem se havia algum contrato formal do advogado com o banqueiro, o Banco Master ou empresas ligadas ao grupo. O diálogo mostra, porém, que Ciro apresentava sua proximidade com Mendonça como parte de uma atuação em favor de Vorcaro.

Ciro Rocha Soares é advogado e sócio do escritório Rocha Soares Advogados Associados, em Salvador. Entre 2016 e 2017, foi ouvidor do Ministério do Turismo. As conversas também revelam que a relação entre ele e Vorcaro não era estritamente profissional.

Os dois se tratavam como irmãos e trocavam mensagens de amizade e sobre assuntos familiares. Essa proximidade aparece em uma conversa de 16 de fevereiro, quando Ciro procurou novamente o banqueiro.

Ciro Soares e André Mendonça em alfaiataria. Foto: reprodução

“Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”, escreveu o advogado. Logo depois, acrescentou: “Muito importante sua ida nele junto comigo”.

Vorcaro respondeu com um ponto de interrogação e, posteriormente, sugeriu: “Marca quarta”.

Na mesma sequência de mensagens, Ciro reclamou, em tom amistoso, que Vorcaro havia sido “o único amigo” que não telefonara em seu aniversário. O banqueiro explicou que quase compareceu à comemoração, mas teve um problema envolvendo os filhos.

“Você é meu irmão caçula, meu protegido”, respondeu Ciro. Vorcaro, por sua vez, chamou o advogado de “irmão, anjo da guarda, parceiro, amigo de verdade” e afirmou: “Se não fosse você eu não estaria de pé”.

Conversa entre Ciro Soares e Vorcaro

“Dei uma balançada nele”

Depois da troca de mensagens pessoais, Ciro enviou a Vorcaro um áudio de 1 minuto e 39 segundos em que detalhou sua interlocução com André Mendonça.

O advogado contou que o ministro havia feito uma homenagem a ele durante sua festa de aniversário e citou também a presença do ministro do STF Kassio Nunes Marques e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

“O André Mendonça fez uma homenagem pra mim do caralho no aniversário. O Kassio, o Gonet, puta merda, enfim, foi bacana”, disse.

Em seguida, Ciro voltou ao assunto envolvendo Vorcaro: “O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.”

O advogado não explicou naquele momento o que seria “aquele assunto”. Mais adiante no mesmo áudio, porém, fez referência direta aos problemas enfrentados pelo Banco Master perante o Banco Central.

“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo, me pediu até pra levar o Otto. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha, Cezinha já tinha falado com ele.”

A gravação indica, portanto, que havia ao menos duas linhas de interlocução com Mendonça antes do encontro com Vorcaro: uma conduzida por Ciro e outra por Cezinha de Madureira. Segundo o próprio advogado, os dois já haviam falado ao ministro sobre uma situação envolvendo o Banco Central.

Ciro também disse que iria a Brasília e depois seguiria para São Paulo, onde seria internado no Hospital Sírio-Libanês. Ele propôs encontrar Vorcaro no Banco Master antes da reunião com Mendonça.

“Se quiser, eu passo no banco, a gente conversa”, sugeriu.

Primeira tentativa de encontro fracassou

Em 17 de fevereiro, Ciro voltou a procurar Vorcaro e afirmou que estava saindo de Brasília. “Dani, estou saindo de BSB agora. Estava numa reunião. Preciso falar com você hoje. Podemos marcar às 18h”, escreveu.

Os dois fizeram uma ligação de 18 segundos. Pouco depois, Ciro informou que estava “subindo”, indicando que teria chegado ao local combinado. Às 19h08, enviou outra mensagem: “Cezinha confirmou às 16h de quarta”.

A quarta-feira seguinte era 19 de fevereiro. O conjunto das mensagens indica que Ciro fazia referência a um encontro com André Mendonça que estava sendo organizado para aquele dia.

Conversa entre Ciro Soares e Vorcaro

Na data marcada, o advogado pediu a Vorcaro que Bruno Bianco Leal também comparecesse. Bianco comandou a Advocacia-Geral da União entre agosto de 2021 e janeiro de 2023, sucedendo justamente André Mendonça na chefia da instituição durante o governo de Jair Bolsonaro. Após deixar o serviço público, passou a atuar na iniciativa privada e posteriormente integrou a defesa de Vorcaro.

“Ô, Dani, deixa eu te falar aqui, pede ao Bruno Bianco chegar aqui quatro e meia, pode ser? Que aí a gente faz uma apresentação aqui. Ou quatro e vinte”, disse Ciro em áudio.

A reunião prevista para as 16h, porém, não ocorreu como planejado. A apuração da newsletter conferiu a agenda e os registros da sessão do plenário do STF daquele 19 de fevereiro e verificou que Mendonça estava em Brasília, participando presencialmente do julgamento durante a tarde.

As mensagens não esclarecem se a reunião foi cancelada ou apenas remarcada. Menos de um mês depois, entretanto, uma nova tentativa seria organizada.

Cezinha organiza reunião em São Paulo

Em 13 de março, Cezinha de Madureira procurou Vorcaro e informou que havia marcado um encontro com Mendonça para o dia seguinte.

“Amanhã sexta-feira 17:00 com ministro André em São Paulo”, escreveu o deputado.

Em seguida, enviou o endereço: Alameda Santos, número 647, 16º andar. Vorcaro respondeu: “Show” e depois “Marcado”.

“Estarei lá para te receber”, afirmou Cezinha, que reforçou posteriormente: “Amanhã sexta-feira 14 às 17:00”.

O deputado é uma liderança ligada à Assembleia de Deus do Ministério de Madureira e tem relação próxima com André Mendonça. Sua trajetória política está vinculada à Frente Parlamentar Evangélica e às lideranças da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil.

Nas conversas, Cezinha aparece não apenas como alguém que tinha contato com o ministro. Segundo Ciro, o parlamentar já havia conversado com Mendonça sobre a situação relacionada ao Banco Central. Ele também confirmou a primeira tentativa de reunião em fevereiro e organizou diretamente o encontro de março.

Conversa entre Cezinha Madureira e Vorcaro

“Ministro já está te esperando”

No dia 14 de março, pouco antes das 17h, Vorcaro procurou Cezinha. Às 16h37, escreveu: “Fala amigo”. Três segundos depois, informou: “Estou a caminho”.

Os dois fizeram então uma ligação de 20 segundos.

Às 16h43, Cezinha respondeu ao banqueiro: “Ministro já está te esperando”.

Os registros de conversa entre Vorcaro e seu motorista reforçam o deslocamento até o local indicado. Às 16h30, sete minutos antes de avisar Cezinha de que estava a caminho, o banqueiro encaminhou ao funcionário exatamente o mesmo endereço recebido do deputado: Alameda Santos, 647, 16º andar.

“Descendo”, escreveu Vorcaro.

Em seguida, determinou: “Vamos nesse endereço”.

“Ok dr”, respondeu o motorista.

Às 18h40, Vorcaro voltou a procurar o funcionário e escreveu: “Saindo”.

O cruzamento dos horários indica que o banqueiro permaneceu no endereço por aproximadamente duas horas. Cezinha havia informado que Mendonça já o aguardava e, no dia anterior, afirmara que estaria no local para receber Vorcaro.

As mensagens, dessa forma, registram a realização de ao menos um encontro presencial entre Vorcaro e Mendonça e também indicam a participação de Cezinha na articulação.

Conversa entre Cezinha Madureira e Vorcaro

Reunião ocorreu em endereço de instituto fundado por Mendonça

O encontro não foi marcado na sede do STF, no gabinete de Cezinha de Madureira nem em uma dependência do Banco Master.

No endereço indicado nas mensagens, Alameda Santos, 647, 16º andar, funciona o Instituto ITER, instituição de ensino dedicada à formação e ao aperfeiçoamento profissional e fundada por André Mendonça em 2023.

O conteúdo extraído do celular de Vorcaro não contém ata, gravação ou transcrição da conversa ocorrida naquele endereço. Também não identifica com precisão quem participou de toda a reunião, qual pedido teria sido apresentado ao ministro ou se Mendonça tomou alguma providência depois do encontro.

A utilização de um endereço privado, porém, levanta questões sobre a natureza da agenda, o motivo da reunião e os participantes da conversa.

Ponte entre Cezinha, Mendonça e Vorcaro

Cezinha de Madureira exerce o terceiro mandato de deputado federal por São Paulo e é um dos principais representantes políticos da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira.

A proximidade religiosa e política entre o deputado e André Mendonça ajuda a explicar seu papel de intermediário. Antes de chegar ao Supremo, Mendonça foi pastor presbiteriano e ministro da Justiça e advogado-geral da União no governo de Jair Bolsonaro.

Nas mensagens analisadas, Cezinha aparece como alguém com acesso direto ao ministro. De acordo com Ciro, ele teria falado previamente com Mendonça sobre a situação de Vorcaro perante o Banco Central, participado da tentativa de organizar o encontro de fevereiro e, posteriormente, marcado a reunião realizada em março.

A reportagem original lembra ainda que, em 25 de agosto de 2026, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil na bagagem de mão de Valéria Linhares, advogada e mulher de Cezinha, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Valéria foi assistida pelo advogado Daniel Bialski, que também atua na defesa de Daniel Vorcaro. A coincidência na representação jurídica, isoladamente, não demonstra qualquer relação entre o dinheiro encontrado e Vorcaro ou o Banco Master.

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