Kevin de Carvalho Marques, que é advogado e tem 25 anos, é o único dono do escritório que faturou com serviços prestados à Consult

Além dos pagamentos do Master ao filho, o telefone celular de Vorcaro apreendido pela PF também traz registros de conversas dele com o próprio Kassio Nunes Marques

Uma empresa de consultoria recebeu ao menos R$ 18 milhões do Banco Master e da JBS. Parte dos valores foi repassado ao filho do ministro Kássio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), entre agosto de 2024 e julho de 2025, conforme relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre as movimentações da instituição bancária de Daniel Vorcaro, apontado como líder de uma série de fraudes financeiras.
A revelação foi feita pelo “Estadão” em reportagem publicada nesta quinta-feira (19/3). Pagamentos foram feitos ao escritório do advogado de Kevin de Carvalho Marques, de 25 anos, filho de Nunes Marques. Kevin afirmou que o pagamento é lícito, fruto do exercício regular da advocacia “voltada ao fisco administrativo”. O ministro não comentou.
Com base nos documentos do Coaf, o banco de Daniel Vorcaro enviou R$ 6,6 milhões à Consult. A JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, outros R$ 11,3 milhões. Os pagamentos correspondem ao total do que foi recebido no período analisado pelo Coaf pela empresa do filho do ministro do STF, que declarou faturamento de R$ 25,5 mil.
Os valores levaram o Coaf, órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, a classificar as transações como “incompatíveis com a capacidade financeira” da empresa, “indicando que alguns dos valores podem ter origem não formal”.
Ou seja, o documento aponta que o entra e sai de dinheiro não bate com o volume movimentado até ali e que os altos repasses repentinos poderiam representar uso da firma apenas para passagem de recursos, como explica o “Estadão”.
Entre os pagamentos feitos pela consultoria no período, levantados pelo Coaf por amostragem, foram identificados 11, que totalizam R$ 281.630, a Kevin Marques. Ele é o único dono do escritório de advocacia, segundo registros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
No site sobre sua atividade que foi retirado do ar, Kevin se apresentava no ano passado como advogado “com um ano de experiência na OAB”. “Tenho me dedicado a entender profundamente as complexidades do sistema tributário brasileiro, buscando soluções eficientes e personalizadas para cada cliente”, dizia o texto de apresentação.
Em nota ao “Estadão”, a JBS disse que “como toda grande empresa brasileira que lida com a complexidade do sistema tributário nacional”, contrata consultores “para apoiar sua atuação nessa área, entre eles a Consult Inteligência Tributária”. O Master foi procurado, mas não comentou.
O escritório de Kevin de Carvalho Marques, por sua vez, afirmou que o pagamento citado é lícito e decorrente do exercício regular da advocacia. “A atuação para a empresa mencionada foi voltada ao fisco administrativo”, afirmou.
Em nota, pontuou ainda que o filho do ministro do STF “nunca defendeu nenhum caso” na Suprema Corte e rechaçou o que chamou de “tentativas de criminalização da advocacia e de interferência no sigilo profissional”.
Kevin Marques tornou-se um dos procuradores da Refit, a antiga Refinaria Manguinhos, no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). O pai dele era desembargador deste tribunal quando foi escolhido, em 2020, pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL) para uma cadeira no STF.
A Consult Inteligência Tributária foi aberta em 2022 por Francisco Craveiro de Carvalho Junior, um empresário e contador de Teresina (PI) — cidade natal do ministro Nunes Marques. A empresa tem endereços em Barueri (SP) e Brasília (DF).
Em nota ao “Estadão”, a Consult afirmou que a empresa foi criada há quatro anos para “expandir o atendimento às regiões Sul e Sudeste”, mas que o grupo atua desde 2004, com outro CNPJ, atendendo mais de 300 empresas.
Sobre os pagamentos feitos por Master e JBS, a empresa de Craveiro Junior disse que “prestou serviços de auditoria e consultoria tributária, bem como de desenvolvimento e implantação de sistemas destinados à execução e ao processamento de dados para fins de auditoria tributária, além de serviços de migração de dados às empresas desses grupos”.
Em novembro de 2025, após os pagamentos de Master e JBS, Craveiro se retirou da empresa e a repassou a um irmão. Na saída, negociou o recebimento de R$ 13 milhões da divisão de lucros, que serão repassados em três parcelas até 2028. No último dia 6 de março, ele voltou a ser sócio da empresa.
Segundo a Consult informou ao “Estadão”, a saída temporária “fez parte de um processo de reorganização societária do grupo”. A reportagem perguntou à Consult quais os serviços de Kevin Marques que contratou e o porquê da escolha do filho do ministro do STF.
A empresa disse somente que o valor pago ao advogado era por uma “prestação de serviços técnicos e de assessoria jurídica para a Consult, entre 2024 e 2025″.
Dono da Consult, Craveiro Junior tem pelo menos outras duas empresas: uma administradora de imóveis, aberta em 2025, em Teresina, e uma consultoria de informática, aberta em 2021, em São Paulo.
Nunes Marques conversava com Vorcaro
O “Estadão” lembrou que, além dos pagamentos do Master ao filho, o telefone celular de Vorcaro apreendido pela PF também traz registros de conversas dele com o próprio Kassio Nunes Marques.
Procurado, Nunes Marques disse que “não possui relação de proximidade com o senhor Daniel Vorcaro e não se recorda de troca de mensagens”.
Os dados da agenda de contatos de Vorcaro identificam que o telefone de Nunes Marques foi salvo em junho de 2024, sob o nome “Min Kassio Nunes”. O número corresponde efetivamente ao celular usado pelo ministro. Também foram encontradas conversas entre eles no aparelho celular do banqueiro.
De acordo com fontes com acesso às informações, esses diálogos tinham teor “superficial” e mostram que o ministro e Vorcaro se conheciam e já se encontraram. As conversas, segundo essas fontes, não indicavam uma intimidade nem suspeitas de irregularidades na relação entre eles.
No fim de novembro, quando a defesa de Vorcaro pediu que a investigação sobre o Banco Master fosse remetida ao STF, os advogados haviam solicitado que o caso fosse distribuído diretamente ao ministro Nunes Marques. Na ocasião, porém, a Presidência da Corte entendeu que a distribuição deveria ser feita por sorteio e o processo acabou ficando com o ministro Dias Toffoli.

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