Após a reunião que confirmou a saída de Dias Toffoli da relatoria do caso envolvendo o Banco Master, ministros do Supremo Tribunal Federal relataram um ambiente interno marcado por desconfiança e avaliaram que o presidente da Corte, Edson Fachin, se encontra politicamente isolado dentro do tribunal. 

Segundo relatos, o episódio aprofundou tensões já existentes entre os integrantes do colegiado.Pelo menos quatro ministros manifestaram insatisfação com a condução adotada por Fachin ao dar seguimento a um relatório produzido pela Polícia Federal que mencionava um membro do próprio Supremo. Para esses magistrados, o documento deveria ter sido arquivado de forma imediata, sem prosperar como arguição formal, uma vez que não houve supervisão judicial prévia.
Durante a conversa reservada realizada na quinta-feira, Fachin teria insistido em mais de uma ocasião para que a arguição de suspeição contra Dias Toffoli fosse levada a julgamento em plenário já na sexta-feira seguinte. A postura foi recebida com forte resistência por parte de colegas, que avaliaram a iniciativa como uma exposição pública indevida de um ministro da Corte.
Na avaliação de integrantes do tribunal, submeter um ministro a esse tipo de julgamento imediato equivaleria a lançá-lo à pressão pública, situação considerada incompatível com a expectativa institucional em relação ao papel do presidente do STF. A percepção dominante foi a de que caberia à presidência agir para preservar o colegiado em um momento sensível.
A petição apresentada pela Polícia Federal sugere hipóteses criminais envolvendo Toffoli no contexto das investigações sobre o Banco Master. O Supremo autuou o documento como arguição de suspeição, e Fachin solicitou manifestação formal do colega citado. Embora a nota pública divulgada após a reunião tenha sido assinada por todos os ministros, sinalizando unidade externa, os debates internos revelaram divisões claras.
Segundo relatos, formaram-se dois polos distintos: de um lado, Fachin e a ministra Cármen Lúcia; de outro, os demais integrantes do tribunal. Para esses ministros, o isolamento do presidente se agrava pela ausência de garantias de que ele adotará postura de defesa institucional dos pares diante de eventuais novas crises, especialmente em um ano eleitoral.
Auxiliares de Fachin, por sua vez, argumentam que o presidente reconhece a importância do chamado espírito de corpo no Supremo, mas ressaltam que a agenda de ética é prioridade absoluta de sua gestão. Na visão do entorno do ministro, ignorar o relatório da Polícia Federal seria inviável, dado o potencial explosivo do conteúdo, classificado como extremamente sensível.
A reunião resultou em um acordo político interno. O Supremo divulgou uma nota reafirmando a integridade de Toffoli e a validade de todos os atos por ele praticados até então. Em contrapartida, o ministro optou por deixar a relatoria do processo, justificando a decisão pelo interesse institucional e pelo bom andamento dos trabalhos da Corte.
O desgaste de Fachin com parte dos colegas, no entanto, não se restringe ao episódio do Banco Master. Antes disso, o presidente já havia enfrentado resistência ao propor a elaboração de um código de conduta para os ministros do STF, inspirado no modelo do Tribunal Constitucional Federal da Alemanha.
A proposta prevê, entre outros pontos, a divulgação obrigatória de valores recebidos por ministros em razão da participação em eventos e palestras. Embora tenha recebido apoio de presidentes de outros tribunais superiores e de ex-presidentes do Supremo, a iniciativa encontrou oposição interna, sobretudo dos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.
O vazamento de trechos da reunião reservada também contribuiu para aprofundar o clima de desconfiança. Segundo um ministro ouvido pela Folha de S.Paulo, a divulgação de falas literais evidenciou que o STF atravessa um momento de fragilidade e falta de coesão.
A reunião contou apenas com a presença dos dez ministros, sem assessores. Fora de Brasília, Luiz Fux e André Mendonça participaram por videoconferência, enquanto os demais estiveram reunidos presencialmente no gabinete da presidência, em um encontro considerado decisivo para a atual dinâmica interna da Corte.

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