
Apesar de 30 partidos registrados, poder político no Brasil se concentra na mão de poucas siglas
Jogo político é comandado por um grupo de sete partidos, que detêm maior número de mandatos, recursos Embora o Brasil tenha 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o jogo político é disputado por um grupo mais restrito de legendas. São elas que concentram a maior parte das cadeiras no Congresso Nacional, comandam governos estaduais, prefeituras, bancadas robustas nas assembleias legislativas e câmaras municipais — e, principalmente, ficam com a maior fatia das bilionárias verbas eleitorais e do Fundo Partidário. Na prática, o sistema funciona como um funil: muitos partidos existem formalmente, mas poucos têm musculatura política para influenciar decisões nacionais. Entre os chamados “gigantes”, estão siglas como PT, PL, União Brasil, PP, PSD, MDB e Republicanos, que dominam o tabuleiro institucional e financeiro da política brasileira.A concentração de poder entre essas siglas se explica, em grande parte, pelo acesso aos recursos públicos. Para este ano, estão previstos R$ 4,9 bilhões no Fundo Eleitoral. A divisão desse dinheiro segue critérios legais que favorecem partidos com maior representação no Congresso. Na prática, grandes partidos recebem mais recursos, fazem campanhas mais competitivas e ampliam ainda mais seu domínio sobre o sistema político. O PT, hoje sob o comando de Edinho Silva, concentra sua estratégia na força eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se prepara para tentar um quarto mandato no Palácio do Planalto. Além do projeto presidencial e do esforço para ampliar sua presença, sobretudo no Senado, a legenda atua para preservar o controle de estados simbólicos, especialmente no Nordeste. No Ceará, por exemplo, o partido se articula para preservar sua hegemonia local, apostando na reeleição do governador Elmano de Freitas e no retorno de Camilo Santana ao campo político, após deixar o Ministério da Educação, para coordenar o enfrentamento a Ciro Gomes (PSDB), que busca se reposicionar ao flertar com o eleitorado bolsonarista. Do outro lado da arena política, o PL, presidido por Valdemar Costa Neto, trabalha para reorganizar suas bases em torno do senador Flávio Bolsonaro (RJ). O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro busca superar resistências internas e ampliar alianças visando o Palácio do Planalto, enquanto parte da direita defende que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), seria um nome mais competitivo para enfrentar Lula, por reunir um perfil considerado mais “moderado”. Já o PSD, sigla que mais elegeu prefeitos em todo o país em 2024, mantém uma estratégia aberta para a sucessão presidencial. O partido flerta com o lançamento do governador do Paraná, Ratinho Júnior, enquanto o presidente da legenda, Gilberto Kassab, avalia o tabuleiro. Nesta semana, inclusive, Kassab endossou um vídeo em que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, também filiado ao PSD, mostra disposição para entrar na disputa. O União Brasil, hoje sob a presidência de Antonio Rueda, atua em parceria com o PP, comandado por Ciro Nogueira, em uma federação partidária poderosa, que soma tempo de televisão, recursos e influência regional. Juntos, os dois partidos detêm uma das maiores bancadas do Congresso – com 123 cadeiras – e mais de 1,3 mil prefeitos pelo país. O MDB, presidido por Baleia Rossi, mantém sua tradição no xadrez político: raramente lidera projetos nacionais, mas quase sempre é indispensável para sustentá-los. Já o Republicanos, comandado por Marcos Pereira, abriga em seus quadros um dos nomes mais competitivos da política atual, Tarcísio de Freitas, e avança ancorado em bases conservadoras e em uma sólida presença municipal. Fora do grupo dos grandes, há os partidos médios e os chamados “nanicos”. As legendas em prateleiras com menos lugar ao sol, para sobreviver, atuam em coligações ou funcionam como siglas de aluguel — ainda que, formalmente, tenham os mesmos direitos de existência no TSE. O objetivo é superar a cláusula de barreira e, assim, assegurar acesso a recursos públicos. A formação de um partido, aliás, passa por um caminho longo: começa com a criação de um programa e estatuto, coleta de assinaturas em ao menos nove estados, validação dos apoios pela Justiça Eleitoral e, só então, o registro definitivo. Existir, no entanto, é diferente de ter poder. Sem votos e bancadas, a legenda até entra no sistema, mas fica à margem das grandes decisões. No pano de fundo, os palanques estaduais seguem em construção, marcados por incertezas e negociações que dependem dos arranjos nacionais. Alianças fechadas em Brasília nem sempre se reproduzem nos estados, e disputas locais podem embaralhar projetos presidenciais. Enquanto as peças se organizam no jogo, os brasileiros se preparam para ir às urnas em 4 de outubro. Caso seja necessário segundo turno para cargos que o preveem, como presidente da República e governadores, uma nova votação está marcada para 25 de outubro de 2026.




