Além dos quilombos que já existiam, uma das primeiras ocupações urbanas foi na Rua Sapucaí, no Centro da cidade

Por Amélia Gomes – Brasil de Fato

Nesta segunda, 12 de dezembro, Belo Horizonte completa 125 anos. A capital mineira foi planejada e construída para ser a sede do estado e também um símbolo do regime republicano. Mas, o que havia nestas terras antes da capital? Quem ocupava o território?

A historiadora e pesquisadora do tema Michele Arroyo explica que a cidade, antes uma vila conhecida como Freguesia do Curral Del Rey, funcionava como um ponto de passagem, apoio e pouso para os que transitavam entre as regiões mineradoras do estado, como Nova Lima, Mariana, Ouro Preto, Congonhas e Sabará, que era a comarca a qual o Curral Del Rey estava vinculado.

Também por causa da vocação mineradora, Minas Gerais recebeu parte significativa dos trabalhadores negros escravizados enviados ao Sudeste do Brasil. A maioria dessa população era remanejada para as minas ou lavouras do estado. Belo Horizonte era um dos territórios responsáveis pelo fornecimento de alimentos na região e, por isso, destino de muitos desses trabalhadores.

Reflexo disso é que em 1872, 77% da população do Curral Del Rey, era negra ou mestiça, o que representava um contingente de 5 mil habitantes. Estima-se que entre esses, 400 eram pessoas escravizadas.

“Vale lembrar que a partir de 1888 houve um fluxo muito grande para Belo Horizonte de trabalhadores, antes escravizados, que vieram à procura de emprego, sobretudo para ajudar na construção da cidade”, ressalta a pesquisadora.

Os que aqui já estavam

Um dos locais mais antigos de Belo Horizonte é a Pedreira Prado Lopes. Há indícios, de que nos tempos do Curral Del Rey, a comunidade era um quilombo que foi se constituindo, sobretudo por causa de sua localização estratégica na rota de circulação do vilarejo. Com a construção da capital, os moradores foram expulsos para que fosse feita a extração de pedras na região, matéria-prima na fundação da cidade. Apesar disso, muitos resistiram e reocuparam o território e, por isso, a comunidade é nomeada dessa forma e é também uma das periferias mais antigas da cidade.

Além da Pedreira, outros dois quilombos também já existiam antes mesmo da construção da cidade: Mangueiras e Luízes. O primeiro é localizado na divisa de Belo Horizonte com Santa Luzia e foi fundado na segunda metade do século 19 por um casal de lavradores. O segundo, fica onde hoje é uma das regiões centrais de capital, o bairro Grajaú.

O Luízes foi fundado pelos descendentes do casal Nicolau Nunes Moreira e Felicíssima Angélica de Jesus, que adquiriram a antiga fazenda de Piteiras. Com a expansão da cidade, o terreno do quilombo foi invadido por construtoras e órgãos municipais. A quilombola Miriam Aprígio, afirma que hoje resta apenas 10% do território conquistado por seus antepassados.

“A urbanização e a especulação imobiliária dizimaram quase que a totalidade do nosso território, levando também as possibilidades de manutenção das nossas tradições, de preservação do nosso legado e da nossa cultura”, se revolta Miriam, que também é historiadora.

Os dois quilombos são reconhecidos como patrimônio imaterial de Belo Horizonte, no entanto, os ainda lutam pela proteção nacional.

Primeiras ocupações

Além dos quilombos, uma das primeiras ocupações urbanas da nova capital, aconteceu na Rua Sapucaí, no Centro. Por sua proximidade com a Praça da Estação, principal ponto de trânsito na cidade, muitas pessoas, que migravam para Belo Horizonte, na esperança de conseguir um emprego e melhorar de vida, começaram a se aglomerar nesse logradouro, formando posteriormente uma espécie de ocupação urbana, denominada como “Alto da Estação”, fenômeno que também aconteceu em outros pontos da cidade, como na parte de trás do Palácio da Liberdade.

Essas comunidades posteriormente também foram expulsas da região central.

Revisitando a história

Um importante passo contra o apagamento estrutural da população negra fundadora de Belo Horizonte tem sido a revisitação da história da cidade, utilizando não só os registros oficiais.

Atualmente, pesquisas arqueológicas, registros orais e outros tipos de documentação são peças importantes na reconstrução da história da cidade.

Uma das conquistas já alcançadas com isso foi o reconhecimento do Largo do Rosário, território sagrado da comunidade negra, que guardava a Capela de Nossa Senhora do Rosário e o Cemitério da Irmandade dos Homens Pretos.

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