Na semana passada, Zema foi a Brasília para pressionar o governo Lula e o Congresso Nacional contra a votação da PEC da Reforma Tributária. A medida foi aprovada. Para piorar, a bancada federal mineira, por 39 votos a 13, votou a favor da PEC. Fotos: Sérgio Lima/Poder 360, reprodução/TV Câmara e reprodução/Sind-ute/MG

Por Ângela Carrato*
A maré mudou. Acostumado com vitórias, a começar pela eleição e reeleição em primeiro turno para governador, Romeu Zema, que de Novo não tem nada, anda meio desconcertado. É que nos últimos tempos, tudo tem dado errado para ele.

Mesmo tendo ido a Brasília, na última semana, para pressionar o governo Lula e o Congresso Nacional contra a votação da PEC da Reforma Tributária, a medida foi aprovada com ampla margem favorável.

Pior ainda: Zema amargou derrota específica, uma vez que a bancada federal mineira, por 39 votos a 13, aprovou a medida.

Zema, como sempre, tentava jogar para a plateia, se colocando como oposição ao governo Lula e tentando capitalizar politicamente de olho nas eleições presidenciais.

No entanto, quem acabou capitalizando, no âmbito da oposição, foi o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, por se afastar das posições extremistas de direita do ex-presidente Jair Bolsonaro, com quem brigou publicamente.

Zema ficou sem saber o que fazer. Com Bolsonaro inelegível e, a julgar pelas dezenas de processos que o aguardam no âmbito da justiça Cível e Criminal, a caminho da prisão, Zema ainda pensa em ser seu herdeiro político. O problema é que Bolsonaro não o vê e, menos ainda, o quer como tal.

Diante desta situação, Zema deve estar avaliando o erro que cometeu ao apoiar Bolsonaro na eleição passada.

Outro erro que poderia ter evitado é o de hostilizar, sem qualquer motivo a não ser jogar para os fanáticos bolsonaristas, o governo Lula no episódio dos atos golpistas de 8 de janeiro.

Uma semana após esses episódios, em entrevista a uma rádio do Rio Grande do Sul, Zema declarou que o governo federal pode ter feito “vista grossa” para os atos de vandalismo, torcendo para que acontecesse o “pior”, para que pudesse posar de “vítima.”

A fala sem qualquer base na realidade custou ao governador de Minas interpelação por parte do STJ, que o acusa por “calúnia” ao dizer que autoridades teriam obtido ganhos políticos com o 8 de janeiro.

O interrogatório ainda não aconteceu, mas a situação de Zema se complica na medida em que as duas CPIs, a da Câmara Distrital de Brasília e a do Congresso Nacional, avançam e deixam claro como os cidadãos que depredaram a Praça dos Três Poderes estão longe de serem apenas pessoas comuns.

Em sua maioria estavam ali cumprindo roteiro planejado e financiado pela extrema-direita, civil e militar, incluindo setores do agronegócio de Minas Gerais.

Zema não sabia de nada?

É no âmbito estadual, no entanto, que a situação de Zema se mostra mais complicada. Ele não tem maioria na Assembleia Legislativa, uma vez que seu partido, o Novo, elegeu apenas dois deputados.

Dito de outra forma, para aprovar medidas do seu interesse, precisa negociar com uma série de agremiações, a começar pelo PL de Bolsonaro.

No primeiro mandato, essas negociações funcionaram, uma vez que o alinhamento a Bolsonaro lhe dava tranquilidade nas votações. Com o ex-capitão fora do jogo político, a tendência desses parlamentares é de procurarem se aproximar de outro centro de gravidade.

A votação da bancada federal mineira no episódio da Reforma Tributária dá uma boa mostra de como o novo centro de poder está se constituindo em torno do presidente Lula.

Outra vez, Zema perdeu e vai continuar perdendo, especialmente agora que depende do governo federal para renegociar a dívida de Minas Gerais.

Esse episódio, aliás, merece um olhar cuidadoso, pois tem sido alvo de muita distorção e desinformação por parte da mídia e do próprio Zema.

Ao longo do primeiro mandato, Zema jogou nas costas de seu antecessor, o petista Fernando Pimentel, a responsabilidade pelo alto endividamento e pelas finanças de Minas Gerais estarem desorganizadas, tachando-o de mau gestor, a ponto de atrasar o pagamento do funcionalismo público.

Essa conversa acabou colando para quem depende de salário. Depois de trabalhar o mês inteiro, o funcionário ou funcionária quer receber e não discutir o motivo pelo qual seu pagamento está atrasado.

O problema é que Zema mentiu para o funcionalismo.

Pode-se e na minha visão deve-se criticar politicamente Pimentel pela sua inexplicável aliança com o então governador tucano Aécio Neves, que redundou na escolha de Márcio Lacerda para a Prefeitura de Belo Horizonte, em 2008.

Escolha que acabou atingindo duramente o PT e os setores progressistas da política mineira.

Mas se Pimentel errou politicamente, do ponto de vista da gestão ele estava certo.

Ao contrário de Zema, que se beneficiou do alinhamento a Bolsonaro durante seu primeiro mandato, Pimentel administrou em situação adversa, em meio ao golpe de estado que derrubou a presidente Dilma Rousseff em 2016, e enfrentando a oposição aberta do vice que assumiu o Palácio do Planalto, Michel Temer.

Temer e setores da Justiça na época fizeram de tudo para prejudicar a administração de Pimentel. Como se não bastassem a perseguição de que ele e sua família foram vítimas, repasses devidos do governo federal para o estado foram suspensos.

Isso, somado à situação quase falimentar que os tucanos deixaram Minas Gerais, explica a crise que Pimentel enfrentou e que culminou no atraso do pagamento do funcionalismo.

Aqui vale enfatizar que Pimentel errou igualmente ao não ter, nos primeiros dias de sua administração, divulgado o resultado da auditoria independente que contratou para fazer a radiografia de como estava recebendo o Estado.

Zema sabia e sabe disso e mesmo assim continuou mentindo e atacando Pimentel através de pronunciamentos e de posts em suas redes sociais, especialmente durante as últimas eleições.

O caso está na Justiça e em algum momento o atual governador de Minas terá que se explicar.

Se esse é um problema a médio prazo para Zema, questões urgentes o aguardam. Em menos de uma semana, o governador mudou várias vezes o seu secretário de Governo.

Exonerou Igor Eto, devido à insatisfação com a atuação dele junto aos parlamentares, e nomeou interinamente o adjunto Juliano Fisicaro Borges para o cargo.

Depois, acabou escolhendo seu próprio líder na Assembleia Legislativa, Gustavo Valadares, para o cargo.

Ao trocar seis por meia dúzia, Zema deixa claro que o problema envolvendo os parlamentares não diz respeito a nomes. A insatisfação é com ele.

Na última quinta-feira, o Tesouro Nacional enviou ofício ao governo de Minas informando sobre o descumprimento da obrigação contratual de aderir ao programa de Acompanhamento e Transparência Fiscal, um dos requisitos para a adoção do Regime de Recuperação Fiscal.

Em função disso, o Tesouro vai anular os contratos de refinanciamento da dívida do estado com a União, bem como cobrar de imediato uma multa de R$ 16,6 bilhões.

Através de nota, o governo Zema informou que vai buscar reverter a decisão na Justiça, alegando que se essa cobrança for levada a cabo, o Estado sofrerá um colapso nas contas públicas. A dívida de Minas com a União é estimada em R$ 160 bilhões e, obviamente, não foi feita por Pimentel.

A discussão sobre essa dívida tem tudo para permitir que a verdade sobre as finanças mineiras venha a público.

Quem se lembra que o tucano Aécio Neves, anunciou, através de milionária campanha publicitária, que havia, zerado o déficit de Minas?

Quem se recorda que o também tucano Antônio Anastasia garantiu que deixava as finanças do Estado completamente em ordem?

O próprio Zema não se cansou de afirmar, na campanha pela reeleição, que, com ele, tudo ia bem, falando até um superávit orçamentário de R$ 2,2 bilhões?

Pelo visto, Zema há muito falta com a verdade.

Se recuarmos no tempo, o último governador que priorizou efetivas ações de desenvolvimento econômico e de preocupação com as finanças foi Francelino Pereira, que administrou o estado no apagar das luzes da ditadura (1979-1983).

Os que o sucederam não fizeram praticamente nada nestes setores.

Tancredo Neves deixou uma importante obra política ao eleger-se como primeiro civil para a presidência da República, depois de 21 anos de governos militares, mas nenhum legado em termos de desenvolvimento para Minas Gerais.

Hélio Garcia que o sucedeu, acabou ficando com a pesada tarefa de pagar as dívidas de campanha de Tancredo para a presidência da República, a maioria delas contraídas junto aos bancos oficiais mineiros.

Newton Cardoso não tinha competência técnica e nem capacidade política para governar.

Eduardo Azeredo, na fracassada tentativa para reeleger-se, meteu-se na lambança do Mensalão Tucano, para o qual a Justiça fez vistas grossas e a mídia também. Mas a conta dos desmandos sobrou para a população.

Itamar Franco tinha projeto, mas acabou sabotado pelo então presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, de quem se tornou inimigo.

É preciso creditar a Itamar o mérito de ter resistido e impedido a privatização da Cemig, como queria FHC, e ter mandado a Polícia Militar cercar a hidrelétrica de Furnas.

O grande erro de Itamar foi o de ter ouvido o canto da sereia do amigo Aécio Cunha, que o convenceu que o ideal para a sua sucessão, já que ele não tinha pretensão de candidatar-se à reeleição, seria apoiar seu filho, Aecinho.

Data dessa época, inclusive, o imbróglio envolvendo a situação das estradas de rodagem mineiras. A exemplo de Pimentel, Itamar também estava sendo boicotado pelo governo federal.

Como presidente da Câmara dos Deputados na época, Aécio Neves se dispôs a ajudar. Aécio fez as pazes entre Itamar e FHC, que foi recebido com tapete vermelho no Palácio da Liberdade. Em recompensa, se tornou o candidato de Itamar à sucessão.

Detalhe: com o estado sufocado pelo governo federal, Itamar estava prestes a ter que atrasar o pagamento do funcionalismo e a não pagar o 13º salário.

Como Aécio queria iniciar o governo sem maiores problemas, negociou com FHC a antecipação de recursos destinados à recuperação das rodovias mineiras e com eles resolveu o problema do pagamento do funcionalismo.

Esta é a razão pela qual as entradas mineiras estão na condição deplorável em que se encontram, pois uma vez no governo, Aécio não falou mais do assunto. Preferiu, numa jogada visando à presidência da República, tentar dar uma de Juscelino Kubitschek e construir a Cidade Administrativa.

A diferença é que a Cidade Administrativa é um elefante branco, sem qualquer necessidade ou utilidade.

Em se tratando da dívida de Minas, qual será a porcentagem que esta construção representa?

É incrível como esse assunto não é sequer mencionado pela maioria dos parlamenteares mineiros e, menos ainda, pela mídia regional ou nacional.

Não dá, por outro lado, para Zema continuar se passando por “mineirinho caipira” e ir cuidando apenas dos seus interesses pessoais e políticos.

Não dá para engolir que seja questão puramente técnica ter garantido a si próprio e aos seus auxiliares um reajuste de quase 300%, enquanto não paga o piso salarial dos professores e o reajuste para a categoria ficou em 12, 84%.

Não dá para aceitar que seja também critério técnico, o gasto de R$ 41,2 milhões em obras para reformar e asfaltar uma estrada de 107 km, que liga Araxá, sua cidade natal, ao rancho de sua família, na divisa com São Paulo.

Em Minas Gerais, praticamente todas as estradas estão exigindo reformas e conservação, a começar pela MG 040, que liga Belo Horizonte ao aeroporto Internacional de Confins, que deveria ter prioridade por ser o cartão de visitas do estado.

Mas Zema, bem no estilo patrimonialista de Aécio Neves, que fez um aeroporto com dinheiro público na fazenda do titio, prefere privilegiar os próprios interesses.

Ele fez isso também com o dinheiro da mineradora Vale, que deveria ter sido destinado aos atingidos pelo crime humano-ambiental em Brumadinho, e acabou servindo para fazer política junto aos 853 prefeitos mineiros.

Na eleição passada, também não faltou o trem pagador passando regularmente para garantir que a mídia corporativa tecesse elogios e falasse só coisas positivas sobre o “eficiente” governador.

Agora, sem dinheiro, ele quer dar uma de gerente da Eletrozema, rede de lojas de sua família, e vender todo o patrimônio mineiro, pouco importando com o que aconteça depois.

Quando estava no Palácio do Planalto, Bolsonaro agiu exatamente assim, certo que ficaria no poder indefinidamente. Naquela época, Zema podia até se sentir confortável e tranquilo.

Agora, não mais. A hora da verdade chegou também para ele.

*Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.

Publicado originalmente no Viomundo

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