Foto aérea da Casa de Cultura: em formato de oca, foi edificada para fortalecer tradições do povo Xakriabá

Muito antes do descobrimento do Brasil, a arte estava presente na essência dos primeiros habitantes do território. Na atualidade, o país tem cerca de 300 etnias indígenas, diferindo entre si pelos costumes estampados em cores, adornos e ritos. Para mergulhar nesse universo onde impera a ancestralidade, O NORTE fez várias incursões às terras do Povo Xakriabá, no Alto Médio São Francisco.

Na primeira de duas reportagens especiais retratamos a Casa de Cultura Xakriabá, na Aldeia Sumaré, construída para resgatar e fortalecer costumes e tradições desse que é o maior grupo étnico de Minas Gerais, segundo a UFMG com mais de 10 mil indígenas distribuídos em 37 aldeias. Igualmente, enfoca a cerâmica trabalhada pelas mãos de Nei Leite Xakriabá, da Aldeia Barreiro Preto, pós-graduado em Artes pela Escola de Belas Artes da UFMG.

Resgate de tradições

Para fortalecer o conjunto das estruturas sociais, religiosas e artísticas da maior nação indígena de Minas, em 2004 foi proposta a criação, na Aldeia Sumaré I, da Casa de Cultura Xakriabá. Isso, graças à celebração de diversas parcerias, entre as quais a UFMG, Associações Indígenas e a Província de Modena, que participou com o financiamento através da Emília Romagna, situada no Norte da Itália.

A edificação, em formato de oca, com cobertura em palha de buriti desenhando um cocar (adorno de pena usado na cabeça), no dizer do cacique Domingos Nunes de Oliveira, “abriu espaço para que as lideranças das diversas aldeias promovessem mais ainda o repasse de técnicas de artesanato dos mais velhos aos mais jovens, que já ocorria de geração a geração entre o Povo Xakriabá”. Mais ainda, todo o processo de construção da Casa de Cultura, onde os indígenas celebram seus rituais, foi trabalhado com os professores de artes e cultura da etnia, com interação do Curso de Formação Intercultural de Professores Indígenas, da UFMG.

Ao mesmo tempo, a parceria possibilitou a construção de três casas de artesanato dentro do seu território, erguidas tanto na Aldeia Sumaré, como nas Aldeias Pedra Redonda e Riacho dos Buritis, nas quais é reservado espaço para as atividades de resgate da tradição artesanal e costumes. Na verdade, conjunto de ações objetivando o reconhecimento da sua identidade étnica e valorização da sua cultura, através do resgate e revigoramento de diferentes tipos de habilidades.

“Uma das mais originais do país”

Durante três dias, O NORTE acompanhou equipe do Minas Indígena, do governo do Estado, em incursão na Terra Indígena Xakriabá. A ação teve como objetivo assegurar aos indígenas de suas diversas aldeias o acesso à Carteira Nacional do Artesão, através de parceria com o Programa Brasileiro de Artesanato.

Cerâmica do povo Xakriabá (ANA GOMES
Cerâmica do povo Xakriabá (ANA GOMES)

 É que, segundo a diretora do programa, engenheira civil Adélia Maia, “a arte indígena de Minas é considerada uma das mais originais do país, despertando o interesse nacional e internacional”.

No seu modo de pensar, Adélia Maia, que responde por diversas ações do governo de Minas no território Xakriabá, “o artesanato para os indígenas vai muito além da produção para se ter um retorno financeiro, pois retrata uma expressão própria, passada e aperfeiçoada de geração a geração”.

Opinou que “na Terra Indígena Xakriabá temos uma coletânea de artes únicas, produzidas por integrantes de quase todas as famílias, a rigor diferentes técnicas que abrangem múltiplos materiais, como, por exemplo, penas, sementes, argila, folhas, madeira e osso”.

Explicou a diretora do Minas Indígena que “mesmo o conhecimento sendo recebido por transferência ancestral, a criatividade é nitidamente perceptível em cada peça, em cada arte”.

E lembrou que “muitas delas, principalmente as cerâmicas, combinam a arte tradicional com expressões típicas do Cerrado norte-mineiro em diferentes e belas matizes”.

Cerâmica: prática ancestral

Exatamente um mês após sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes da Escola de Belas Artes da UFMG, o indígena Vanginei Leite Silva, o Nei Leite Xakriabá, presidente da Associação dos Artesões Xakriabá, falou a O NORTE sobre seu trabalho e a importância da arte na preservação da cultura de seu povo.

Nei Xakriabá, presidente da Associação dos Artesões (EUMAR FÉLIX)
Nei Xakriabá, presidente da Associação dos Artesões (EUMAR FÉLIX)

Tema que, por sinal, detalhou em “Arte Indígena Xakriabá: com um pé na aldeia e outro pé no mundo”.

Aos 41anos, o professor de artes é reconhecido nacionalmente promove oficinas e expõe sua produção, especialmente moringas com tampas em formato de animais do Cerrado, em feiras e exposições.

É casado com a também ceramista Ivanir Bezerra de Oliveira Silva, de 34 anos, que igualmente concentra sua produção na Aldeia Barreiro Preto.

“A cerâmica Xakriabá, essa arte indígena, foi uma prática muito presente na minha comunidade no passado, mas devido às violências que meu povo teve que enfrentar, como proibição de falar a língua nativa, bem como de praticar várias manifestações culturais, a cerâmica também sofreu esses impactos, se enfraquecendo, porque os índios passaram a substituí-la pelos objetos da indústria, comprando plástico e alumínio”.

Nei explicou que em 2001, na Terra Indígena Xakriabá, o pote era o único objeto que circulava nas aldeias, porque era usado para esfriar água.

Mas que, com a chegada da energia elétrica o pote perdeu espaço para a geladeira.

“Quando cheguei à escola procurei as pessoas mais velhas para conversar e aprender com eles as técnicas, ainda que vários ceramistas antigos não estivessem mais produzindo, mas que ainda guardavam na memória esses saberes”.

Assim, “colocamos em prática os ensinamentos, ou seja, retomamos uma técnica que não era utilizada há mais de 40 anos, circulando nas casas novamente, e, também, como era tradição antigamente, voltou a ser presenteada às pessoas nos casamentos, porque naquele tempo, quando uma moça passava convidando para o casamento, recebia a cerâmica Xakriabá para utilizar em casa, o pote, a panela, a sopeira, o prato”.

Explica que passou a usar na cerâmica os traços da pintura corporal, como feito pelos mais velhos, buscando melhorar o acabamento, colocando nas peças as tampas que eram figuras dos animais do Cerrado. Como exemplo, citou que as moringas antes tinham tampas simples, “mas como minha mãe fazia muitos bichos, e ainda faz, então aprendi com ela e resolvi colocá-los como tampas nas moringas que passei a produzir”.

EXPOSIÇÕES 
Hoje participa de feiras, oficinas e exposições em todo o Brasil. Atualmente, uma está no Espaço do Conhecimento, na UFMG, em Belo Horizonte, intitulada “Mundos Indígenas”.  Ano passado, de setembro a novembro, levou seus trabalhos e de sua mãe ao Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em dezembro, vai expor suas moringas no Expominas, em Belo Horizonte.

* Manoel de Freitas é jornalista, fotógrafo e ecologista

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