Segundo relato, terra foi vendida sem documentação e pode ser apropriada para a pecuária bovina – Por duas vezes, em janeiro deste ano segundo o BO registrado, Zé Ruim teria levado policiais para a residência do casal – Foto: Arquivo | MTC

 Durante a solenidade de entrega do prêmio “Mulheres Rurais – Espanha Reconhece”, no final do mês de abril, o projeto “Sabores do Cerrado” foi premiado em Brasília. Na ocasião, Marineide Santos, presidenta da cooperativa localizada em Miravânia (MG) e coordenadora do projeto premiado, chamou a atenção dos presentes. Ela disse ter sido inspirada por Izabel, “uma mulher que estava ameaçada de morte por defender seu território”.

Trata-se da história do casal Maria Izabel e Clailson Gonçalves, moradores há cerca de 15 anos do Sítio Barreiro Azul, localizado da zonal rural de Varzelândia, Norte de Minas Gerais.

Maria Izabel, que também é coordenadora nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), registrou boletim de ocorrência (BO) na Polícia Civil de Varzelândia e denunciou o fazendeiro José Pereira, conhecido na região por “Zé Ruim”.

Por duas vezes, em janeiro deste ano segundo o BO registrado, Zé Ruim teria levado policiais para a residência do casal, sendo uma das vezes sem que eles estivessem presentes na casa, e tem ameaçado Maria Izabel e Claison, de morte. A motivação seria que área de cerrado, próxima à fazenda, que é protegida pelo casal, seja apropriada para a pecuária bovina.

“Eu sou herdeira legítima da área. No entanto, ela foi vendida sem documentação, sem que a partilha tivesse sido feita entre herdeiros e sem meu conhecimento. O fazendeiro sabia que eu residia na área e que tinha interesse em ficar nela quando procedeu a compra. Ele cercou a área em que vivo, mesmo sem a decisão da Justiça. No outro lado, a casa sede da fazenda está abandonada, o fazendeiro não reside por lá”, explica Maria Izabel.

Testemunhas

De acordo com relato publicado no blog Cartas Proféticas por Dom Orvandil, há testemunhas da ameaça. Euclides Lopes, um vizinho do casal, afirma que o José Pereira teria dito ao policial que “o filho dele quer vir resolver do jeito dele”.

Segundo Lopes, o fazendeiro estava com dois policiais armados. “Eu falei que não adianta brigar, porque não vai resolver nada. Se seu filho vier aqui brigar, se ele matar alguém, ele vai preso, e se alguém matar ele, vai preso também. Tem que ser resolvido na Justiça e não com as próprias mãos”, disse.

A área do Sítio Barreiro Azul, onde Maria Izabel e Clailson residem, é área de cerrado preservado. Eles mantêm hortas e plantio de ervas medicinais. No entanto, a situação é de extrema vulnerabilidade social. A casa onde mora o casal não possui energia elétrica, não possui água e o abastecimento é por caminhão pipa.

Com a cerca construída, o “ir e vir” do casal também está prejudicado. Segundo Maria Izabel, a tensão é constante. “O fazendeiro segue rondando meu barraco. Às vezes vai só, às vezes com os filhos. Na última vez, já no mês de maio, ele rodeou a área com uma pessoa desconhecida”, narra.

Solidariedade

Além do próprio MTC, outras organizações têm acompanhado o caso. No dia 4 de abril, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) visitou Maria Izabel. De acordo com Irmã Etelvina Moreira de Arruda, representante da CPT, é preciso que entidades de direitos humanos estejam a par da situação, pois apoiam Maria Izabel como uma “liderança na comunidade, parceira, companheira na luta e mulher”.

Durante a visita da CPT, o advogado Aldinei Leão, do Centro de Referência em Direitos Humanos (CDRH), localizado em Montes Claros, também esteve no local. Segundo Leão, o trabalho desenvolvido pelo Centro é de monitoramento do que já tem sido feito pela advogada do casal.

“Apesar de Maria Izabel empreender uma luta coletiva, o conflito está no âmbito do direito individual, pois se trata de um conflito que envolve herança. Nós queremos garantir que as providências sejam tomadas em relação às ameaças. Nós encaminhamos junto ao município as questões sociais envolvidas, pois há uma grande vulnerabilidade social e psicológica”, disse Leão.

De acordo com o último relatório “Conflitos no Campo”, divulgado pela Pastoral da Terra, no ano de 2021 houve aumento de 75% no número de assassinatos em conflitos no campo, no Brasil. Já o número de mortes em decorrência de conflitos teve aumento de 1.100%. Ainda segundo a CPT, a atuação da “pistolagem sob encomenda” e das “agromilícias”, bem como de agentes públicos, ocasionaram 35 assassinatos por conflitos no campo no Brasil, em 2021.

Outro lado

Fábio Jean, advogado de José Pereira, afirmou que a “toda a narrativa não passa de uma mentira que estão contra meu cliente, que comprou as terras da mãe da senhora Izabel”.

Afirmou ainda que “nunca houve ameaça por tarde do meu cliente” e que tramita na comarca de São João da Ponte uma possessória em desfavor de Maria Izabel e de seu companheiro.

“No caso das ameaças alegadas por ela para os órgãos de imprensa, já foram tomadas as medidas cabíveis”. O advogado relata que tramita na Polícia Civil de Varzelândia um inquérito para apurar o crime de calúnia contra o casal.

Fonte: Brasil de Fato

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