Descarte sustentável de lixo se torna cada vez mais realidade em Montes Claros

Montes Claros e outras cidades norte-mineiras coletam mensalmente cerca de 30 toneladas de lixo eletrônico, segundo dados da E-Ambiental, uma das empresas licenciadas para gerenciamento destes resíduos no Norte de Minas. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) – Lei 12.305/2010 – prevê que este tipo de material, juntamente com pneus, óleos lubrificantes e lâmpadas fluorescentes, integra um sistema de logística reversa, ou seja, os produtos devem retornar aos fabricantes após serem utilizados pelos consumidores, sendo coletados de forma independente do serviço público de limpeza urbana. Por Ricardo Arruda – Jornal Gazeta De acordo com informações do Global E-Waste Monitor 2017, último relatório da União Internacional de Telecomunicações da ONU, o Brasil é o sétimo maior produtor de lixo eletrônico no mundo. Quando a abrangência do levantamento é reduzida para a América Latina, o País está em primeiro lugar. De acordo com o diretor da E-Ambiental, Felipe Custódio Moura, ainda falta conhecimento da população a respeito dos danos que o descarte incorreto do material causa à natureza. “O lixo eletrônico é composto por muito metal pesado e, então, a partir do momento que você joga na natureza, ele acaba retornando para você como contaminante em forma de alimento, água e ar”, explica. “O Brasil conta com a Política de Resíduos Sólidos, que tem algumas diretrizes. Todo fabricante, o governo e as próprias pessoas físicas são responsáveis, hoje, pelo descarte correto de lixo eletrônico, só que isso ainda não acontece. A lei foi criada, mas não existe fiscalização e poucas pessoas cumprem essa legislação no Brasil”. Para recolher o lixo eletrônico, a empresa promove campanhas e organiza eventos, como gincanas solidárias. Após triagem do material coletado, aqueles que estão em bom funcionamento são reaproveitados, como o caso de computadores, posteriormente doados para escolas e instituições de caridade, que também auxiliam no recolhimento destes produtos. O lixo eletrônico coletado e que não pode ser reaproveitado – cerca de 95% -, é desmontado. “Desse resíduo é separado alumínio, cobre, prata e todos os componentes que fazem parte da produção do lixo eletrônico, que conseguimos fazer a logística reversa, colocando dentro das indústrias responsáveis pela reciclagem, onde sairão novos produtos”, explica Moura. Além do lixo eletrônico, como televisores, computadores e celulares, a empresa coleta pilhas, baterias e lâmpadas, também previstas no sistema de logística reversa. Ao todo, são vários ecopontos em Montes Claros, distribuídos em lojas de celulares, faculdades e outras instituições, como shoppings, igrejas e organizações públicas. Apesar de não ser prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o descarte sustentável de medicamentos conta com legislação própria em Montes Claros. Há uma Lei Municipal em vigor que estabelece que “farmácias, drogarias e farmácias de manipulação ficam obrigadas a instalar pontos de coleta, em local de fácil visualização, para recolhimento de medicamentos impróprios para o consumo ou com data de validade vencida”. De acordo com o ambientalista Pedro Augusto de Carvalho, a ideia pode ser considerada como “uma logística reversa estabelecida pelo município para esse tipo de resíduo”. Segundo ele, o sistema de logística reversa ainda enfrenta grande dificuldade no Brasil, especialmente em relação ao lixo eletrônico. Entretanto, outros materiais contam com boa adesão por parte da população e comerciantes, como no caso de óleo de cozinha, que pode ser descartado em mercados, e mesmo óleos lubrificantes. Desde o final da década de 1990, a dentista Carmem Oliveira faz a separação do lixo reciclável. A tarefa começou com seus pais e, hoje, ela passa a lição para os filhos – como uma tradição familiar. A falta de adesão da população em torno da separação de resíduos recicláveis é opinião unânime entre especialistas e profissionais que lidam diretamente com o serviço. Desta forma, Carmem Oliveira está entre os montes-clarenses que, à sua maneira, procuram reduzir os impactos causados pela alta quantidade de lixo descartada no município. Para ela, a separação do lixo é algo simples de executar, especialmente para a coleta seletiva onde não há necessidade em dividir o material reciclável entre vidro, plástico, papel e metal. “É só você ter dois contêineres: um para o lixo orgânico e outro para o reciclável. É muito fácil”, explica. A facilidade em colaborar para a coleta seletiva tornou a separação do lixo parte da rotina da família de da dentista. “Isso é um hábito que se cria e vira uma coisa automática, que não requer esforço nenhum a partir do momento em que você está acostumada com aquilo. Quando você nunca foi apresentada a essa rotina, parece uma coisa grande e pesada ter que lavar o recipiente, mas, para nós, não é nada. E eu acho que é uma contribuição enorme, principalmente aqui no Brasil onde se utiliza aterro sanitário. Então, quanto menos você puder contribuir para o aumento desse aterro sanitário, melhor”, relata Carmem Oliveira. Desde que saiu da casa dos pais para morar com a irmã, a comerciária Pâmela de Freitas Caldas começou a se incomodar com a quantidade de lixo gerada na residência, observando que “era muito lixo para pouca pessoa, em pouco tempo”. Com isso, a jovem de 30 anos começou a pesquisar sobre reciclagem e sustentabilidade, de maneira geral, modificando suas ações em relação ao tema. Um dos conceitos que basearam a mudança é do “lixo zero”, cujo objetivo é o aproveitamento e encaminhamento correto dos resíduos recicláveis e orgânicos, além de buscar a redução de descarte desses materiais para os aterros sanitários. Uma personagem relacionada à proposta é Lauren Singer, idealizadora do blog “Trash is for Tossers”. Lauren viveu anos com um pequeno pote de vidro, onde depositou o lixo que utilizou. “Aqui no Brasil, tem dificuldade nessas questões. Não temos tanto uma política de reutilizar as coisas, até com relação à nossa higiene, onde compramos muitos produtos de beleza”, diz Pâmela Caldas. “Por exemplo, nos Estados Unidos, tem mercado que você enche o pote de shampoo e do condicionador, você não precisa comprar uma embalagem nova”, relata. Na dificuldade em seguir as ideias da blogueira americana, a comerciária montes-clarense encontrou uma brasileira, chamada Cristal Muniz, que mantém uma
Jovem baiana é primeira brasileira a ganhar prêmio global da ONU sobre meio ambiente

A homenagem acontecerá em um baile de gala marcado para o dia 26, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. – A baiana Anna Luisa Beserra, de 21 anos, natural de Salvador, acaba se tornar a primeira brasileira a vencer o prêmio Jovens Campeões da Terra, principal premiação ambiental das Nações Unidas para jovens entre 18 e 30 anos. A homenagem acontecerá em um baile de gala marcado para o dia 26, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. “A gente passa protetor quando vai à praia justamente para nos protegermos contra a radiação ultravioleta. Em humanos, ela causa câncer de pele. Mas, para vírus e bactérias, ela é letal. A gente aproveita a mesma radiação ultravioleta para fazer o tratamento na água, que passa a ser potável”, diz. Luisa Beserra começou a desenvolver a tecnologia aos 15 anos, em 2013, depois de ganhar uma bolsa para jovens cientistas oferecida pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), do governo federal. Batizado de Aqualuz, o dispositivo foi acoplado em fase de testes a cisternas na região do semiárido do nordeste brasileiro e já garante acesso a água limpa para 265 pessoas. A partir de 2013, Beserra criou 10 versões distintas até chegar à tecnologia atual, que purifica água não potável usando a luz solar, sem produtos químicos ou filtros descartáveis. “Até o fim do ano chegaremos a mais 700”, afirma. “É uma metodologia muito fácil e viável para estas regiões. O dispositivo dura 20 anos, em média, e só precisa ser limpo com água e sabão.”. “Eu diria ao presidente que, por favor, não desestimule a ciência e o empreendedorismo local. Se não houver estímulo, as pessoas vão se desmotivar”, diz a vencedora à BBC News Brasil.
No Brasil das queimadas, um texto de Ulysses Guimarães segue atual

‘Esperança e Mudança’ dá testemunho de um Brasil que ainda possa resistir aos esbirros do autoritarismo e da estupidez – Na escuridão do Brasil das queimadas, do neoliberalismo tosco e autoritário da dupla Bozo-Guedes, para não falar dos inquisidores do Roda Viva, peço licença ao leitor de CartaCapital para relembrar as esperanças de mudança que embalavam nosso país às vésperas da redemocratização. Redigido por muitas mãos no alvorecer dos anos 1980, sob a inspiração de Ulysses Guimarães, o documento “Esperança e Mudança” dá testemunho de um Brasil que, auguramos, ainda possa resistir aos esbirros do autoritarismo e da estupidez. Aí vai: “… A crise nacional não encontrará solução sem mudanças profundas. Mudanças que só poderão ter início com o fim do arbítrio e da exceção. Mudanças que haverão de nascer do reencontro do povo com o poder político. A sociedade brasileira anseia pela Democracia, luta por ela, sonha com ela. A sociedade repele o arbítrio através de todas as suas formas de representação de interesses e de organização social: partidos políticos, movimentos sociais, organizações comunitárias, igrejas, sindicatos, organizações patronais, profissionais, movimentos setoriais e culturais. Democracia é Estado de Direito, liberdade de pensamento e de organização popular, respeito à autonomia dos movimentos sociais repousa na existência de partidos políticos sólidos. Democracia significa voto direto e livre, significa restauração da dignidade e das prerrogativas do Congresso e do Poder Judiciário, significa liberdade e autonomia sindical, significa liberdade de informação e acesso democrático aos meios de comunicação de massa. Democracia implica democratização das estruturas do Estado, implica resgatar a soberania nacional, implica redistribuição da renda, criação de empregos e bem-estar social crescente. A Assembleia Nacional Constituinte haverá de ser o berço de tudo isso – o berço da Democracia –, o berço pacífico e representativo dos anseios do povo. Democracia é ruptura com o longo passado autoritário e elitista, é participação autônoma dos movimentos sociais nas decisões nacionais através da representação legítima, de meios modernos de consulta e informação e da definição dos rumos de nosso desenvolvimento através do planejamento democrático. As maiorias oprimidas da população – as mulheres, os jovens, os negros – e as minorias discriminadas – os índios, grupos étnico-culturais – não podem continuar sendo tuteladas. Tampouco podem permanecer os Sindicatos sob o tacão retrógrado do corporativismo. Numa sociedade com uma estrutura social complexa, heterogênea, regionalmente diferenciada, o PMDB alinha-se como um partido amplo – centrado nos interesses do conjunto dos trabalhadores, da cidade e do campo, de todos os setores da produção, dos serviços, do setor público. Partido que almeja soldar os interesses desse conjunto com os de outros segmentos sociais – as classes médias, os autônomos, o empresariado nacional–, o PMDB respeita a autonomia da sociedade civil e reconhece a sua complexidade. O PMDB é, e deseja ser, cada vez mais, um canal de condensação de interesses sociais e, para isso, oferece à sociedade um projeto global coerente. Um projeto que almeja a transformação democrática da vida nacional. O PMDB propõe o planejamento democrático como forma de garantir que o conjunto de políticas públicas obedeça às prioridades fixadas democraticamente – prioridades que busquem um novo estilo de desenvolvimento social, cuja diretriz maior deve ser a redistribuição da renda e da riqueza social. O Planejamento Democrático implica a elaboração de um Plano, sob controle e sob a influência das instituições Democráticas. Plano fixado através de lei, supervisionado eficazmente pelo Congresso com a interação e auxílio das organizações populares. … Persistem as desigualdades sociais e regionais, persistem os enormes bolsões de pobreza absoluta. O PMDB considera que este estado de coisas é uma vergonha nacional. Compromisso fundamental do PMDB é a extinção do analfabetismo, o fim da desnutrição e da mortalidade infantil, a erradicação das endemias, o fim da promiscuidade habitacional, da insegurança, da falta de transportes. O PMDB quer acabar com o estado de indigência forçada em que vivem pelo menos 25 milhões de brasileiros. O PMDB tem planos e propostas sérias, possíveis, viáveis. Propostas que certamente exigem determinação, imaginação, competência. Propostas em aberto que são oferecidas ao crivo do debate democrático nacional para o seu contínuo aperfeiçoamento. Redistribuição da renda e criação de empregos não constituem metas simplistas. São processos complexos que requerem um amplo conjunto de reformas sociais e de políticas públicas compativelmente articuladas”. Via Carta Capital
Segundo maior mineroduto do mundo pode ser construído no Norte de Minas

– Empresas desejam implementar maior barragem de rejeitos do país e mineroduto com 482 km de extensão – Por Raíssa Lopes – Brasil de Fato Mais um empreendimento de mineração poderá tomar uma grande parte de Minas Gerais. O projeto é da empresa de capital chinês Sul Americana de Metais (SAM), que tenta implementar o negócio na região do Vale das Cancelas, Norte do estado, desde 2010. Anteriormente, o plano era conhecido como Projeto Vale do Rio Pardo e foi negado pelo Ibama por inviabilidade ambiental. Este projeto previa a construção de um complexo minerário (com barragens de rejeito e de água, mina, usina de tratamento de minério, etc.) e um mineroduto de 482 km que transportaria minério por 20 municípios até chegar em Ilhéus, na Bahia, de onde o produto seguiria para a China. Com o veto do Ibama, a SAM reformulou o projeto, que hoje se chama Bloco 8, retirando o mineroduto da proposta. O mineroduto, no entanto, ainda tem previsão de ser construído e de acordo com o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) do Bloco 8, por uma “empresa independente”. Porém, movimentos sociais denunciam que a empresa encarregada da construção do mineroduto, Lotus Brasil Comércio e Logística LTDA, é sócia da SAM. O desmembramento do projeto configuraria, então, uma estratégia da empresa para conseguir licenciamento para os dois empreendimentos, o complexo minerário e o mineroduto. Outra denúncia é de que os projetos não teriam nada de diferente do que constava no não aprovado Vale do Rio Pardo. “A empresa reformulou esse projeto e retirou o mineroduto para licenciar a cava no governo de Minas, através da Superintendência de Projetos Prioritários [SUPPRI], e deixar o mineroduto para o Ibama. Como o mineroduto passa por dois estados [Minas/Bahia], só poderia ser licenciado pelo Ibama, que é um órgão federal”, explica Felipe Soares, do Movimento dos Atingidos Por Barragens (MAB). Felipe esclarece que se a cava conquista o licenciamento, a construção do mineroduto se torna indispensável. “Assim eles pressionam o Ibama, porque depois da cava é preciso escoar o minério de alguma forma, e a forma pensada por eles é o mineroduto”. Números do Bloco 8 e Vale do Rio Pardo O Bloco 8 construiria a maior barragem de rejeitos de todo o Brasil e uma das maiores da América Latina. O projeto estará localizado nos municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis. Segundo estudo do MAB e da Comissão Pastoral da Terra (CPT-MG), seriam 2596 hectares de barragem e aproximadamente 1,5 bilhão de toneladas de rejeito de minério armazenadas. Já o mineroduto só perderia em extensão para o maior do mundo, o Minas-Rio da Anglo American, que tem 529 km. Além disso, o complexo minerário consumiria 6,2 milhões de litros de água por hora na região, que sofre com a seca. A Sul Americana de Metais já possui uma outorga – ou seja, o direito de uso – da Agência Nacional das Águas (ANA) que lhe permite retirar 54 milhões de m³ de água por ano da barragem de Igarapé, construída no rio Jequitinhonha, para utilizar no projeto. Essa quantidade seria suficiente para abastecer por dois anos a cidade mineira de Montes Claros, onde moram mais de 400 mil pessoas. “As comunidades do Vale das Cancelas vivem um problema sério de acesso à água, até para o consumo. E a empresa está falando para o povo que a mineração vai proporcionar água contra a seca. Eles não esclarecem pra população qual o objetivo real desse projeto. A única coisa que consta no documento é que parte da água vai ser destinada ao governo e caberá ao Estado decidir se vai usar para o abastecimento dos habitantes ou não”, pontua Felipe. Impactos ambientais e sociais A pesquisa da CPT e do MAB estima que a barragem seria construída por cima de nascentes que desaguam em córregos importantes da região, afluentes do rio Vacaria, que desemboca no rio Jequitinhonha. Alguns locais seriam alagados, fazendo com que as comunidades fiquem isoladas ou até deixem de existir. Demais efeitos seriam a destruição do cerrado nativo (vegetação já comprometida pelo plantio de eucalipto); mudança nos modos de vida e vínculos sociais da população; subordinação da economia local; aumento nos casos de violência contra a mulher devido à grande migração de homens para o território; muita poeira e barulho decorrentes do funcionamento da mina 24h por dia; entre outros. Empresa não dialogou com população Apesar do alto número de consequências, a SAM não teria discutido o projeto com nenhuma das comunidades afetadas, como conta o gerazeiro Adair Pereira de Almeida. Aos 45 anos, ele integra o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos de Minas Gerais (PPDDH-MG) por se posicionar contra mineradoras, grileiros e empresas de eucalipto que desmatam a natureza. “A gente quer e deve ser consultado. A empresa está desrespeitando a lei. A comunidade tem que participar do planejamento e, se é desenvolvimento, queremos saber pra quê e pra quem”, diz. Ele conta que os atingidos já realizaram diversas manifestações, audiências públicas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e Senado Federal e acionaram a Organização das Nações Unidas (ONU). “Será que o Brasil não está precisando desse minério? Será que não existe outra fonte de desenvolvimento que possa ser sustentável?”, questiona o gerazeiro, que “mata um leão por dia para continuar vivo”. Direito de consulta A empresa fere a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), adotada no Brasil e que trata dos direitos dos povos indígenas e tribais (quilombolas, gerazeiros, pescadores e mais). A advogada popular do coletivo Margarida Alves Layza Queiroz Santos ressalta que a SAM tinha o dever de ter consultado as famílias quando estava pensando na possibilidade do projeto. “Consta na convenção que quando existir uma medida legislativa ou administrativa que possa atingir esses povos, eles têm o direito à consulta. A consulta precisa ser feita de boa fé, de forma prévia, livre e informada. É isso que garante participação. É uma interlocução entre Estado e comunidades, possibilitando que elas
No estranho Brasil de Jair Bolsonaro, a culpa é sempre do outro

* Por Rui Daher – Via Carta Capital – ‘Ah, mas eles também fizeram, também fizeram, também fizeram … quem chegar por último é mulher de padre, ou de capitão’ Estranho país este, onde o outro está sempre na berlinda. “Nós aqui somos ótimos, quem ferra tudo são eles lá.” Faz-me parecer só termos olhos para os próprios umbigos, que nem mesmo são específicos de uma área médica. Ou temos umbigologistas? Difícil para nós, os brasileiros, reconhecer partes do corpo menos nobres, como por exemplo o ânus, de onde deveriam sair as fezes, dia sim dia não, como recentemente determinado pelo Regente Insano Primeiro. No domingo passado, assistindo ao programa Globo Rural, esperava uma reportagem sobre as queimadas amazônicas. Houve, mas com foco expressivo no Mato Grosso e nos produtores de grãos e suas perdas. Fiquei um pouco confuso, mas serviu-me para resgatar a história dos outros sempre culpados e daqueles que não têm umbigos. Diante da pergunta de como o fogo chegou, a cada depoimento, ouvíamos: “Ah, veio do vizinho. Algum descuido por lá”. Que seja, devem ter sentido fauna e flora carbonizadas ou desamparadas em suas fugas. Afinal, foi apenas fogo na palhada que seria usada no plantio direto das lavouras. Na agricultura rudimentar sempre se pensou as queimadas como benéficas na limpeza e preparo do solo para o plantio e na formação de pastagens. O fogo fazia mais fácil o árduo e custoso trabalho de abrir áreas, sobretudo em novas fronteiras. Isso existe até hoje, embora com menor intensidade. Problema é que nem sempre são feitos os devidos aceiros e não há acompanhamento humano ou tecnológico. Carvão, cinzas, e o extrato pirolenhoso, condensação pós-queima das madeiras, ainda representam algum benefício agronômico às plantas, contanto que adequadamente usados, e não em bota fogo desenfreado. Neste caso, perde-se a biodiversidade, muito mais valiosa, e contribui para aumentar os gases do efeito estufa com repercussões no aquecimento global. Nada que interesse ao senhor Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, que desconhece tudo isso e mais Chico Mendes. Muitos pioneiros da primeira metade do século 20, que mais tarde se tornaram capitães da nascente indústria de fertilizantes, começaram vendendo cinzas para a adubação dos cafezais paulistas. Hoje em dia, fundações, organizações não governamentais e mesmo a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias) e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) indicam restritos períodos do ano para a permissão de queimadas, ensinam como, onde e quando bem proceder para promover queimadas e utilizar as cinzas. Segundo o IBGE, entre 2007 e 2017, o uso floresta nativa para uso industrial caiu pela metade, para 36 milhões de metros cúbicos, enquanto a de florestas plantadas cresceram 35%, para 217 milhões de m³, representando 86% do total. Formam assim, legalmente, importante setor da economia brasileira. Confundi-los com criminosos é equívoco terrível. Mas é, justamente, quando os “outros” e seus proeminentes umbigos, qual milícias encomendadas, invadem a Amazônia para amanhã garantirem seus futuros, enquanto nós, abestados, batemos continência para um pele-laranja, servimo-nos de laranjas-Queiróz, e entregamos nossa soberania, como tontos a gritar: “Ah, mas eles também fizeram, também fizeram, também fizeram … quem chegar por último é mulher de padre, ou de capitão”. Inté. * Rui Daher é criador e consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.
Queimadas cresceram 82% no Brasil em relação a 2018

Desde início do governo Bolsonaro, situação se deteriora – Nesta época de seca na Amazônia e em outras zonas de florestas do Brasil, a mata torna-se suscetível a incêndios. Porém, no caso das queimadas vistas no último mês, o fogo tem origem majoritariamente na ação predatória de fazendeiros, em busca de expansão das áreas de pastagem ou para plantações de soja, por exemplo. E a situação vem se agravando no governo Bolsonaro. Desde janeiro, foram registrados 71.497 focos de incêndio, um número 82% maior do que o mesmo período do ano passado, quando foram registrados 39.194 focos. Ao site G1, o pesquisador do programa de queimadas do Inpe Alberto Setzer enfatizou que a seca pode ajudar alastrar o fogo, mas que as queimadas são todas de origem humana. No sudoeste do Pará, fazendeiros chegaram a realizar um “dia do fogo”, promovendo queimadas simultâneas às margens da BR 163, para chamar a atenção do governo de que “o único jeito que tem para trabalhar é derrubando”. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro (PSL), que se autointitulou “capitão motosserra” segue brigando com os dados divulgados pelo Inpe e já trocou o comando do Instituto, substituindo o físico Ricardo Galvão por um oficial da Força Aérea. Ato em Curitiba reúne milhares de pessoas Na sexta, 23, milhares de pessoas saíram às ruas de Curitiba no ato SOS Amazônia, Nossa Casa Está em Chamas. A manifestação começou no fim da tarde na praça da Mulher Nua (29 de dezembro) e foi em passeata até o Largo da Ordem, por cerca de 2 horas, com muita música, palavras de ordem e outras manifestações artísticas. O Brasil de Fato transmitiu a atividade ao vivo por sua página no Facebook. Queimadas têm impacto global Os resultados da destruição da Floresta Amazônica extrapolam os limites geográficos das localidades atingidas diretamente e podem causar impactos negativos em todo o planeta. Essa é avaliação do professor e pesquisador Wagner Costa Ribeiro, do curso de Geografia da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, os impactos das queimadas que atingem a maior floresta tropical do mundo podem ser compreendidos em três níveis: local, nacional e global. Na escala local, há o empobrecimento do solo, que pode levar a um crescimento ainda maior das áreas desmatadas. A perda da biodiversidade como consequência da destruição da floresta, por sua vez, interfere na dinâmica atmosférica. O outro ponto destacado por Wagner Ribeiro é o impacto em escala global. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a Amazônia não é o “pulmão do mundo”, uma vez que a maior parte do oxigênio produzido pela floresta é absorvido por ela mesma. Mas, como destaca, as árvores têm um papel fundamental na regulação do clima global, uma vez que funcionam como um grande estoque de carbono (CO2). Queimadas não são naturais Wagner Ribeiro também afirma que as queimadas na Amazônia não são naturais e tratam-se de uma questão política. Ele elencou uma série de ações, que associadas ao discurso do presidente Jair Bolsonaro, contribuíram para o cenário visto atualmente. Entre elas, o desmonte de instrumentos de fiscalização e a desqualificação de dados sobre desmatamento divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Via Brasil de Fato
Sérgio Moro é um dos culpados pelas queimadas na floresta amazônica

Ibama pediu apoio da Força Nacional para evitar “dia do fogo” mas Moro negou – Conforme o Blog do Esmael já havia noticiado, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) solicitou ao ministro da Justiça, ex-juiz Sérgio Moro o apoio da Força Nacional de Segurança para tentar evitar o “dia do fogo”. Um servidor ouvido sob sigilo pelo site Amazônia Real disse que os fiscais em Novo Progresso (Pará) são poucos, daí precisariam do apoio policial para a fiscalização, pois são ameaçados por madeireiros, fazendeiros e grileiros. Segundo ele, a Força Nacional daria um apoio fundamental para impedir os incêndios florestais no “dia do fogo”. Mas o apoio foi negado por Moro. “O Moro sabia. A gente sempre precisa de segurança nas operações de combate aos desmatamentos e queimadas”, disse o fiscal.
Acusação de Lula é confirmada: fazendeiros bolsonaristas incendeiam a Amazônia

Acusação feita pelo ex-presidente Lula em sua entrevista à TV 247 está confirmada: fazendeiros bolsonaristas foram responsáveis por incêndios que devastam a floresta amazônica há pelo menos duas semanas. Um grupo de 70 ruralistas articularam em grupos de WhatsApp o “Dia do Fogo” na região de Altamira, no Pará, no dia 10 de agosto passado. É esta a região que lidera o número de incêndios e desmatamentos no Brasil. A sequência de incêndios criminosos foi marcado para mostrar apoio às ideias Bolsonaro de acabar com a fiscalização do Ibama e conseguir perdão das multas pelas inúmeros infrações cometidas pelos ruralistas ao Meio Ambiente. Acusação feita pelo ex-presidente Lula em sua entrevista à TV 247 está confirmada: fazendeiros bolsonaristas foram responsáveis por incêndios que devastam a floresta amazônica há pelo menos duas semanas. Um grupo de 70 ruralistas articularam em grupos de WhatsApp o “Dia do Fogo” na região de Altamira, no Pará, no dia 10 de agosto passado. É esta a região que lidera o número de incêndios e desmatamentos no Brasil. A sequência de incêndios criminosos foi marcada para mostrar apoio às ideias Bolsonaro de acabar com a fiscalização do Ibama e conseguir perdão das multas pelas inúmeros infrações cometidas pelos ruralistas ao Meio Ambiente. A revelação é da revista Globo Rural, em reportagem do jornalista Ivaci Matias, que escreveu diretamente de Cachoeira da Serra, o distrito de Altamira que concentra os ruralistas mais agressivos na ocupação das terras, combate aos sem terra e pequenos agricultores e maiores taxas de devaatação do Estado, um dos mais castigados pela ação predatória. O que acontece em Altamira desde 10 de agosto, segundo o jornalista, é “a maior queimrada da história do Pará”. A reportagem confirma a percepção que levou Lula a apontar os ruralistas da base de Bolsonaro como responsáveis pelos incêncios. “É só pegar fotografias de satélites, saber quem é o proprietário de terra que está queimando e ir atrás do proprietário da terra para saber quem botou fogo. Se o dono da terra não reclamou, não foi à polícia dar queixa de que teve incêndio na terra dele, é porque foi ele quem botou fogo”, disse Lula à TV 247 na última quinta-feira (22). Segundo a reportagem, a pedido do Ministério Público de Novo Progresso, o Delegado Daniel Mattos Pereira, da Polícia Civil, já ouviu algumas pessoas ligadas ao “Dia do Fogo”, até agora ninguém foi preso. Pegos em flagrante, os ruralistas utilizam a mesma estratégia de Bolsonaro, que chegou a acusas as ONGs pelos incêndios. Segundo o jornalista Ivaci Matias, os fazendeiros da região acusam o ICMBio [a sigla se refere ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], autarquia federal que é a polícia ambiental para a proteção da biodiversidade em todo o Brasil. O órgão é visto pelos ruralistas como seu inimigo e tem sido alvo de toda sorte de intervenções e desestruturação pelo ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles. A acusação dos ruralistas é tão inverossímel como a de Bolsonaro, mas eles contam com a máquina de fake news do bolsonarismo para fazer prevalecer sua versão. Ambos, Bolsonaro e sua base rural, não devem ter sucesso desta vez. A acusação de Lula agora está comprovada. Da cadeia, ele apontou para os culpados. Via Brasil 247
Amazônia: foto de tamanduá cego fugindo do fogo comove as redes

O fotógrafo Araquém Alcântara captou com sua lente a fuga de um tamanduá mirim cego que fugia do fogo na região amazônica. Araquém dá um depoimento comovente em seu perfil no Facebook, alertando para os riscos reais de a floresta ser devastada pela irresponsabilidade de um governo. O fotógrafo Araquém Alcântara captou com sua lente a fuga de um tamanduá mirim cego que fugia do fogo na região amazônica. Araquém dá um depoimento comovente em seu perfil no Facebook, alertando para os riscos reais de a floresta ser devastada pela irresponsabilidade de um governo. O fotógrafo ainda se diz surpreendido pela repercussão de seu trabalho nas redes e diz que essa mobilização pode ser uma chance de a Amazônia reverter o processo acelerado de destruição que tomou conta da floresta depois de o Brasil perder parte considerável de sua soberania.
Política de Bolsonaro para o meio ambiente afunda a imagem do Brasil

A destruição da Amazônia vira preocupação internacional e ameaça até as exportações do País Ser, na mesma semana, tema da reportagem de capa da revista de economia mais influente do mundo e um dos destaques da principal publicação científica do planeta é raro, se não inédito, e ninguém poderá negar esse feito de Jair Bolsonaro, ainda que o motivo de tamanha projeção seja mais um vexame internacional. Foi preciso o governo do ex-capitão chegar a extremos no incentivo à atividade econômica predadora e questionar o conhecimento científico com truculência e obscurantismo medieval para receber a devida atenção da The Economist e da Nature. Antes tarde. “Velório da Amazônia: o Brasil tem o poder de salvar a maior floresta da Terra ou de destruí-la”, fulminou a capa do semanário econômico. “O ‘Trump Tropical’ espalha uma crise sem precedentes para a ciência brasileira: as tensões aumentam à medida que a administração Jair Bolsonaro questiona o trabalho de cientistas do Estado e determina cortes debilitantes nos fundos de pesquisa”, descreve a publicação científica. “Tanto a redução na cobertura de árvores quanto a mudança no clima estavam colocando em risco o futuro da floresta bem antes das eleições de outubro de 2018, mas depois disso a Amazônia enfrentou outra ameaça: Jair Bolsonaro, o novo presidente e possivelmente o chefe de Estado mais perigoso do mundo para o meio ambiente”, prossegue a Economist. “Desde que assumiu o cargo, ele reduziu o cumprimento das leis ambientais e promoveu a exploração econômica das reservas indígenas. Agora, seu governo está avançando com propostas para diminuir o tamanho das áreas protegidas em regiões como a Amazônia”, sublinhou a Nature. As publicações que provavelmente Bolsonaro, seus ministros e a horda que o defende nas redes sociais classificarão de “comunistas” chegaram aos leitores em uma data oportuna, a sexta-feira 2, dia em que o raivoso ocupante do Palácio do Planalto decidiu exonerar, sob a acusação de falsear dados, o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão, acadêmico de reputação condizente com a respeitabilidade científica internacional do órgão que dirigia. A crise começou na quinta-feira 18, quando a mídia divulgou como de responsabilidade do Inpe dados sobre um aumento de 88% no desmatamento na Amazônia entre meados do ano passado e julho deste ano. Tratava-se, entretanto, da reprodução de uma reportagem mal fundamentada do portal G1, ligado à Globo, na página de um dos cursos de pós-graduação do instituto e que foi considerada de maneira equivocada como uma publicação da própria instituição em um processo tortuoso detalhado por Galvão na entrevista à página 18. “A questão do Inpe, eu tenho a convicção de que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão”, afirmou o ex-capitão, naquele seu estilo que destrói mais rapidamente a língua pátria do que as queimadas são capazes de arrasar as florestas, durante um café da manhã com jornalistas estrangeiros. “Mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”, insinuou. O autointitulado capitão motosserra esculacha a ciência e menospreza líderes europeus Galvão não se deixou intimidar, mostram suas afirmações a jornalistas feitas desde o sábado 20 em resposta aos ataques do capitão: “Ele tomou uma atitude pusilânime, covarde, de fazer uma declaração em público talvez esperando que peça demissão, mas eu não vou fazer isso… O senhor Jair Bolsonaro precisa entender que um presidente da República não pode falar em público, principalmente em uma entrevista coletiva, como se estivesse em uma conversa de botequim…” “Isso é uma piada de um garoto de 14 anos que não cabe a um presidente da República fazer.” O cientista explicou que os dados sobre o desmatamento da Amazônia são divulgados desde meados da década de 1970 e a partir de 1988 compõem a maior série histórica de informações de destruição de florestas tropicais respeitada mundialmente. “Ele disse que os dados do Inpe não estavam corretos, segundo a avaliação dele, como se ele tivesse qualidade ou qualificação de fazer a análise.” Galvão aproveitou o espaço aberto na mídia pelas acusações sofridas para apresentar suas credenciais: “O presidente Bolsonaro tem que entender que eu sou um senhor de 71 anos, professor titular da Universidade de São Paulo, membro da Academia Brasileira de Ciências, fui presidente da Sociedade Brasileira de Física durante três anos, membro do Conselho Científico da Sociedade Europeia de Física durante três anos. Todos os diretores dessas unidades de pesquisa não são escolhidos por indicação política ou porque os pais deles quiseram dar um filé mignon para cada um”, disparou, em referência à indicação de Eduardo Bolsonaro para o posto de embaixador nos Estados Unidos. Em uma das inúmeras defesas do nepotismo, o ex-capitão admitiu: “Se eu puder dar um filé mignon ao meu filho, eu dou”. A respeito da insinuação de que agiria “a serviço de alguma ONG”, o físico declarou: “Nunca tive nenhum relacionamento com nenhuma ONG, nunca fui pago por fora, nunca recebi nada mais além do meu salário como servidor público”. Galvão afirmou ainda que sua atitude foi deliberada e pretendeu chamar a atenção da comunidade científica e da sociedade em benefício do Inpe. A preocupação parece justificável, pois o governo está empenhado, segundo a Transparência Brasil, em “fazer um ‘apagão’ de dados oficiais produzidos por diferentes instituições que deveriam embasar as políticas públicas. Em vez de agir sobre a realidade, o governo prefere atacar os dados que a descrevem demonstrando pouco apreço por estudos científicos e evidências”, condenou a entidade. Define a liberal The Economist: “Jair Bolsonaro, possivelmente o chefe de Estado mais perigoso do mundo para o meio ambiente” O que incomoda Bolsonaro e seus apoiadores integrantes do agronegócio e do extrativismo é a alta eficiência do sistema de monitoramento e alertas sobre avanços do desmatamento emitidos pelo instituto, um instrumento consolidado de ação legal rápida para conter a devastação da Amazônia provocada pelos atos desenfreados de pecuaristas, madeireiros e mineradores. O risco de uma hecatombe no