*  Por Ildenilson Meireles Barbosa

1° Tempo: Por um nacionalismo de esquerda

Darcy Ribeiro. Fonte: Wikipédia

Não é novidade pra ninguém, mesmo para aqueles que nunca leram uma página sequer de qualquer texto de Darcy Ribeiro, que sua defesa da autonomia política e econômica do Brasil se expressa como sua mais entusiasmada defesa do nacionalismo. E o sabemos somente porque Darcy Ribeiro tem popularidade de jogador de futebol dos bons. É um pensador do Brasil. Um brasileiro, nascido por aqui pelo arraial das formigas e terra da cultura catopé, que ganhou o mundo, convidado por estadistas e intelectuais famosos a morar na Europa e nos Istêites, preferiu se entranhar na América Latina e reinventar a Pátria Grande das revoluções socialistas no seio da qual pulsaria a pátria de chuteiras. Esse enraizamento de Darcy na América Latina e seu encantamento pelo ‘povo’ brasileiro, esse povo sofrido e festivo, dá a ele, merecidamente, a tarja de capitão dos intelectuais nacionais.

E parece estranha a letra “nacionalismo” no texto de um autor que radicalizou sua crítica social dos instrumentos truculentos das ditaduras que se perfilaram pela América Latina, inclusive no Brasil, pois que o argumento dos milicos aqui e acolá não era outro senão o da defesa da pátria, ou seja, a defesa da nação contra o perigo comunista. Desde então, essa pecha “nacionalista” se alojou nas entranhas do pensamento conservador de modo que o termo mesmo ganhou ares de “posse”, de propriedade dos defensores da pátria contra seus inimigos, os insurgentes de toda espécie.

Os acontecimentos mais recentes em toda a América Latina tem demonstrado justamente isso. A ascensão alhures das extremas direitas traz em sua fachada a reivindicação da defesa da nação contra os detratores, ao mesmo tempo em que recupera o fantasma do comunismo como o mal a ser combatido à bala. Zeladores da pátria, eles conclamam seus pares para uma guerra de morte contra os inimigos da nação.

Ora, mas não é de se estranhar que os ecos da extrema direita, da direita e coisas afins, que reivindicam a chancela de “protetores” da nação, façam suas alianças com os colonizadores de sempre e retroalimentam o seu discurso nacionalista com enunciados propalados pelo império vampiresco que devasta todas as riquezas da nação que defendem? Não é de se estranhar que a defesa da nação esteja aí contaminada pelo servilismo ao império capitalista que superexploração o trabalho e mantem dependente a nação que defendem esses “nacionalistas”? Retórica política, servilismo, subserviência, entreguismo, dependentismo, tudo isso entra na conta desse projeto “nacionalista” cada vez mais em voga.

Como tantos outros de sua geração, mas com uma radicalidade ímpar, Darcy Ribeiro denunciou toda a farsa da extrema direita, desde o militares, até alcançar a direita conservadora que se perpetuou no poder como uma “elite burra” e mesquinha. O nacionalismo, e essa é a correção feita por Darcy Ribeiro, tem a ver com a defesa da nação contra os colonizadores e sua sanha vampiresca de a tudo devastar, sugar, expropriar, roubar, matar e deixar à míngua um povo e suas riquezas naturais.

O nacionalismo requer um amor à pátria que exige a elevação cultural do seu povo, a distribuição equilibrada de suas riquezas para a sua gente, a recusa do autoritarismo e da tortura, a autonomia política e econômica, a garantia de direitos fundamentais e o aprimoramento, em nível de excelência, das qualidades culturais que nascem de forma espontânea das manifestações do povo e que devem retroalimentar a vida espiritual da nação como marcas de sua “identidade” cultural. A riqueza de um povo está em sua opção pelo que é “seu” e não pela importação das receitas prontas.

Intervalo: O futebol nacional…

Vamos ao futebol…! Tivesse Darcy Ribeiro escrito sobre futebol, ou fosse ele um grande entusiasta da pelota, não tenho dúvidas de que suas resenhas esportivas rechaçariam de forma contundente isso que se pratica como “futebol brasileiro” atual. Façamos algumas apostas no DarcyBet a ver se acumulamos alguns pontos no nosso Cartola de plantão.

Comecemos por aquilo que parece ser a máxima expressão de uma nação em chave futebolística, a seleção. Brasileira? A tomar pelos atestados de nascimento, sim, é uma seleção genuinamente brasileira. Todos nascidos nesse latifúndio da Pátria Grande.

Mas não é isso que caracteriza o sentido mais profundo do “nacional”. Há o pathos do pertencimento à vida espiritual do povo no seio do qual se nasce. Há a compreensão das contradições que atravessam a história de formação de uma nação. Há o compromisso social com as desigualdades que assolam trabalhadores e trabalhadoras, superexplorado/as que são pelas forças produtivas do império capitalista. A defesa de uma nação, àqueles que pleiteiam o nacionalismo e o amor à sua pátria, carece de envolvimento político com os problemas do seu povo. Ainda que não de modo a transformar as 4 linhas em palanque eleitoral, mas fazer do futebol, além da expressão da alegria e do entusiasmo, uma instância de contestação, revolta, insurgência e desobediência.

Ora, considerando esses pré-requisitos, Darcy Ribeiro seria assertivo: não temos uma seleção nacional. Não porque os jogadores, quase todos, não jogam no Brasil, mas porque desconhecem completamente o sentido, as vibrações, as contradições, as peripécias, as dores e as alegrias do seu próprio povo. Então, o que representam em campo, se não há esse horizonte nacional? Todos já sabemos, representam grandes empresas capitalistas, grandes marcas de negócios. Em outro flanco, podemos seguir essa trilha que vai do futebol praticado no país durante algumas temporadas até alcançar esse ponto máximo que é a seleção. O que temos aí? Um futebol nacional?

Olhemos para as marcas que patrocinam os clubes e os campeonatos. Olhemos para o perfil dos nossos jogadores e fiquemos atentos às performances dentro e fora de campo. Uma playboyzada… Muito similar, em termos de propósito, ou falta dele, àquilo que Darcy Ribeiro disse sobre a juventude “revolucionária” das universidades latino-americanas. Não que essa gente não tenha direito ao lazer, ao esporte em geral e ao futebol. É que, no caso do futebol, se perde a graça, a leveza, a paixão, o entusiasmo, a euforia, as lágrimas, o grito, o canto e o encanto. Pois que historicamente tudo que a elite brasileira acessa passa a ser domínio exclusivo seu.

A elite “nacional” nunca soube dividir absolutamente nada. Jamais ela suportou as transfigurações materializadas pelas classes populares em condições adversas. Por isso ela cria barragens, interdições, linhas divisórias, marcadores sociais de violência e de morte no intuito de continuar seu projeto de dominação cultural e política.

2º Tempo: A degradação do futebol nacional é um projeto

A apropriação do futebol, sua elitização e miserabilidade, se tratam dessa perspectiva nefasta de esvaziamento de uma parte da vida social brasileira que pulsa dentro dos estádios.

É algo metódico, coordenado, organizado ao modo de uma máfia. Apropriação dos espaços decisórios do futebol, federações e confederações, das diretorias e presidências dos clubes, dos conselhos deliberativos, dos comitês de arbitragens, todas as instâncias administrativas do futebol estão dominadas por banqueiros, grandes empresários, políticos influentes, capital estrangeiro, casas de apostas e toda sorte de agentes muito bem qualificados na arte de roubar as riquezas nacionais, tirar suas comissões e entregar a melhor parte aos gringos. Quem são as administradoras das novas arenas? Quem são os empresários das crianças que mal começam as escolinhas e já estão vendidas aos clubes europeus? Quem são os patrocinadores das nossas estrelas e dos nossos craques forjados como ídolos de uma geração que não sabe bem a diferença entre um bom jogador, um craque e um ídolo?

Essa insanidade que atravessa o futebol de ponta a ponta, esses valores astronômicos de contratações anunciadas a cada início de temporada e que alegra os entusiastas mais desavisados, as declarações rasas pós-jogos de treinadores e cartolas, a circularidade viciosa de treinadores aposentados em atividade com contratos milionários a cada temporada – às vezes em 2/3 clubes numa mesma temporada mantendo seus contratos milionários -, tudo isso é hoje o que coordena a dinâmica do futebol nacional. No limite, eu diria, o futebol brasileiro se tornou uma grande loja de quinquilharias. Performatividade sem conteúdo interessante, ostentação de carros importados, relógios caros, ilhas sem vínculos com o continente, jatinhos particulares sobrevoando a vida rasa dos reles mortais e dos atletas meia-boca, cabelinhos cortados à régua, uniformes de jogo sem uma mancha sequer de lama ou poeira… Performance vazia, nada mais.

Entretenimento esportivo com a vida pessoal – os namoros com as mulheres mais desejadas, as traições nos casamentos, filhos não assumidos, pensões alimentícias não pagas, estupros aos montes de mulheres vulneráveis, agressões e violências outras – . Vejam no que se tornou o debate mais importante da mídia esportiva. É nesse universo de quinquilharias que respiramos o futebol. Melhor, é nesse mar de água insalubre que respira o futebol nacional.

O futebol, me desculpem, não é mais o reflexo da nossa sociedade. É um universo paralelo. O futebol não é uma representação do mundo real, nem é mais a possibilidade do sonho, da embriaguez dionisíaca, da transfiguração criativa do mundo da vida.

Entrega do Título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília para Darcy Ribeiro em 1995. Fonte: Wikipédia

Nos acréscimos: é possível ainda virar esse jogo?

Nesses termos então, de um futebol já desinteressante, carcomido pelos cupins agenciadores do capital internacional e com seu sangue vampirizado pelos banqueiros diretores e presidentes de clubes e confederações, mas na expectativa de um acaso feliz como desfecho desse jogo triste sem gols e ser arte, resta-nos perguntar: o que resta do futebol que vale a pena? O que resta a nós, expectadores que somos da nossa própria miséria clubista? Vejam que tentei fazer até aqui o estoque das quinquilharias que entulham o futebol com o auxílio de algumas chaves de leitura do nosso craque em análise social em profundidade, Darcy Ribeiro, que jamais foi um meia de contenção no campo das disputas políticas ou se lançou à crítica social pelo empate medíocre. Odiava a retranca covarde. Partia sempre pra cima dos seus adversários, preparado com bons argumentos, como o fez com a elite nacional, com os colonizadores, com os militares, com os próprios sociólogos brasileiros internacionalizados e rendidos em seus gabinetes pelas bolsas de pesquisas das agências estrangeiras. O que nos resta, afinal?

O Brasil de Darcy Ribeiro! O Brasil do povo que ainda é capaz de fazer pulsar o carnaval dentro e fora do carnaval das agências de turismo para gringos. Resta a nós o Brasil de um povo novo, capaz de rir, chorar, vibrar, se indignar e celebrar o futebol dentro e fora futebol das empresas de apostas, dos agenciadores cretinos e sem paixão. E que bom que apesar de toda essa desgraça em que se tornou o futebol, irreconhecível e de um estrangeirismo esquisito, nos resta o torcer imaculado, esse que os pulhas do futebol não alcançam e jamais saberão do que se trata, assim como as agências do futebol não podem comprar.

Apesar de vocês, amanhã há de ser outro jogo! A paixão não se vende! A crítica não se aliena! O torcer não se rende, jamais! E viva o torcer, a derradeira virtude do nosso futebol tupiniquim!

*  Ildenilson Meireles é professor da Universidade Estadual de Montes Claros/Unimontes-MG; membro do Observatório do Futebol e do Torcer.

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