Envolvidas em ações para melhorar a sociedade, quatro mineiras falam da sua atuação em BH, dos seus sonhos e de como o trabalho pode transformar o mundo

Por Gustavo Werneck EM 

Mulheres da vida, sim, com muito orgulho. Da vida humana, comunitária, ambiental, cultural, em defesa dos animais, e sempre envolvidas, solo ou coletivamente, em ações para melhorar a sociedade – plantando sementes, colhendo frutos, e, claro, descascando alguns abacaxis. Neste Dia Internacional da Mulher, quatro mineiras falam da sua atuação em Belo Horizonte, dos seus sonhos e de como o trabalho, quando desenvolvido em terreno fértil, pode mudar consciências e transformar o mundo.

E esse vasto mundo está na mira da cineasta Gabriela Matos, moradora do Morro do Papagaio, na Região Centro-Sul. “Cultura é minha identidade”, afirma. Em outra frente, há quase três décadas com um projeto ligado à criançada em atividades ambientais, educativas e comunitárias, Magda Fonseca Coutinho acredita em solidariedade e participação para fortalecer o planeta, pois não basta sonhar: “Precisamos praticar os bons valores humanos”.

Participação e solidariedade, por sinal, não faltam no cotidiano de Danielly Neves Veloso, enfermeira obstetra da Maternidade Hilda Brandão, em BH, onde há registro de cerca de 300 partos por mês. Mãe de Cecília, nascida há um ano e um mês em parto normal, ela encoraja outras mulheres a dar à luz dessa forma. “Mulher é sinônimo de vida”, ressalta

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Cultura é minha identidade, pertencimento, uma forma de ver o mundo”
Gabriela Matos, cineasta, moradora do  aglomerado Morro do Papagaio
Também os não humanos – cães, gatos e outros bichos – merecem a solidariedade, pois “têm sentimentos, demandam cuidados, sofrem violência”, orienta Silvana Coser, fundadora e integrante da organização não governamental (ONG) Brigada dos Animais Sem Teto – Bastadotar. “Levamos adiante essa luta, essa causa. Devemos ter respeito pelos animais.”

Cultura na veia

Uma câmera na mão, mil ideias na cabeça e um universo de arte, manifestações populares, tradições e comportamentos a ser revelado. Declarando-se “fruto de projetos sociais”, a cineasta Gabriela Matos, de 29 anos, moradora do Morro do Papagaio, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, está envolvida em cultura até a raiz dos cabelos “Cultura é minha identidade, pertencimento, uma forma de ver o mundo”, diz a mãe de Isaac, de 12. “Fiquei grávida na adolescência, na época pensei que fosse mudar meus planos, mas só tenho a agradecer a meu filho por tudo”, afirma com alegria.
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
De início, a menina, então com 11 anos, enveredou pela cultura hip hop, enamorou-se do rap, começou a estudar direito, engravidou, deixou de lado o sonho de ser advogada e foi cursar faculdade de cinema. Hoje está à frente da Renca Produções e Interações Culturais, com trabalhos nas áreas audiovisual e de fotografia. O lançamento mais recente é o longa “Matriarcas da Serra”, narrando a história de mulheres mais velhas do Aglomerado da Serra, e “A fé que canta e dança”, com o foco no congado do Morro do Papagaio. Para abril, está programado o festival Papagaio Cultural, tipo virada cultural, “contemplando apenas artistas do Morro”, ressalta Gabriela, cujo objetivo é trabalhar em todos os cantos de BH.

Terreno fértil

Plantio de árvores, projetos educativos, oficinas e inúmeros outras ações fazem parte da Associação Querubins, entidade sem fins lucrativos criada há 29 anos e voltada para o desenvolvimento, por meio da arte, de crianças e jovens das comunidades da Vila Acaba Mundo, Morro do Papagaio e Olhos D’Água, na Região Centro-Sul de BH. Na gestão, está Magda Fonseca Coutinho, autora da iniciativa após a trágica morte do irmão. Para aplacar a dor da perda, ela começou a caminhar na Praça JK, no Sion, viu o grande número de crianças tomando conta de carros, muitas áreas degradadas, lixo jogado pelos canto – e decidiu agir.
“Acreditamos nesse trabalho como de transformação social, pois atuamos para complementar a escola e oferecer às crianças uma série de atividades, incluindo ações ambientais, aulas de inglês, danças, música e outras”, diz Magda, que tem três filhos e três netos.

Na sede da associação, no Bairro Sion, em área de 10 mil metros quadrados, ela se recorda dos primeiros tempos, em 1994, quando promoveu um mutirão de limpeza na Praça JK, revitalizando a parte degradada com o plantio de 100 árvores. Diante dos resultados, recebeu o prêmio Gentileza Urbana, concedido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-MG).

Diante dos serviços prestados voluntariamente, impossível não perguntar sobre qual é o papel do ser humano neste mundo. Eis a resposta: “Precisamos fazer algo em prol da sociedade, e a melhor via está na solidariedade. Estou sempre refletindo sobre isso, e, no meu caso, que sou mulher e mãe, dou exemplo aos meus filhos de participação. Afinal, não basta sonhar, precisamos de ação e prática de bons valores humanos.”

“Mulher é sinônimo de vida, força, superação. 
Toda mulher é capaz de fazer tudo”
Danielly Neves Veloso, enfermeira obstetra da Maternidade Hilda Brandão

Coragem

Em dezembro, o Grupo Santa Casa BH, com atendimento 100% SUS, inaugurou, na Maternidade Hilda Brandão, o Centro de Parto Normal Irmã Dulce, oferecendo às gestantes todas as condições para dar à luz de forma humanizada, cercada de carinho e cuidado. Nesse setor, trabalha a enfermeira obstetra Danielly Neves Veloso, de 31 anos, que não faz ideia de quantas mulheres ajudou e de quantos bebês já viu chegar ao mundo. “São centenas. Imagine que são cerca de 300 partos por mês na Santa Casa”, conta a belo-horizontina graduada há nove anos.
Junto ao trabalho de assistir as mulheres na hora do parto normal, Danielly tem as palavras certeiras para esse momento de extrema delicadeza e carga emocional: “Coragem. Você é capaz. Não tenha medo!”. Assim, está pronta para “empoderar” as mamães, baseada na própria experiência, pois, há um ano e mês, deu à luz a primeira filha, Cecília, sem recorrer à cesariana.
“O Brasil é um dos países, no mundo, que mais fazem cesarianas. As pessoas não querem ter os bebês nos domingos e feriados, preferem agendar, marcar o dia e a hora. O parto normal é geralmente mais longo e demorado, pode durar muitas horas, mas a cesariana é uma cirurgia e seus riscos são consideravelmente maiores. Sendo assim, já no pré-natal, as mulheres deveriam ser encorajadas a tentar o parto normal”, observa a enfermeira obstetra.

Cada vez mais, Danielly se convence da grandeza das mulheres, independentemente de ser mãe ou não. “Elas são sinônimo de vida, força e superação. Cada uma pode fazer o que quiser.”

(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
“Os não humanos também têm sentimento, demandas, precisam de respeito”
Silvana Coser, voluntária da Brigada dos Animais Sem Teto – Bastadotar

Em alerta

A gatinha Pagu está doente, exigindo, nos últimos tempos, atenção redobrada de Silvana Coser, moradora do Bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul de BH. No apartamento, vivem também os felinos Frida, Einstein, Freud, Martina e Dilma, que recebem o mesmo afeto que ela dedica aos animais, à espera de adoção, no abrigo da organização não governamental (ONG) Brigada dos Animais Sem Teto – Bastadotar.
Voluntária na ONG e devotada defensora de cães, gatos e outros bichos, Silvana, natural de Resplendor, na Região do Rio Doce, afirma que os animais continuam sofrendo todo tipo de violência, embora tenha havido uma mudança importante. “Pelo menos, de uns tempos para cá, existe o questionamento sobre se o homem é realmente o centro do universo. Os não humanos também têm sentimento, demandas, precisam de respeito. Se não têm voz, falamos em sua defesa.”

A luta contra a crueldade animal exige uma palavra que, nesta matéria especial sobre o Dia Internacional da Mulher, foi citada várias vezes pelas entrevistadas: solidariedade. E é esse olhar solidário que Silvana espera da humanidade. “As mulheres são agredidas diariamente, são dados alarmantes contra também outras pessoas. Devemos nos conscientizar, cada um, sobre o valor social. Se existe vida, deve haver respeito”, proclama ao se voltar, com cuidado, para a gatinha Pagu, chamada assim em homenagem à escritora Patrícia Galvão (1910-1962), que tinha esse apelido.

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