A democracia pressupõe muita coisa boa, inclusive a liberdade de opinião e expressão, mas igualmente pressupõe limites e responsabilidades.

Sou pai de uma adolescente – confesso sem qualquer falsa modéstia – encantadora; e em todos os sentidos. Atravessamos, eu e ela, aliás, uma fase muito interessante. No meu caso, com um grau de sofrimento que só eu sei, mas natural e passageiro. No dela, a explosão de sentimentos e sensações típicos dos 17 anos. Ah, que saudade!
Uma de minhas “funções” nesta transição de relação é ser Pai Uber, tarefa que realizo com extremo prazer – e sono, hehe. Dia desses, em um leva e traz típico, deixamos em casa uma colega dela. Logo que a porta do carro fechou, minha filha me perguntou: “pai, você viu que ela é trans?”. Por uns dez segundos fiquei como o Windows se reiniciando.
Até em casa, a conversa fluiu de forma maravilhosa. Trocamos opiniões e reflexões a respeito da condição de um garoto, com apenas 16 anos, que não se enxerga nem se compreende garoto, mas garota. Como pai amoroso, zeloso e companheiro que sou, só consegui pensar se aquela menina estava devidamente amparada em seu lar.
Custei a dormir, e não pelo sol que já nascia, mas por pensamentos sobre o ocorrido. Tenho 55 anos e sou de uma geração que ainda não compreende nem aceita naturalmente certos comportamentos sociais, ainda que naturais. Sim, “confusão” de gênero é natural, não é doença, não é escolha, a despeito de tanta ignorância e preconceito a respeito.
Senti muito orgulho de minha filha – e de mim mesmo, admito. Cheguei à conclusão de que somos bons seres humanos: tolerantes, sensíveis, empáticos, sempre prontos e dispostos a estender a mão a quem precisa e merece. Jamais me passou pela cabeça proibir novos encontros entre elas ou mesmo impedir a continuidade da amizade. E por que deveria?
A digressão acima – longa, para não variar – é uma forma de autocontrole (meu). Se eu começasse a escrever tudo o que estava sentido, certamente seria um texto raso e sem o menor proveito. Serviria para me aliviar o espírito, mas não me aquietaria a alma. Eu continuaria tomado pela ira e indignação, sem qualquer sombra de apaziguamento.

CALMO, PERO NO MUCHO

Não vou mentir e dizer que estou com calmo e sem raiva. Não. Mas ao menos consigo levar a você, leitor amigo, leitora amiga, com alguma profundidade, não o que sinto por Nikolas Ferreira, pois impublicável, mas pelo Brasil que experimentos já há alguns anos. Um País que se tornou, além de tudo de ruim que já era, caixa de ressonância do mal absoluto.
Matamos-nos uns aos outros como moscas. Espancamos-nos uns aos outros como selvagens ferozes. Roubamos-nos uns aos outros como se não houvesse amanhã. Uma nação majoritariamente cristã esqueceu de vez o ensinamento de Cristo: “amai-vos uns aos outros como vos amei”. Pois agora, não bastasse tudo isso, temos os Nikolas.
Não, eu sei, ele não é único. Ao contrário! “Ele” são milhões! Ao menos 1.5 milhão, no mínimo, que foram os seus eleitores. E “ele”, em maior ou menor grau de, digamos, escrotidão (não disse que a raiva não havia passado?), tem vários nomes hoje em dia: Engler, Damares, Zambelli, Bolsonaro (pai e filhos) e tantos outros da espécie.
“Ele” assume formas diversas: um garoto idiota qualquer; um velho metido a adolescente; um tiozão do Zap; uma senhora cafona, sedizente nobre; uma velha oxigenada, com camisa da CBF, na porta de um quartel; uma mentirosa, espalhando fake news em culto evangélico. Ou uma contrabandista de joias, com carinha de anjo, em nome de Jesus.

ATÉ QUANDO? 

O espetáculo (mais um! Até quando?) grotesco de transfobia explícita protagonizado pelo deputado federal por Minas Gerais (que vergonha docê, Minas), Nikolas Ferreira, em pleno Dia Internacional da Mulher, durante sessão oficial na Câmara dos Deputados, não guarda precedentes mínimos em toda a nossa triste história e trajetória política.
O que este rapaz fez (repito: mais uma vez! Até quando?) é de uma infâmia, de um despropósito, de um acinte, de uma crueldade, de uma falta de decoro, de um nível tão baixo, tão rasteiro, tão gratuito, que mesmo sabendo ser este o “modus operandi” de quem não tem qualquer conteúdo, senão isso, beira o Inacreditável Futebol Clube.
Nikolas não ofendeu apenas as pessoas trans, mas a Casa que deve ser de todos, que deve abrigar a todos, pois representante de… todos! Ao fazer chacota com a figura feminina, estereotipada sob uma peruca loura, desrespeitou as mulheres em sua data. Como alguém pode ser tão pobre de espírito assim, meu Deus?
https://youtu.be/ITuKERKd_7s
Fico pensando nos pais da colega da minha filha ao assistirem à uma cena destas. E nos pais de tantos garotos e tantas garotas trans Brasil afora. Não bastassem todos os problemas de ordem emocional, psicológica, social, enfim, que enfrentam, têm de ser humilhados por um ser vil, inútil à democracia e à civilização, como é Nikolas.
A democracia pressupõe muita coisa boa, inclusive a liberdade de opinião e expressão, mas igualmente pressupõe limites e responsabilidades. Não há direito absoluto, principalmente quando se fere terceiros. Se queremos um País um pouco – só um pouco!! – melhor que o que temos, não será com esse tipo de político que conseguiremos.
Na boa, já deu! Cassem esse delinquente, já. Do contrário, amanhã os alvos serão outros: deficientes, gordos (estes já são, Nikolas os odeia!), pretos, nordestinos e quaisquer outros padrões que fujam da “perfeição” do hetero, branco, saudável, cristão e de extrema direita. Fascismo, nazismo, fundamentalismo etc. a gente sabe como termina, mas nunca como começa. Eu acho que já começou. A prova está aí. Só não vê quem não quer.

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