No início do séc. XXI filósofos brasileiros iniciaram uma garimpagem na literatura em busca de uma filosofia nacional que não fosse apenas representação do discurso do colonizador, encontrara em Guimarães Rosa além da riqueza das prosas do sertanista, uma frase que os deixaram otimistas.” Moço, eu até sei que nada sei, mas desconfio de muitas coisas” viram ali o que podia significar uma antítese à tese socrática, ‘ Só sei que nada sei”. É como se colocasse entre saber e não saber, o DESCONFIAR. Pode se saber que sabe, ou que não se sabe, mas não pode desconfiar da desconfiança, Renê Descartes já colocava algo parecido sobre a dúvida.
Outra antítese brasileira e bem recente vem de um presídio federal de Curitiba-PR quando um preso pronunciou a seguinte frase: “eu posso ficar cem anos preso, mas não troco minha DIGNIDADE por liberdade, Se Rosa colocou em cheque o valor do saber. Luis Inácio tira a liberdade do patamar superior colocando no lugar a DIGNIDADE, isso ainda não havia sido pautado. Com essa afirmação, perde força o valor da liberdade colocado por Hegel em A dialética do senhor e do escravo: “A diferença entre o homem livre e o escravo, é que o primeiro, troca toda sua comida por liberdade enquanto o segundo troca sua liberdade por um prato de comida”.
Essa mesma liberdade que teve seu valor diminuído pelo presidiário de Curitiba vem além do filósofo alemão, vem desde as narrativas mitológicas da antiguidade. Dédalo e seu filho Ícaro foram presos numa torre acusados de ter furtado um bezerro de ouro alimentavam do mel de uma colmeia e bebia água da chuva. Dédalo economizava ao máximo o mel, para garantir a produção da cera, pois se do mel vinha o alimento para o corpo, da cera viria o alimento para seu sonho de liberdade. O artesão grego construía um par de assas usando penas de aves e a
cera da colmeia.
O artesão grego tinha a fixação pela liberdade via fuga, ou; seja sem dignidade, O metalúrgico brasileiro a tinha por DIGNIDADE. Dédalo e Ícaro conseguiram fugir do labirinto com uso das asas, Dédalo conseguiu êxito, mas seu filho teve diferente sorte, alçou voou mais alto do que devia, calor do sol derreteu a cera e as asas desmancharam. Dédalo fugiu para bem longe da sua terra, e lá viveu atormentado com as acusações de sido imprudente submetendo seu filho a uma aventura perigosa que veio lhe causar a morte. Ainda sofria com insinuações do tipo; e o bezerro de ouro? Ou seja, ganhou uma liberdade sem dignidade, é como se Lula ganhasse uma liberdade sem dignidade e livre tivesse que responder a perguntas incômodas, como: e o triplex? E o sitio de Atibaia. Não, “Eu prefiro ficar cem anos preso que sair sem minha inocência comprovada”.
O que podemos extrair dessa polêmica Liberdade X dignidade? Talvez a possibilidade de uma Liberdade digna, dialogando com uma dignidade libertária. Dignidade sempre, LULA LIVRE.
*Professor de filosofia e colaborador do ECN

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