Assim como obteve uma rápida ascensão, ao trair aliados e se aliar com a extrema direita, o político terminou sem apoio e rejeitado por seu próprio partido

Por Marcelo Hailer – Revista Fórum

O ex-governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou em pronunciamento na tarde desta segunda-feira (23) que desistiu da candidatura à presidência. Com 2% nas pesquisas de intenção de voto, o tucano vinha sendo pressionado pelo seu partido a abrir mão da disputa em nome da construção de um outro nome da chamada “terceira via”.

“Hoje, neste 23 de maio, serenamente, entendo que não sou a escolha da cúpula do PSDB. Aceito essa realidade com a cabeça erguida, sou um homem que respeita o bom senso, dialogo e equilíbrio, e sempre seguirei buscando o consenso mesmo que seja contra minha vontade pessoal”, declarou.

Ascensão e ruína

João Doria não é figura nova na política, mas a sua ascensão na disputa para cargos executivos se deu em 2016, quando venceu a eleição à prefeitura de São Paulo no 1º turno, algo inédito até então na disputa paulistana.

O ano de 2016 tinha o cenário ideal para o sucesso fulminante de João Doria: a presidenta Dilma Rousseff sofrera um golpe que a tirou do poder, o Partido dos Trabalhadores era vítima de uma campanha violenta de criminalização de sua história e, naquele momento, a Operação Lava Jato era tratada como aquilo que ia “salvar o Brasil do comunismo e da corrupção do PT”.

Doria surfou e soube utilizar em benefício próprio o discurso produzido em torno da Lava Jato: era o não-político, o empresário bem-sucedido que estava fazendo um favor de se dedicar à política, o homem moderno que ia desburocratizar o Estado e, se possível, entregar a gestão da cidade de São Paulo ao setor privado. A tática funcionou e Doria atropelou a candidatura de Fernando Haddad, que buscava a reeleição.

Além disso, clamava que era preciso acabar com o “Bolsa Crack” na cidade de São Paulo ao se referir ao Programa Braços Abertos, primeira experiência baseada na política de redução de danos para lidar com o consumo do crack no centro da capital paulista… Cumpriu a sua promessa: na primeira semana como prefeito, em uma ação articulada com o governo do Estado, desmontou o programa e trocou a assistência e saúde por balas de borracha.

Mas foi justamente na sua vitória à prefeitura de São Paulo que João Doria cometeu o seu primeiro ato de traição: havia prometido ao eleitorado que iria concluir o seu mandato e só depois iria pensar em alçar outros voos. Um ano e meio depois Doria passão o bastão da Prefeitura da cidade de São Paulo para Bruno Covas.

Oportunista político, Dora percebeu que em 2018 o discurso político havia migrado à extrema direita e que a vitória do então candidato Jair Bolsonaro (PL) era certa. Desta feita, defendeu que o PSDB apoiasse Bolsonaro já no primeiro turno e abandonasse a candidatura de Geraldo Alckmin, o candidato tucano à presidência da República em 2018. Acontece que Alckmin havia apadrinhado e apostado em João Doria como um novo quadro tucano paulista, Doria o agradeceu com traição.

Bolsodoria
Para conquistar o Palácio dos Bandeirantes, João Doria se aliou a extrema-direita, defendeu o Escola Sem Partido – grupo fundamentalista que defende o controle do conteúdo das escolas e o criacionismo – e declarou aos quatro cantos que iria combater “a ideologia de gênero”, neste sentido, Doria é um quadro regressivo quando comparado com os quadros tucanos de São Paulo.

No segundo turno da eleição de 2018 João Doria lançou a campanha BolsoDoria e mergulhou de cabeça nas teses extremistas.

Na disputa contra Marcio França (PSB), Doria trouxe para São Paulo o discurso da campanha de Bolsonaro: combate ao comunismo e a ideologia de gênero. Além disso, chamava o seu adversário de “Marcio Cuba”, em referência ao país socialista. Todavia, mesmo com a campanha BolsoDoria, João Doria não teve uma vitória fácil e conquistou o governo de São Paulo com pouco mais de 1 ponto de diferença em relação a França.

Declínio

Sem o apoio da extrema direita e rompido com Bolsonaro, Joao Doria viu a sua popularidade derreter e as intenções de votos em seu nome não irem além dos 2%. Soma-se a isso a realização de uma prévia completamente conturbada.

Mesmo com uma atuação acertada durante pandemia, a popularidade de João Doria nunca mais retornou.

João Doria, que sonhava em controlar o PSDB, levou uma puxada de tapete de quando grupos liderados por Aécio Neves defenderam publicamente para que o governador de São Paulo retirasse o seu nome em prol de Eduardo Leite.

Doria, enfim, experimenta das armas que utilizou contra “aliados” e, mesmo com a vitória das prévias, o governador de SP foi abandonado por seu partido e hoje vive a ruína de sua carreia política.

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