Ao abordar o tema diante dos fiéis, Macedo questionou a posição ocupada pela pátria na expressão difundida pelo movimento bolsonarista

Edir Macedo – Crédito: Reprodução (Redes Sociais)

O bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), criticou publicamente o lema “Deus, pátria e família”, uma das principais expressões utilizadas pelo bolsonarismo, e defendeu uma mudança na ordem das prioridades religiosas e sociais. A declaração foi feita durante um culto realizado em 25 de outubro, data do segundo turno das eleições presidenciais, e ganhou repercussão após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Segundo reportagem de Henrique Rodrigues, publicada pela Revista Fórum nesta segunda-feira (2), o pronunciamento ocorre em um contexto de mudanças nas relações entre lideranças evangélicas e a família Bolsonaro. A Igreja Universal, que apoiou Jair Bolsonaro em eleições anteriores, adotou uma postura de distanciamento da disputa presidencial de 2026, concentrando seus esforços políticos na eleição de representantes para o Congresso Nacional.

Ao abordar o tema diante dos fiéis, Macedo questionou a posição ocupada pela pátria na expressão difundida pelo movimento bolsonarista. Para o líder religioso, a família deve estar acima do Estado na hierarquia de valores defendida pela igreja.

“Eu não aprovo aquela teoria ‘Deus, pátria e família’. Primeiro Deus, segundo a família, e terceiro o Estado, ou o que mais queira ser. Na Igreja Universal do Reino de Deus nós priorizamos essa hierarquia: primeiro Deus. Assim foi com Abraão, assim foi com Isaac, assim foi com quem seguiu esse padrão: Deus, família, e então, o resto”, afirmou.

O bispo reforçou seu posicionamento ao argumentar que a própria existência de uma nação depende da organização familiar, que, em sua interpretação religiosa, deve estar subordinada à fé.

“Se não houver família, vai haver pátria? Impossível! Só vai haver pátria quando vier da família, que vem de Deus. Primeiro Deus, aí a família e todas as demais coisas”, declarou.

Embora a manifestação tenha sido apresentada como uma orientação doutrinária, seu conteúdo adquiriu significado político pela associação histórica da expressão com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados. O lema esteve presente em discursos, mobilizações e campanhas do grupo político, tornando-se um dos símbolos de identificação de seus apoiadores.

A crítica de Macedo não representa, por si só, uma declaração formal de rompimento com a família Bolsonaro. No entanto, reforça os sinais de distanciamento entre a direção da Igreja Universal e o núcleo político do ex-presidente, especialmente diante da opção da denominação por não declarar apoio a nenhum dos candidatos na disputa presidencial deste ano.

Igreja Universal priorizou eleições legislativas

A atuação política da Igreja Universal nas eleições de 2026 foi marcada pela prioridade concedida às disputas parlamentares. Em vez de concentrar sua mobilização na corrida presidencial, a instituição buscou fortalecer candidaturas alinhadas aos seus interesses no Legislativo.

A estratégia esteve relacionada à preocupação de dirigentes religiosos com propostas capazes de afetar o funcionamento institucional e financeiro das igrejas, incluindo discussões sobre tributação de templos e mudanças legislativas envolvendo questões religiosas e comportamentais.

A decisão também ocorreu em um cenário de disputa por influência sobre o eleitorado evangélico. Nos últimos anos, diferentes lideranças e grupos conservadores passaram a competir pelo apoio desse segmento, ampliando a concorrência entre candidatos vinculados diretamente às denominações religiosas e políticos identificados com o bolsonarismo.

De acordo com a Revista Fórum, os resultados eleitorais evidenciaram dificuldades enfrentadas por candidaturas ligadas à Igreja Universal. Em São Paulo, representantes do Republicanos registraram perdas de apoio, enquanto, no Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, ex-prefeito da capital fluminense e integrante da denominação, não conseguiu conquistar uma vaga no Senado.

O desempenho dessas candidaturas integra um processo de reorganização das forças conservadoras, no qual a identificação religiosa não assegura necessariamente a transferência de votos para nomes apoiados pelas instituições eclesiásticas.

Resultado eleitoral amplia debate sobre o futuro da direita

A manifestação de Edir Macedo também ocorreu em meio às consequências políticas da derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial. O senador disputou o segundo turno como representante do PL, mas foi superado por Lula, reeleito para um quarto mandato.

O resultado intensificou as discussões sobre a reorganização das alianças no campo conservador e o papel que a família Bolsonaro continuará exercendo sobre partidos, governadores e lideranças religiosas.

O cenário é influenciado ainda pelos desdobramentos judiciais envolvendo integrantes do grupo político, incluindo a condenação e a prisão de Jair Bolsonaro e as investigações relacionadas a Flávio Bolsonaro. Apesar dessas circunstâncias, o PL mantém uma presença expressiva no Congresso Nacional.

Entre os nomes que ocupam espaço nas articulações da direita está o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cujo partido mantém vínculos políticos com setores ligados à Igreja Universal. Sua atuação combina uma agenda econômica liberal com negociações institucionais e relações com diferentes segmentos conservadores.

A relação entre lideranças religiosas e partidos políticos constitui um dos elementos dessa reorganização. Para a Igreja Universal, a preservação de representação parlamentar permite acompanhar e influenciar debates legislativos diretamente relacionados aos interesses da denominação.

Nesse contexto, a manifestação de Edir Macedo ganha relevância por atingir um dos símbolos mais conhecidos do bolsonarismo. A declaração expressa uma divergência pública sobre a formulação do lema, embora o bispo não tenha anunciado apoio a Lula nem formalizado uma ruptura política com os Bolsonaro.

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