Era o todo poderoso PSD.

Desde menino, o velho partido das classes dominantes comandava a política tupiniquim.

Fazia e desfazia prefeitos.

E Câmara de Vereadores.

Por sinal, vereador não ganhava nada.

Tinha apenas prestígio popular.

Como os “coronéis” Deba e Neco Santamaria.

Depois surgiu a arenona dos governos da ditadura militar.

Foi aí que um bando de meninos rebeldes ainda em bancos escolares pensou: por que a juventude não tem vez na política partidária da cidade?

Por que os jovens não constroem a cidade progressista tão sonhada pelos mais novos?

Criou-se então o MDB para aglutinar essa meninada insurgente.

A memória ainda se lembra de alguns nomes: João Avelino, José da Conceição, Luiz Tadeu Leite, Manoel Messias, Miguel Vinícius, Pedro Narciso, Aparecida Bispo, Carlão Alcântara, Zé Maria Peito de Aço e mais uma meia dúzia de sonhadores.

Depois, o partido só foi crescendo: doutor Aroldo Tourinho, João Carlos Sobreira, Orlando Pereira, os irmãos Mário e Genival Tourinho (este estudando em Belo Horizonte), Nozito Mota, Augustão Bala Doce, João Carlos Revert, Paulo César Gonçalves de Almeida, Tião de Lu, Adão Machado e muitos outros.

Mas a autoritária Arena militar continuava mandando.

E chamava a seus opositores de subversivos.

E diziam jocosamente que a agremiação oposicionista era um partido tão grande que as suas reuniões ocorriam no interior de uma Kombi.

Mas o pequeno partido foi crescendo na surdina e tomando corpo de uma força popular.

E a cada ano penetrando no seio da sociedade montes-clarense, inclusive, na zona rural, de distritos de expressivos colégios eleitorais.

Já em 76, o MDB elegeu três vereadores, dentre os quais, o mais jovem do Brasil: Tadeu Leite, que à época mantinha um programa de rádio líder de audiência chamado Boca no Trombone.

E em 1982, com a adesão da velha raposa da política tupiniquim, ressurgindo do ferrenho Partido Republicano de priscas eras, o extrovertido e popular médico Mário Ribeiro, ganhou a Prefeitura e assumiu as rédeas da política municipal.

Toda essa luta teve lugar nos anos de chumbo da ditadura militar, tempo em que os governadores de Minas eram indicados pelo presidente da República de plantão.

Não havia ideologias de esquerda e de direita.

Havia sim, uma oligarquia civil que mandava e desmandava nos destinos da cidade, as eternas classes dominantes.

E um grupo de jovens idealistas que queria que o povo fosse o dono do próprio nariz e imprimisse uma nova visão de desenvolvimento do município.

Que tinha a estrutura de uma cidade de porte médio, mas uma política que pensava pequeno.

E não houve movimentos populares como o Diretas-já.

Houve sim, uma revolução calada nas urnas, onde o povo deu o seu próprio grito de liberdade.

O metalúrgico Lula, líder sindical, travou luta idêntica, em nível nacional.

Para empreender suas batalhas, fundou o Partido dos Trabalhadores.

E saiu de peito aberto pelo país afora sem medo de ser feliz.

Com habilidade, carisma e jogo de cintura, ele conseguiu o consenso de todas as correntes de pensamento do país e caiu nos braços do povo.

Sem ideologia de esquerda e de direita, tinha na cabeça e no bolso o idealismo dos que sonham em fazer do país uma nação mais justa e igualitária.

Suas políticas sociais foram moldadas nas letras da mais fina sociologia de quem nunca sequer soletrou a cartilha do socialismo como forma de governo.

“Vou fazer o que o povo necessita e quer”, pensou com seus botões, e começou a fazer, como se estivesse empunhando com maestria um torno mecânico.

O nordestino analfabeto e de quatro dedos na mão direita foi presidente da República por duas vezes, elegeu e reelegeu sua sucessora.

Ia lá tocando o seu partido em direção à invejável marca de 20 anos no comando político nacional.

Por ironia ou capricho do destino, no entanto, teve o seu sonho transformado em pesadelo pelos adversários políticos e por setores da elite organizada.

Tudo começou com o vergonhoso impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

A partir do golpe de estado, ex-presidente populista tem sofrido, ao longo dos últimos dois anos, a maior perseguição dos segmentos reacionários e de uma mídia marrom que querem vê-lo e a seu partido bem longe do poder político nacional.

Que lhe valeu, inclusive, uma condenação judicial em segunda instância e a ameaça latente de prisão e perda dos direitos políticos por oito anos.

Uma história e tanto, não?

Mas infelizmente ainda há poderes e instituições neste pais que não se lembram dela.

(*) Felipe Gabrich é jornalista e colaborador do Em cima da notícia

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