‘Com mais informações, talvez o sofrimento fosse menor’, diz parente de desaparecidos em Brumadinho
Familiares de pessoas desaparecidas na tragédia de Brumadinho se apoiam em amigos para suportar a dor, ao mesmo tempo em que se revoltam com a falta de informações

Brumadinho – Nas ruas do distrito de Tejuco, em Brumadinho, na Grande BH, há sempre um braço para amparar, um abraço para acolher e uma palavra ou duas, sempre abafadas pela dor, para dar forças a um amigo. No mais, são os olhos do espanto, o andar a esmo ou o choro convulsivo pela falta de informações ou notícias dos desaparecidos na tragédia, ocorrida no início da tarde de sexta-feira, do rompimento da Barragem da Mina do Córrego do Feijão, empreendimento da Vale. “Estou segurando minha mãe, ela está desesperada, saiu andando por aí, entrou no mato e fui atrás”, disse, ontem, Mary Cristina Nunes, de 32 anos, que também não esconde a apreensão pelo desaparecimento do irmão Peterson Firmino Nunes, de 35, casado e pai de três filhos. A exemplo de muitos moradores de Tejuco, Peterson trabalhava na unidade da empresa, com atuação no almoxarifado.Continua depois da publicidade

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Ao lado do irmão Fernando Nunes Araújo, de 29, desempregado, Mary diz que foi atrás da mãe “no mato” e quase desmaiou, sendo socorrida por vizinhos. Com os olhos muitos vermelhos pelas lágrimas e duas noites sem dormir, Fernando, a todo momento, olha no portão para ver onde está Malvina Firmino Gomes, a mãe em desespero pelo filho Peterson. No início da tarde de ontem, Malvina estava na casa da vizinha Izabel Andréa Bento, que não tem notícias do irmão Jonas e de quatro sobrinhos que também trabalhavam na Vale. “Nossa vida agora é só esperar, esperar…Não sabemos até quanto. Estamos todos de luto”, disse Izabel.

No alto, no fundo das casas, dá para ver as montanhas lavradas pela mineração, o que faz Malvina lembrar que, na madrugada de ontem, soou o alarme na mineradora, embora o risco de rompimento de outra barragem tivesse sido descartado, pelo menos por enquanto. “Pois é, na hora que não precisa, eles ligam a sirene. Agora, quando tem que avisar, não fazem nada”, disse Malvina, para em seguida, citar baixinho o nome do filho Peterson e dizer que quer o filho vivo. Logo após a conversa, dava para ver amigos e vizinhos chegando perto e se abraçando numa união de força contra o sofrimento máximo.

Sem perdoar a mineradora e lembrando a tragédia ocorrida há pouco mais de três anos em Mariana, na Região Central, Fernando perguntou: “Até quanto a Vale vai destruir Minas e causar tanto mal?”.

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