Presidente brasileiro foi recebido na Casa Branca, em cerimônia oficial, pelo homem mais poderoso do mundo. Há muito a se reconstruir – Janja, Lula e Joe Biden, na Casa Branca – Créditos: Presidência da República/Reprodução

Ladies and gentlemen, the President of Brazil, Luiz Inácio Lula da Silva. Com essa frase o cerimonial da Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos da América, anunciou a entrada do ex-metalúrgico no local de onde despacha o homem mais poderoso do mundo. Segundos depois, Lula (PT), sorridente e a acompanhado da primeira-dama Janja, estendia a mão e cumprimentava seu anfitrião, o presidente Joe Biden. A última vez que o petista esteve no Salão Oval foi há quase 14 anos, em março de 2009, quando conversou amigavelmente com o Barack Obama.

Naquela sala, onde a liderança com maior poder econômico, político e militar do planeta delibera e toma suas decisões, o experiente mandatário brasileiro, em seu terceiro mandato no Palácio do Planalto, sabe que tudo é e será diferente. E isso vale para o líder estadunidense também. Os dois têm inimigos em comum, enfrentam desafios em alguma medida semelhantes e precisam um do outro para reposicionarem suas nações no mapa geopolítico.

Biden enfrentou a loucura dos desarrazoados seguidores de Donald Trump, as mentiras mortais e insanas, a violência de um discurso cínico, demagógico e puritano que jorra da boca de desajustados. Lula esteve face a face com o barbarismo colérico de uma matilha que mata e morre por Jair Bolsonaro (PL), o patético e mondrongo deputado de baixo clero que conseguiu se converter em bússola moral no Brasil. Os dois, Lula e Biden, duelam com o mesmo vilão: a extrema direita e seus métodos abjetos e sem limites.

Saudado por militares dos quatro ramos das Forças Armadas da mais trucidante máquina de guerra de que se tem notícia na História ainda no aeroporto, a pompa e a circunstância da viagem oficial de Lula e do encontro com seu homólogo norte-americano já indicavam a particularidade dessa visita, muito diferente de outras entre presidentes do Brasil e dos EUA. O ar despojado de Lula ao passar pelo tapete vermelho estendido à frente do avião presidencial, trajando um sobretudo preto, calça de sarja, sapatênis e sem gravata, em nada refletia a seriedade de quem precisa anunciar ao mundo a retomada das relações civilizadas entre dois países de peso central no cenário das relações internacionais.

Na pauta do formal e histórico encontro com Joe Biden, para além dos desafios de enterrar o extremismo reacionário em toda a extensão das Américas, muitas outras coisas se impuseram. O eixo principal das negociações ficou em torno da democracia, dos direitos humanos e do meio ambiente.

As tentativas de golpe ocorridas em 2021 no Capitólio, em Washington, e em 2023 nas sedes dos três poderes da República, em Brasília, assim como a lida com oposições que não estão dentro do esquadro democrático, apelando às mentiras, desinformação e ao uso deletério e totalmente irresponsável das redes sociais é o que une os dois presidentes num primeiro momento.

A conversa de Lula e Biden também transitou pela entrada dos EUA no Fundo da Amazônia, que foi desmontado pelo governo Bolsonaro como sinal de sua aberta rejeição às questões ambientais. Se tudo transcorrer conforme o esperado, estima-se que, para a proteção das florestas, o volume de recursos a ser transferido para o Brasil atinja os US$ 4 bilhões. Com a reabilitação da imagem brasileira no mundo no que tange o resguardo de sua exuberante natureza, Lula quer deixar claro que o país saiu do negacionismo climático e que para tanto irá apresentar todas as ações que a sua gestão já tomou no que diz respeito à proteção das florestas e da Amazônia, o que inclui, obviamente, as operações contra os garimpeiros de Roraima, o socorro aos indígenas do povo Yanomami e a reconstrução das instituições de Estado incumbidas da defesa do meio ambiente, como o Ibama e a Funai.

Retomando o pragmatismo nas relações diplomáticas, uma marca histórica do Brasil e de seu prestigiado Itamaraty, desmontada pela psicose ideológica bufa de Bolsonaro, o encontro de Lula e Biden, de acordo com interlocutores do governo brasileiro, já estaria reorganizando a reabilitação de mais de dez mecanismos de cooperação bilateral, que não ficariam restritos aos acordos comerciais que estavam paralisados, mas também englobando temas como o combate ao racismo e a promoção dos Direitos Humanos.

Só o que não ficou claro no encontro de Biden e Lula foi se houve algum tipo de conversa sobre um assunto incômodo aos dois: a permanência de Jair Bolsonaro em território norte-americano após o abandono de seu mandato no penúltimo dia de governo. O extremista militarista brasileiro tornou-se uma espécie de fantasma e, mesmo contra a vontade da Casa Branca e da maioria esmagadora do universo político dos EUA, segue pretendendo instalar um simulacro de Quartel-General do ultrarreacionarismo em pleno solo estadunidense, na mansão onde está instalado na cidade de Orlando, na Flórida.

O resultado do badalado e esperado encontro oficial dos dois líderes, ao que tudo indica, pelo menos num primeiro momento, foi alcançado. Mostrar ao mundo que os dois gigantes estão de pé, plenos em suas democracias e na luta constante e aguerrida contra o autoritarismo da extrema direita, assim como tocando a vida e reafirmando suas parcerias, é o que importa depois de tanto tempo mergulhados na incerteza e flertando descaradamente com a incivilidade do radicalismo e do sectarismo de seus antigos governantes extremistas.

Revista Fórum

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