O capoeirista montes-clarense, Wilton Marcos Araújo, o Mestre Lagartixa, 54 anos, líder do Grupo Geração Capoeira Internacional, desenvolve atividades docentes de Capoeira na Europa há mais de 30 anos. Atualmente coordena academias na Suíça e na França e seu trabalho é amplamente reconhecido e respeitado entre os europeus.
Ele foi convidado pela nossa reportagem para falar um pouco sobre o seu trabalho com a Capoeira fora do Brasil e propôs conceder a entrevista no espaço em que o seu amigo, Mestre Tadeu, líder do Grupo Arundê Capoeira, leciona, no Salão de Eventos da Associação Desportiva Ateneu: foi ao mesmo tempo uma entrevista e uma vivência com alunos do Mestre Tadeu.
O Mestre Lagartixa começou na Capoeira no início da década de 1980, ainda criança. Seu pai, Clemente Pereira Araújo, conhecido como “Senhor Quezinho”, homem ligado a atividades culturais e à boemia montes-clarense (era proprietário de uma casa de jogos), hospedou em sua residência, certa época, um amigo capoeirista, o Mestre Alfredo Carne de cobra, que lecionava em Montes Claros. O menino Wilton ficava observando o capoeirista treinar no quintal da sua casa. O pai não queria que ele se envolvesse com Capoeira na infância, temia que o filho se afastasse dos estudos ao se envolver com a Capoeira.
O menino então começou a praticar, às escondidas, os movimentos que observava o amigo do pai treinar diariamente. Tempos depois passou a observar a Roda de Capoeira que acontecia na Praça da Matriz, e não demorou a estar praticando com outros meninos o que aprendia ali; o pai continuava sem saber da paixão e do envolvimento do filho com a arte-luta. O menino era um autodidata disciplinado.
Quando procurou uma academia para treinar, já conhecia muito de Capoeira. Começou com o Mestre Zé Maria, que na época era instrutor. Ali recebeu o apelido de “Lagartixa”, pela sua magreza e pela habilidade de fazer movimentos corporais difíceis. Praticou com ele até chegar à graduação de instrutor (cordão amarelo-azul). Praticou com o Mestre Reinaldo e dele recebeu a graduação de professor.
Em 1992 decidiu ir com sua Capoeira para a Europa. Conseguiu juntar algum dinheiro, com ajuda dos amigos, e viajou. Esteve na Bélgica, seguiu para a Holanda, onde ficou um tempo, e depois foi para a Suíça. Na Suíça se adaptou melhor e conheceu pessoas que se tornaram seus amigos e que o ajudaram a divulgar seu trabalho. Casou-se com uma moça suíça, Franzisca Soerensen, com quem tem um filho já adulto que mora em Las Vegas – EUA.
Em 1998 recebeu a graduação de Contramestre, do Mestre Teté e Mestre Zabelê, na Suíça. Em 2004 recebeu o título de Mestre, do Mestre Zabelê, no mesmo país. Criou o Grupo Geração Capoeira Internacional. Esteve um período de volta a Montes Claros, mantendo suas academias na Europa, época em que aproveitou para estudar: concluiu o curso de licenciatura em História em uma faculdade local. Já formou vários discípulos, no Brasil e na Europa; levou vários brasileiros para trabalhar com ele na docência de Capoeira no Velho Mundo. Sente orgulho em dizer que sempre viveu de Capoeira, nunca trabalhou em outra profissão – antes de ir para a Europa chegou a fazer uma experiência em serviço de segurança, mas foi por pouco tempo e, mesmo nesse período, não deixou de praticar e ensinar a arte-luta.
“A Capoeira me ajudou a conhecer o mundo, a conhecer vários países, e me deu tudo que eu tenho, apesar de ter encontrado algumas dificuldades no início, quando cheguei na Europa!”, afirma o Mestre. Ele fala quatro idiomas estrangeiros, aprendidos na lida com a Capoeira: fala fluentemente Espanhol e Francês, e tem um bom domínio de Inglês e Alemão. Seus discípulos europeus aprendem Capoeira em Português: “Eles precisam aprender Capoeira na língua original; por isso eu ensino a eles Capoeira e Língua Portuguesa; todos os meus alunos falam Português. Eu comunico com eles na língua deles quando for necessário, mas na hora de praticar Capoeira nós conversamos em Português”. Diz ao falar do seu trabalho fora do Brasil.

Na Europa ele conheceu vários capoeiristas brasileiros que lá estavam e reencontrou alguns que ele já conhecia: inclusive o Mestre Alfredo Carne de cobra, que indiretamente o estimulou a praticar Capoeira, ele o encontrou na Alemanha – o Mestre Alfredo voltou para o Brasil posteriormente e hoje é falecido. Vários capoeiristas montes-clarenses atualmente estão vivendo na Europa e para lá foram em função da Capoeira. Ele cita alguns nomes que lembrou rapidamente: Mestre Marreta, Mestre Paulo Chocolate, Mestre Sombra, Mestre Hélio Jacaré, Mestre Cebolinha, Contramestre Maré, Contramestre Faísca, Professor David Bom Cabelo, Professor Márcio Bicudo, Professor Cóe, Professor Moisés, Professor Marrom, dentre outros.
O Mestre Lagartixa está passando alguns dias na sua terra natal em virtude do falecimento recente do seu pai e brevemente voltará para a Europa.

* João Figueiredo é jornalista, escritor e sociólogo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 + 2 =