* Por José Henrique (Juca) Brandão
“O homem tem que ser visto, principalmente em toda singeleza como um ser mortal. Sujeito aos pecados e às maldades do mundo. Abaixo de Deus, aquém dos anjos e dos santos, mas infinitamente além das feras, digno de nosso respeito, de nossa compreensão e de nosso amor”.

Antônio César Drummond Amorim morreu no último dia 12/06/2024. O seu sepultamento ocorreu 13 de junho, no Parque da Colina Rua Santarém, n. 50, Bairro Cintra – Belo Horizonte. Amigos, parentes, e conterrâneos estiveram lá no último adeus ao brilhante bocaiuvense.
Ainda menino e miúdo fora ele enviado para o Seminário Premonstratense em Montes Claros. Lá, recebeu o apelido de Tikim, dos seus colegas internados ali. Quando cresceu mais um pouco desistiu de ser padre. E voltou para a sua querida terra, para ficar junto à sua mãe, a saudosa professora Maria Augusta Drummond Amorim. O seu pai, um negociante, se chamava Sérvulo Pereira de Amorim, morto há anos. Já rapaz e logo que foi possível Antônio César fez concurso para o Banco do Brasil. Aprovado com louvor tomou posse na agência de Bocaiuva.
Na sua terra, lançou o seu primeiro livro, com muitos festejos e com a ilustre presença do prefeito, de seus amigos e dos colegas bancários. O glorioso evento literário ocorreu no Bocaiuva Club e foi promovido pela então festejada colunista social, Gabby, ou seja, Heleninha Brandão. “Aldinha não é existe, não é triste? Era nome do seu primeiro livro. Decorridos alguns anos ele se mudou para o Rio. Trabalhou na agência Cinelândia. Depois foi para Brasília (DF), onde laborou no DESED como supervisor na área de comunicação da presidência. Da capital do Brasil, ele retornou a Belo Horizonte.
Depois, casado e aposentado, o vitorioso Drummond Amorim veio passar uma longa temporada na sua querida Bocaiuva junto à sua idosa mãe. Nessa quadra, a cidade já tinha feito as pazes com o progresso. Dava-se para se viver razoavelmente e escrever mais ainda. De mim, logo que se instalou com a mulher e filhos, ele recebeu como presente de boas vindas, um galo e uma bela galinha. Quanto aos cachorros, lembrei a ele que na praça, onde iriam morar, existiam muitos deles. E que o alpendre da casa era imenso. Bastariam uns tapetes velhos e comidas, para os bichinhos.
Iriam gostar da nova Bocaiuva, bem diferente de Oblivion, da lavra de Monteiro Lobato: “A cidadezinha onde moro, lembra soldado que fraqueasse na marcha e, não podendo acompanhar o batalhão, à beira do caminho se deixasse ficar, exausto e só, com os olhos saudosos pousados na nuvem, de poeira erguida além”…
Bocaiuva, a bem da verdade, tinha se tornado outra cidade depois de Wan-Dyck Dumont, com as suas espetaculares gestões. Em que pese os lamentos e os protestos do nosso conterrâneo e premiado Sebastião Nunes: “o prefeito pode até derrubar, os jardins e os bancos das pracinhas da cidade. Ele só não tem o direito de derrubar os jardins e os bancos da minha imaginação”!
E Bocaiuva tornou-se brilhante, garbosa e até prosa: “Ora, Minas inteira é distrito de Bocaiuva, com exceção de Montes Claros que tem uma velha rivalidade com Bocaiuva surgida em 1533, nas expedições de Spinozza e Navarro”. (Um fragmento simpático e galhofeiro do magnífico jornalista, Eduardo Almeida Reis – Estado de Minas 21.09.2011)
Certa vez estávamos lá na redação do saudoso e glorioso jornal “O Debate de Bocaiuva”, quando chega o Antônio César. -Agora é a sua vez, falamos juntos! Eu e Pedro Rodriguez, o famoso Pedro Sem Medo, digno condutor daquele jornal, com arrojo e grandeza. Daquela feita, era uma edição dirigida ao prefeito Wan-Dyck Dumont. Seriam como assim foram, duas páginas centrais homenageando-o. Visava-se reconhecer os méritos do eterno prefeito. Sem politicagem. Por amizade e reconhecimento. Para tal a nobre demanda coubera ao Antônio César. A bem da verdade, uma digna tarefa! Vejam:
“Há muitas maneiras de se começar a falar em Wan-Dyck Dumont. Uma delas, não importa se a mais presunçosa é apelar para a filosofia e usar qualquer coisa como o método socrático, a que chamaram maiêutico, conforme ensina os compêndios. A coisa funciona mais ou menos assim: Por meio de perguntas, orientadas para determinado fim, dobra-se habilmente o outro, levando-o a si contradizer nas respostas até reconhecer um ponto de vista, muitas vezes contrário ou alheio ao que ele pensava antes. Quando a marca de Wan-Dyck Dumont está em jogo, não há como sair do óbvio: com o seu modelo de vida, dribla qualquer questionamento, porque paira acima de toda discussão: é unanimidade e pronto. Batalhador na hora do vamos ver, sem ligar para as altas metafísicas e sem abrir mão da simpatia nata, disparou a criar, a fazer obras, não as que deviam redundar em votos, que ele nunca foi disso, mas aquelas que eram importantes de fato para a comunidade”.
No vai e vem inexorável da vida, o Tikim, também apelidado de Moe, coisa dos amigos mais íntimos. Um deles, por exemplo, o saudoso Paulo Katatau. Outros amigos, como nós, era só César.
Por fim, nas altas hostes intelectuais, se fez conhecido como Drummond Amorim. Ou seja, quando ele já era um astro na literatura infanto- juvenil brasileira.
No livro, Beto, o analfabeto, ele me dedicou: “Para Juca um abraço de A.César Boc. 15. VII. 2008. Na pag. 96 deste mesmo livro há o cabedal intelectual do César, até o ano de 2008:
Co-diretor/editor do Suplemento Literário de Minas Gerais. Com romances e contos para adultos e jovens, obteve duas dezenas de prêmios em âmbito nacional, entre outros: “Guimarães Rosa,” “João de Barro”, “Cidade de Belo Horizonte” (MG), “Alfredo Machado Quintella”, “Altamente Recomendável” (RJ), “Concurso Nacional de Contos (PR)”, “Status” (SP). Livros seus foram selecionados em programas dos governos, Federal e de Minas Gerais e adaptados para cinema, teatro, rádio, televisão e festas populares. Publicou Historia de um primeiro amor (RJ, Record; Belo horizonte; Belo Horizonte, comunicação, Dimensão), De Milena, circo e sonhos ( Belo Horizonte, Imprensa Oficial; Comunicação, Balé de Sombras ( Belo Horizonte, Lê), Droga de cidade grande ( São Paulo, Paulinas) e Xixi na cama (Belo Horizonte, Comunicação; Dimensão. Participou de diversas coletâneas como: História de amor infeliz (Rio, Nórdica), Novos contistas – vencedores do VII Concurso de Contos do Paraná(Rio, Francisco Alves) I Concurso Nacional de Contos Infantil (São Paulo, Santo Alberto, Status Literatura( São Paulo, Editora Três, Antologia do conto brasilense ( Brasília, Projecto Editorial Contos da terra dos contos ( Porto Alegre, Mercado Aberto).

No ano de 1974, estive no Rio de Janeiro, para encontro de poucos dias com alguns colegas de Faculdade. Fiquei hospedado no apartamento onde moravam o César e Talma Dias Maciel, hoje médico e que continua morando no Rio. Talma havia morado em Bocaiuva, como funcionário do Banco do Brasil e feito muitas boas amizades na cidade. Lá no Rio e por duas variadas noites, nós três assistimos, no Teatro Opinião, aos shows de Nelson do Cavaquinho e de Carlinhos Lira. Em outra noite, fomos a um barzinho ali perto e muito em voga na então Cidade Maravilhosa. Chamava-se Chamariz. Lá tivemos bons papos, roemos umas gostosas fritas e tomamos uns bons chopes.
De volta e na sacada do andar, extasiados pelo movimento febril da avenida lá embaixo, perguntei ao César, de chofre:
– Você já se acostumou com este burburinho aqui embaixo?
Quase, respondeu! Mas, têm noites que sinto falta de um galo cantando e até mesmo dos uivos nas madrugadas dos cachorros. Aqueles cachorros que desciam pela Rua Direita e passavam em frente à casa de minha mãe.
O último contato que tive com o Antônio César veio através de uma mensagem pela internet:
Bom dia, amigo Juca!
Você, como curador e divulgador de nossa terra, está sabendo sobre o desempenho e atuação de um bocaiuvense chamado NUZB?
Bom dia César! Sim, tenho acompanhado toda atuação do NUZB (Normálio Francisco), desde algum tempo! Ele é filho de minha grata amiga Jackelane, que é de Várzea da Palma , porém, morando aqui há certos anos. O marido dela é o Normálio, graduado funcionário da Rima. Todas as matérias divulgando o desempenho do glorioso bocaiuvense são a mim repassadas pela mãe, no caso, a amiga Jack. Sempre faço no FACE, no ZAP e em outros instrumentos possíveis, as divulgações sobre o nosso ilustre conterrâneo. Os pais , Jack e Normálio, são proprietários da famosa pizzaria Tutto Bello em Bocaiuva.
Em qual jornal houve a matéria mencionada acima? Na nossa cidade, infelizmente, não circula mais os chamados grandes jornais. Obrigado pelo “curador e divulgador”. Um forte abraço!
Oi, Juca. Saiu hoje no Estado de Minas, espaço do Helvécio Carlos (Caderno Cultura). Abração!
A morte de Antônio César tornou-se uma extraordinária perda para a nossa cultura. Conquanto, o seu nome ficará cravado eternamente na história cultural de nossa terra de Minas e do Brasil. Deixou sua mulher, três filhos e o irmão, João Roberto Drumond Amorim, professor e escritor.

* Juca Brandão é jornalista, escritor, advogado e colaborador do Em cima da notícia

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